João Rosan |
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O teatro lhe abre as portas de uma forma indolor na psique, jogando o jogo de ser o outro” |
Fechar ou abrir cortinas e desvendar o cidadão que está no personagem social é mergulhar em um universo sem roteiros, sem pudor e sem medo da maquiagem ou do uso do verbo. Essa, talvez, seja a “arte” de conversar com o ator, produtor, diretor, roteirista, encenador - como ele gosta de redefinir para ferir a ferida da arrogância -, Marco Giafferi.
Vegetariano no que entra pela boca, mas antropofágico no que sai da língua, Giafferi, psicólogo por formação e terapeuta a 30 anos, enfrenta os tabus como se desvenda os mitos sobre verdades. Em cena no palco, mergulha em seus “eus” temporários. Fora dele, não tem medo de transgredir. Ele rasga o modismo social do certo e do errado, subverte para alguns, alfineta para outros, até humilha para os desavisados...
Vivente da síndrome do índio (o que não cabe em suas costas, na mochila claro, não pode ser seu), ele diz que roteiriza sua vida para ver, experimentar cultura todo dia”.
Mas, na letra crua da encenação de viver, o personagem-cidadão protagoniza em Marco Giafferi uma dessas raras coragens de falar sobre nossas mentiras de ser e das ‘verdades’ de não ser. Leia os principais pontos da entrevista:
Jornal da Cidade: Por que você é ator?
Marco Antonio Giafferi: Não foi uma escolha. Eu nasci acho que dissolvido em uma personalidade forte e clara. Desde cedo sou defensor do que eu sinto, depois penso. Costumo, muitas vezes, repetir o que me indicaram: Não fale tudo o que pensa. Mas eu falo o que penso, o que sinto! Então o ser ator foi a maneira como, desde criança, eu me expressei nas brincadeiras, mesmo usando as mãos. E cada mão fazia um personagem. Não foi escolha. A vida escolheu que eu fosse ator. E, se existe outra vida, eu devo ter sido ao menos artista.
JC: Olhando para o tempo, em que momento você se descobriu ator?
Giafferi: O brincar de mão, o fazer teatro, para mim, é viver. Depois eu saio do viver para ir pagar uma conta, enfim, cumprir um compromisso. Acho que me descobri ator, sei lá, quando recebi um elogio por uma interpretação, quando ganhei um prêmio. Eu escutei de fora, de outras pessoas, que o que eu estava fazendo era ser ator. Para mim, este então é o momento. Porque, para mim, ser ou representar era viver.
JC: Você disse que “o teatro lhe abre as portas de uma forma indolor na psiquê, jogando o jogo de ser o outro”. O que é jogar o jogo de ser o outro?
Giafferi: É o jogo de se envergar humildemente para experimentar que o todo não é só você. Ou seja, é trocar de óculos, enxergar com outras lentes as experiências da vida. É como um inventário. Que você possa, em uma mesma vida, experimentar uma porção de cidadãos, costumes, valores, manias, tipos, sonhos, tristezas, problemas, jogos, poder. Quando você muda sua carapaça, o visual, mergulhado na construção de um personagem, você começa, meio que de forma intuitiva, a torná-lo presente. E você se assusta com o poder de ser outras coisas. A cada vez que a gente faz um personagem fica com uma nova sensação de que uma nova janela de 360 graus se abriu.
JC: Você sofre ou se alegra com as angústias ou virtudes de um personagem?
Giafferi: Depende. No passado, antes de ser mais preparado tecnicamente, ou maduro existencialmente, eu sofri e até me quebrei em cena. Uma vez fui receber um prêmio com o braço engessado. Assumi que cai em cena, porque acharam que aquilo tudo também era cena, criação e artístico. Na verdade, eu me soltei de uma altura de cinco metros e despenquei em cena, como alguém que pula de um paraquedas. Mas eu cai. Com o passar do tempo, fui aprendendo a dominar e a filtrar essas correlações. Aprendi que, por mais que você busque em seu histórico se conectar ou construir a personagem através de experiências suas, você tem de sempre ter o domínio. Porque perder a referência no trabalho não é o caminho nessa arte de representação. Você até sofre. Eu tenho no meu ser ator a incapacidade de fazer a cena só jogando tecnicamente e friamente, afastado da personagem. Eu sempre me contamino e é sabido que tem atores que desenvolvem úlcera ao fazer um personagem. Não chegaria a tanto, porque tenho controle e estou certo hoje que domino esta relação. Mas sempre vou estar com a personagem nessa viagem de viver a sensação de dor ou de euforia em cena.
JC: O Marco ator viveu, conviveu, com diferentes tipos ao realizar a arte de interpretar. O que acontece quando o Marco precisa abandonar a personagem?
Giafferi: Não tenho nenhum apego. Já fui senador romano em Calígula, fui padre, político, revoltado, já fiz a personagem de Leopold von Sacher-Masoch da qual se origina a palavra masoquismo, onde ele via a mulher se entregar, uma história real, embasada em histórico real. Todas as experiências são temporárias e isto está absolutamente consciente para mim. Elas passam a ser presentes, porque eu vivi essas personagens. E elas passam a fazer parte de uma aquarela que, cada vez que parece que vai se fechar um círculo, se abre um mundo , um ramalhete de possibilidades. E aí você aprende a observar o infinito.
JC: Você roteiriza sua vida absolutamente em cima de absorver ou fazer cultura?
Giafferi: Não existe, para mim, a possibilidade nem de imaginar a vida fora do eixo da cultura, da arte. Inclusive isso frustra muita gente. E talvez isso tenha sido problema para familiares, companheiras, companheiros. Eu só existo assim, no eixo cultural.
JC: Você morou, andou por diferentes culturas, sociedades. Quais eram os sentidos, para você, dessas experiências? O que você quis buscar nesses lugares?
Giafferi: O que eu queria era a diversidade. Eu nasci para experimentar. E sou uma pessoa que não tem pudor em experimentar. E desde criança eu fazia coisas escondidas. Por exemplo, eu colocava goiabada no feijão preto. E sem ninguém ver, para não ser ridicularizado. E esse ser de sempre me abrir e estar cada vez mais aberto, às vezes, me dá uma certa angústia de dissolver. É como se estivesse esgarçando a alma de tanto procurar, de tanto buscar informações novas. Mas eu já sei lidar com a ideia do infinito.
JC: Qual a relação do terapeuta, do psicólogo, com o Marco?
Giafferi: O terapeuta é uma pessoa que arrogantemente pensa que pode estar diante de uma pessoa igual a ele e que vai, num processo de um jogo e de uma técnica, ajudar o próximo. Não sou um terapeuta convencional. Desenvolvi naturalmente, sem pretensão, durante os atendimentos, uma forma de se relacionar com o outro. Por eu ter vindo do teatro, de trabalhos sempre em grupos grandes, com o coletivo, minha formação acadêmica não me convenceu que eu deveria sozinho fazer o processo de terapia. Se deixar ser visto, percebido e realizar o trabalho em um grupo é rico. Mas nem todo mundo consegue esse processo. Todo mundo consegue se permitir. E isso é profundamente saudável. Mas é preciso se permitir. O terapeuta foi uma forma de ganhar a vida sim. Mas minha terapia acabou logo no início dos atendimentos clínicos após o processo acadêmico. Porque dali já me tornei uma pessoa que fazia encontros terapêuticos com as pessoas. E não sessões convencionais.
JC: E como eram esses encontros terapêuticos?
Giafferi: Nesses encontros terapêuticos, a pessoa só tinha o horário de entrada na sessão e não havia possibilidade nenhuma de marcarmos o término ou de interromper o encontro. O processo consistia em a pessoa se localizar e colocar isso pra mim verbalmente, dizer como estava se sentindo e vivendo aquele momento. Depois, a pessoa passava a refletir comigo questões do histórico e, no momento em que a pessoa se sentia inflamada, ou abalada, mergulhada em si própria, passávamos para uma técnica corporal, abrangente, envolvendo várias técnicas de toques no corpo, ocidentais, orientais. E cada corpo, pelo tônus e a maneira de se expressar, uma técnica ou outra ia se priorizando. E essa busca de dissolver, deslocar as energias e os nódulos, essa malha que amarrava a pessoa, gerava uma catarse, uma grande experiência e vivência da pessoa consigo mesma. Para isso, tivemos sessões de 13, 16 horas. Não aceito como terapeuta essa ideia convencional de iniciar uma temática e interromper para retornar. O corpo fala muito sobre as pessoas. E as técnicas de ler, ver, temperaturas, sensações, você promove o deslocamento dessa energia. As pessoas te buscam porque estão com angústia, com dificuldade em amar, de se assumir, de ter contato físico, de se encontrar, de se expressar. Ninguém procura o terapeuta para uma festa. Não tenho nenhum problema de ser criticado, porque estou com 30 anos de atendimento e estou fechando a carreira para me dedicar só ao artista. Minha preocupação foi sempre de gerar confiança e identidade para aquela pessoa. De mostrar, com essa empatia, que há saídas.
JC: Com o que você se identifica?
Giafferi: Eu só me identifico com o ser humano. Por isso é que não tem graça nenhuma para mim estar dentro de um carro. Eu quero sempre beber e comer da arte. Ela é que me alimenta.
Perfil
Nome: Marco Antonio Giafferi, 52 anos
Nascido: em Bauru
Profissão:Psicólogo, terapeuta
Ator, diretor, roteirista
Filme: Blade Runner
Livro: “Eram os deuses astronautas”, de Erick von Däniken
Ator: Matheus Nachtergaele
Atriz: Eliana Goldman
Time: Não tem
Nota zero: Ao desumano
Nota 10: Ao humano
