Articulistas

O que para nós ainda é difícil de aceitar

Fábio Paride Pallotta
| Tempo de leitura: 3 min

Na década de 1990 do século passado, tivemos no Brasil, em pleno governo Collor, um secretário Especial do Meio Ambiente "sui generis": José Lutzenberger. Filho de imigrantes alemães, formado em agronomia, técnico e executivo da empresa alemã Basf, abandonou a profissão para dedicar-se à causa ecológica e ao ambientalismo.

Contava que foi levado a abandonar a abordagem tradicional da agricultura e a se dedicar ao meio ambiente quando, aconselhando agricultores do Marrocos a usarem menos pesticidas e a respeitarem o período de carência desses venenos, um desses agricultores lhe disse que não se preocupasse, pois aquele pomar era para a exportação e que o pomar para consumo da família, estava em outro lugar, longe dos venenos e com adubação e cuidados orgânicos. Refletindo sobre os caminhos da sua atividade profissional abandonou sua carreira na grande multinacional alemã para dedicar-se a Gaia, o Planeta Vivo. Sua passagem pelo órgão ambientalista do governo Collor foi rápida e tempestuosa, e marcada por denúncias suas de que no Brasil não se respeitava a questão ambiental com corrupção no Ibama, uso indiscriminado de venenos, caos urbano, enfim males que acompanhamos desde sempre até hoje. Em seu livro Gaia, o Planeta Vivo - Por Um Caminho Suave - Editora L&PM de 1990, em um dos capítulos ele explicava a "Dança da Umidade e da Chuva" (como poderia ser batizado o capítulo em questão), que a Floresta Amazônica não era o pulmão do mundo, mas sim a reguladora de umidade e do regime de chuva nas Américas, e fonte de uma biodiversidade única. A umidade vinda do Oceano Atlântico entra no Continente Americano através da Floresta Amazônica e troca energia com ela, através de uma dança de precipitação-evaporação-condensação por milhares de quilômetros até ser barrada pela Cordilheira dos Andes onde a unidade responsável pelo sistema de chuvas das Américas se divide e é encaminhada uma parte para o norte do continente e outra parte para o sul. Esse fenômeno poderoso da natureza, que tem a força e energia de milhares de bombas atômicas, foi presenciado pelo político estadunidense Al Gore, então vice de Bill Clinton, que, com assombro, em voo panorâmico pela região amazônica, viu por milhares de quilômetros esse importante fenômeno acontecer.

Pois bem, essas informações e constatações não comovem os corações e mentes dos brasileiros, em especial daqueles que decidem e que constroem economicamente a Nação. É que, com os desmatamentos constantes, temos cada vez mais na Floresta Amazônica correntes de ar ascendentes e secas que dispersam a umidade alterando o regime de chuvas do continente. Como se vê, a seca de hoje no Sudeste está sendo gestada há muito tempo. Não é demais imaginar que faz parte desse poderoso, mas delicado, sistema as matas de São Paulo e o cerradão de Bauru. Podemos continuar a cortar as matas impunimente? Não seria necessário repensarmos o nosso modelo de desenvolvimento, consumo, geração de empregos, de renda, lazer etc? Bauru terá seu precário sistema de geração de água melhorado com o desmatamento do cerradão em nome do "progresso"? São perguntas que não podemos deixar de analisar e responder em nome do futuro mesmo sabendo que vivemos hoje, aqui e agora.

O autor é professor de história

Comentários

Comentários