Articulistas

O PIB e o câncer

Fernando Strongren
| Tempo de leitura: 2 min

O Aécio diz que o Brasil precisa retomar o crescimento econômico. A Dilma diz que o Brasil só não cresce mais por conta da crise internacional. Eu dou um passo para trás e pergunto: queremos crescer para quem? E para o quê? Outro dia vi uma frase no Facebook que sintetiza bem essa crítica necessária ao fetiche pelo crescimento. "Crescer por crescer é a filosofia da célula cancerosa", dizia a postagem, que depois fui descobrir foi retirada de um texto do economista Landislau Dowbor, que atribuiu a máxima a uma faixa colocada por estudantes na entrada de uma conferência sobre economia.

Quando falamos em crescimento econômico, falamos no incremento do Produto Interno Bruto (PIB) do País, ou seja, no quanto a economia está movimentando e produzindo riquezas dentro do País. Mas é certo olhar para cifras gordas e altos percentuais de crescimento sem nos preocuparmos sobre de onde vem essa riqueza e como ela é distribuída entre a população? Delfim Netto, quando era ministro da Fazenda na ditadura militar, disse que era necessário esperar o bolo crescer para depois dividi-lo. Naquela época, o Brasil crescia em média 10% ao ano, com pico de 14%, mas o bolo nunca foi dividido e a concentração de renda no País cresceu assustadoramente. No cenário atual, esse pensamento permanece vivo na mente de muitos brasileiros e políticos, que veem o crescimento econômico como causa da prosperidade social, quando na verdade o crescimento pode vir atrelado ao aumento da pobreza, ao favorecimento do capital especulativo e à baixa qualidade de vida.

Assim, é necessário pensar sobre como é gerada a riqueza que eleva o PIB. Riqueza, nesse sentido, é a produção e consumo de bens materiais e serviços. Quanto mais se produz e consome, maior é o PIB, não importa se esse consumo e se essa produção destrói florestas, polui as águas, o ar e o solo, gera toneladas de lixo e amplia a fome e a miséria, como acontece na produção de commodities em grandes latifúndios. Em seu artigo, Dowbor cita o caso da Pastoral da Criança, que com trabalho voluntário reduziu em 50% a mortalidade infantil e 80% as internações nas regiões onde atua, mas prejudicou o PIB, já que o consumo de medicamentos e atendimentos hospitalares foi reduzido.

Na campanha eleitoral, candidatos e comentaristas desenham o PIB como índice fundamental para medir o desenvolvimento do País, mas em uma sociedade tão desigual e em um mundo à beira do colapso ambiental é preciso substituir a tríade falaciosa que une crescimento, emprego e prosperidade por uma perspectiva que una justiça social, qualidade de vida e equilíbrio ambiental.

O autor é jornalista e filósofo

Comentários

Comentários