Tribuna do Leitor

Reflexões


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Acordo... Um bem estar, uma leveza, a mente solta, livre... em plenitude. Uma espécie de música suave, indefinida, embala-me o pensamento, absolutamente descompromissado. Harmonia total entre mente e corpo... Um estado de graça.

Acordes clássicos de um piano, em suave melodia, ondulam-me não os ouvidos grosseiros da matéria, mas os delicados sensores da alma, ocupando-me o pensamento com deliciosos devaneios que só ao espírito é dado conhecer. A matéria não entende e nem aceita a sutileza do ato, enquanto o espírito se deixa envolver completamente. Nesses poucos instantes de felicidade plena, distingo perfeitamente o trigo e o joio, e tudo fica claro. É a mente, essência do ser, reunindo e reconhecendo as qualidades herdadas do criador e delas desfrutando por rápidos instantes, para logo desdenhá-las em função das exigências do livre-arbítrio, que tudo faz para atender aos clamores, às vezes nefandos, da tirana e poderosa matéria (corpo), pejada de desejos e necessidades, cheia de vontades e caprichos, movida por vaidade, inveja, ganância, prepotência e vícios outros que nos levam aos desvarios de comportamento.

É nesses raros momentos de clarividência que passamos a limpo nossa existência, no intuito de pôr às claras nossos deslizes, para tentar redimi-los. É quando, para nossa surpresa, dos refolhos do nosso ser, pequenos acontecimentos, tidos como corriqueiros do cotidiano, emergem agigantados de seu verdadeiro valor e de toda sua importância para a vida, cobrando reparação. E não que se tratasse de momentos em que tivemos de tomar decisões ou providências difíceis, mas de meros instantes em que, à guisa de exemplo, um ente querido, um amigo, ou até mesmo um desconhecido requeria um pouco de nossa atenção e nós, por comodismo ou até mesmo por descaso, deixamos de atender, fazendo-nos de desentendidos. Trivialidades semelhantes, que talvez não tomassem mais do que alguns reles minutos de nosso tempo, para o próximo poderia representar a solução de um problema que o afligia. Assim, tantos outros acontecimentos, por nós considerados de pequena significância, passam por nossa existência sem que tenhamos lhes dado a atenção necessária. São pequenos fatos que, não raro, vão tomando proporções maiores e nem sempre a reparação é possível, por ser extemporânea.

Assim, nesses rápidos instantes de reflexão é que reconhecemos que a vida não é feita apenas de grandes decisões, que pipocam no decorrer da existência, mas de todo um tirão ininterrupto que envolve também as entrelinhas do cotidiano. Na caminhada, não basta admirarmos as belas paisagens, temos que nos ater também ao derredor, para evitarmos tropeço que, com frequência, redundam em sérios arrependimentos.

Roldão Senger ? Membro da Academia Bauruense

de Letras (ABL)

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