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Crédito: seletividade

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 2 min

Os bancos que operam o sistema financeiro no Brasil continuam a atuar de maneira conservadora. Cobram juros exorbitantes e são seletivos na concessão de crédito. É evidente que não podemos imaginar que a retomada do crescimento da economia venha pelo aumento exagerado do consumo das famílias, já endividadas, mas a seletividade atinge também o setor empresarial.

Se de um lado isso é positivo, à medida que, em tempos difíceis com os atuais, garantem robustez ao sistema financeiro nacional, evitando maiores traumas internos, de outro lado dificulta a manutenção do nível da atividade econômica no país. Faltam recursos de capital de giro para garantirem as atividades básicas das empresas. Na prática, o governo federal é contraditório. Sabe que precisa movimentar a economia, assim libera recursos represados, por exemplo, no depósito compulsório, e ao mesmo tempo mantém os juros básicos elevados visando combater a inflação. Em qual estratégia deve-se acreditar?

Analisando este quadro, a seletividade passa ser estratégico por parte dos bancos. Emprestam recursos para quem tem recursos (ou melhor, não emprestam). Mesmo o volume de crédito concedido ter atingindo quase metade do PIB, ainda estamos distantes de ter garantia de aumento da liquidez no mercado. Só para exemplificar, em outros países semelhantes ao Brasil, a concessão de crédito atinge 100% do PIB. Isso com juros baixos, adequados ao patamar de inflação sob controle.

Podemos constatar que crédito está mais escasso. Exigências adicionais de garantia e corte em parte de limites já estabelecidos são algumas atitudes já adotadas pelos bancos que operam o mercado. Mesmo os bancos oficiais, em que o governo é majoritário, que já fizeram o papel de agentes indutores do crédito, perderam o apetite. Neste contexto, uma coisa é certa: ao longo dos anos os juros no Brasil precisam despencar atingindo a ponta, o tomador de recursos. E isso passa pela revisão do modelo econômico, choque de oferta via investimentos e austeridade nos gastos públicos.

Como os bancos ganharão dinheiro? Aumentando o giro. Como colocado, emprestam atualmente metade do PIB enquanto em outros países esse volume é no mínimo de 100%. O crédito é mais uma faceta do já debilitado mercado interno brasileiro, que precisa, assim que passarem as eleições, resgatar a confiança dos agentes econômicos. Até lá, o quadro em nada se alterará, infelizmente.

O autor é economista e articulista do JC

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