O PSDB não é um partido corrupto. O modelo de privatização imposto na década de 1990 foi o mais adequado para o país, pois o Estado reduziu suas dívidas interna e externa e recebeu um montante que permitiu que se dedicasse somente à saúde e à educação. No processo de venda das estatais, o governo FHC arrecadou R$ 85,2 bilhões. Como? Engolindo o débito, financiando sua aquisição e aceitando moedas podres (títulos públicos adquiridos por metade do valor), vendendo a prazo com dinheiro contabilizado. Arrecadou-se o montante pagando para vender as estatais, de maneira que o pagamento atingiu R$ 87,6 bilhões, ou seja, R$ 2,4 bilhões a mais do que recebeu. Não podemos eleger um partido corrupto como o PT. Mesmo porque o PT deixou que a Polícia Federal realizasse 50 vezes mais operações do que o governo FHC. Este, por sua vez, 18 dias depois de tomar posse, extinguiu a Comissão para investigar a corrupção (criada em 1993 pelo antecessor Itamar Franco).
Nada é mais viável do que o projeto tucano: neoliberal, com redução gradativa da meta de inflação, Banco Central Independente, forte ajuste fiscal, desregulação econômica, abertura comercial e câmbio flutuante. Redução da inflação requer juros elevados, o que afetaria a geração de emprego e inviabilizaria o processo de valorização do salário mínimo. Essa é uma opção extremamente viável para o Brasil aumentar suas desigualdades sociais, abrindo as portas para a privatização e mercantilização de serviços sociais.
Os governos Lula e Dilma, por sua vez, preservaram certa estabilidade na taxa de inflação e implementaram juros reais menores; houve fraco crescimento do PIB, o que não impediu a diminuição da taxa de desemprego e o aumento dos salários REAIS (acima da inflação). Isso tudo contribuiu para a melhoria dos indicadores de distribuição de renda, de mobilidade social e de redução da miséria extrema, além de tirar o país do Mapa da fome, segundo a ONU. Como se vê, um profundo retrocesso para o histórico engessamento da estrutura social. Não há como apoiar uma estratégia de inclusão e proteção social, com radical redução da pobreza, e muito menos aceitar solidariamente a inflação em troca da valorização real do salário mínimo e do baixo desemprego.
Ironias à parte, reconhecendo os erros do período Lula-Dilma e observando diversos aspectos dos projetos apresentados pela oposição, acredito que a volta do PSDB será um retrocesso ao país. Não sou petista e tenho diversas críticas à administração Dilma, mas declaro meu voto para tentar impedir o retorno de um projeto conservador e de política econômica prejudicial à população mais pobre. Em primeiro lugar, parafraseando Leonardo Boff, "de um Estado neoliberal e privatista que se alinhava ao neoliberalismo dominante, passamos a um estado republicano, Estado que coloca o social no foco da ação". Com isso, aqueles que estavam secularmente à margem, os "desinformados" (na visão de FHC), foram, em sua grande maioria, inseridos na sociedade.
Em segundo lugar, a estratégia de desenvolvimento econômico apresentada pelos governos petistas pauta-se em ideais de redistribuição de renda, criando um círculo vicioso ao ampliar o mercado interno com sustentação em três frentes de expansão: investimentos em produção e consumo de massa, em infra-estrutura e na produção de bens e serviços intensivos em recursos naturais.
Por fim, a forma de inserção internacional mudou em muitos aspectos com os governos petistas. Prevaleceu a proposição de um programa social interno com impacto internacional, com propostas relacionadas com a nova agenda externa que procurava corrigir as distorções criadas pela globalização centrada em comércio e investimentos livres. Só me resta torcer para que Aécio Neves nunca passe de um presidenciável. Jamais um presidente. Discordo dos métodos do PT utilizados em razão da "governabilidade" e reitero que diversos pontos negativos precisam ser revistos, mas reconheço a importância dos governos Lula e Dilma na construção de uma sociedade mais justa e igualitária.
Bruno Pasquarelli