Pobre de um país onde um conceituado empresário da cidade escreve no seu facebook, logo após saber da reeleição da presidenta Dilma: "Essa vaca...". Essa manifestação, além de ultrapassar os limites da civilidade é corroborada por muitos como sendo a coisa mais normal desse mundo, afinal, o seu lado perdeu uma eleição e nem aceitar o tal do jogo democrático é mais salutar. Salutar é desafogar todas as mágoas no adversário, agora já declarado inimigo e mortal.
Na edição do JC de ontem, seção Opinião, a continuidade disso. Num texto de outro empresário, dessa vez podendo ter seu nome mencionado, pois a declaração foi feita no jornal de maior circulação da região. Ricardo Coube, do alto de seu posicionamento, reafirma o que mais se repete hoje dentre parcela significativa dos paulistas: "Como somos muito religiosos, podemos rezar para algum avião cair, mas com as pessoas certas, e não Eduardo Campos, etc...".
Quando fui ler o conteúdo, primeiro do post no facebook e agora na opinião do empresário, em ambos a mesma interpretação caolha da realidade à sua volta. O mundo só tem valor para esses quanto atende aos seus interesses de dominação, nada mais vale, nada mais é levado em consideração, mesmo que a realidade do país tenha sofrido uma profunda melhora nos últimos doze anos.
Não importa que o pobre hoje possa cursar o mesmo curso universitário que o seu filho, que possa ocupar a poltrona ao lado no mesmo avião, que a saúde ambulatorial melhorou a olhos vistos, que a habitação popular deu uma guinada. Não importa que o país tenha conseguido sua independência financeira junto ao FMI, tenha participado da mais alvissareira iniciativa econômica mundial, o Brics, ou tenha conseguido tornar-se respeitado internacionalmente pelas suas posições firmes e altaneiras. Nada disso é sequer enxergado. O que vale é a sua situação, a do empresário que não quer dividir mais nenhuma fatia do seu bolo em prol desse imenso país clamando por mais e mais.
Ainda bem que o lado mais palatável venceu a contenda. A corrupção não é exclusividade desse ou daquele, sendo endêmica, pois não vive sem o capitalismo, aliás, faz parte dele. Já as realizações de cunho social possuem um lado e, quando atendidas, esse outro mostra-se como sempre arrogante, impertinente, insensível e retrógrado. A hegemonia está por um fio e isso é inconcebível. Pelo que vejo, para esses, três séculos e meio de escravidão é muito pouco. Manter tudo como dantes na ?casa grande e senzala? é o que vale. Esses querem sempre mais e não possuem escrúpulos para conseguir isso. Até rezam pela morte dos adversários.
Henrique Perazzi de Aquino