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Flores, orações e calor no "Finados"

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 3 min

O carinho revelado em orações, flores, velas, lágrimas de saudade e visita aos cemitérios. Assim é marcado o Dia de Finados para a maioria dos brasileiros. Celebrada em diversos países e culturas, cada um à sua maneira, a data é marcada por rituais e simboliza a lembrança dos que já se foram.

 

Para o funcionário público aposentado Isaías Oliveira, a visita ao cemitério no dia 2 de novembro é tradição religiosa e herança de família. Além de visitar os túmulos de familiares, ele faz questão de queimar velas no cruzeiro e orar por todas as almas.

 

“Aprendi com meus pais a fazer isso. Acendo as velas no cruzeiro, faço orações e cumpro o meu dever”. 

 

Imagens de santos e flores também são deixadas pelos visitantes nos cruzeiros de cemitérios da cidade. No Cemitério da Saudade é possível observar os rituais de diferentes culturas e crenças. Há quem deixe balas nos sepulcros de crianças. Alguns católicos rezam terços diante dos túmulos e famílias de origem japonesa costumam mesclar as tradicionais flores com frutas, biscoitos, garrafas de água e doces típicos do Japão. 

 

E ainda há as preces e agradecimentos diante das sepulturas de pessoas tidas como milagreiras, além de túmulos de famosos como o de Batista de Carvalho, entre muitos outros. 

 

De Mara Lúcia para Mara Lúcia 

 

Uma das sepulturas mais visitadas em Bauru é a da menina Mara Lúcia, no Cemitério da Saudade. A criança foi morta aos 9 anos de idade após ser estuprada, em 15 de novembro de 1970, e o corpo foi encontrado, já em decomposição, em uma residência abandonada na quadra 8 da rua Professor José Ranieri, quatro dias após ter desaparecido. Ninguém foi acusado formalmente pelo crime.

 

Muitos acreditam que graças são alcançadas quando pedidos são feitos à alma da menina. Em seu túmulo é possível encontrar brinquedos, muitas flores, velas e placas de agradecimento. 

 

Ontem, por coincidência, quem agradecia e orava pela alma de Mara Lúcia era Mara Lúcia Moretti.

 

“Não tenho só o mesmo nome que ela, também nasci no mesmo ano que a menina. Pedi por milagres em minha vida, estou recebendo e, hoje (ontem), vim agradecer a este espírito de muita luz”. 

 

Flores A Maria Nunes 

 

Outro jazigo bastante visitado no Cemitério da Saudade é o da parteira e benzedeira Maria Nunes, morta em 1917. Ela era conhecida por ajudar as pessoas mais pobres e até hoje é procurada para auxiliar mulheres grávidas em gestações difíceis. 

 

Desce criança, a dona de casa Tereza Souza ouve falar nos milagres atribuídos à mulher.

 

“Dizem que ela sofreu muito. Ouvi dizer que foi prostituta e que ajudava muita gente. Não sei como foi a vida dela, mas faço questão de fazer minhas orações”, diz Tereza.  

 

Letras de carinho 

 

Durante todo o fim de semana, voluntários da Associação Chico Xavier colocaram em prática o projeto “E a vida continua...”, que doou, no Cemitério da Saudade, cerca de 500 exemplares do livro “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec, além de 10 mil mensagens espíritas e um DVD gravado com o professor Nazil Canarim Júnior, que responde questões sobre a vida após a morte. “Além de divulgar a doutrina, objetivamos acarinhar e consolar os que perderam entes queridos. A gente percebe o sofrimento das pessoas por não entenderem essa separação e procuramos ajudar dessa maneira”, explicou o voluntário Carlos Henrique Carvalho. 

 

Primeiro ‘morador’

 

João Henrique Dix foi o primeiro “morador” do Cemitério da Saudade.  Segundo memorialistas, ele doou o terreno para a construção do cemitério, inaugurado em 1908. Um dia depois da solenidade de inauguração, ele teria cometido suicídio com um tiro no coração para ser o primeiro a ser sepultado no local. 

 

“A história desperta a nossa curiosidade e, todos os anos, visitamos o primeiro túmulo. Achamos que está abandonado, como se ninguém cuidasse ou visitasse. Então acolhemos como roteiro de nossas visitas e orações”, conta Silas Ferreira da Costa, ao lado da esposa, Jardimira Pavan da Costa.  

 

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