Quem se arriscaria a falar mal das árvores, a interferir em símbolos quase sagrados, que despertam sentimentos de perenidade e transformação? E como agir quando o caminho do desenvolvimento esbarra no meio ambiente? Este é um dilema atual, que se materializa nas calçadas de nossas cidades. Urbanização traz implícita a reflexão sobre a coexistência das árvores e jardins com as necessárias infraestruturas de serviços de energia elétrica, telecomunicações, distribuição de gás, redes de esgoto, água potável e água pluvial, conhecidos como utilities. Outros pontos ainda importantes a considerar são os espaços reservados para circulação de pedestres, coletores de resíduos, pontos de ônibus e metrô, sinalização vertical, iluminação pública, acessibilidade para pessoas com algum tipo de restrição física, além das recentes ciclovias.
O contexto urbanístico não pode considerar apenas um ou outro elemento isoladamente, nem tampouco privilegiá-lo. Quando pensamos em um mosaico ideal, devemos lembrar que a arborização urbana envolve uma característica peculiar, por tratar-se de ser vivo, envolve processos de crescimento, dormência, florescência, frutificação, senilidade e morte. Essas características fazem com que o a sua implantação, bem como sua frequente manutenção, necessitem de forte planejamento e manejo (condução, poda e reposição).
Uma das soluções usualmente apontadas para compatibilizar os elementos da urbanização seria transferir parte, ou a totalidade, das infraestruturas das utilities para o nível abaixo do solo, desobstruindo o passeio publico e contribuindo para a liberação de mais espaço e para a beleza cênica. Apesar de desejável, essa alternativa apresenta limitações, como a falta de ordenamento legal dos municípios para o uso do subsolo e o não-reconhecimento dos investimentos para ressarcimento das utilities pelos poderes concedentes, por não se tratar de padrão internacional, sendo adotado apenas de forma pontual em algumas áreas das principais cidades mundiais.
Diante desses impasses, há pouco ou nenhum avanço no processo urbanístico das cidades brasileiras. Uma vez que a opção por viver nos centros urbanos tem sido a escolha que os diferentes povos do planeta fizeram ao longo dos tempos, faz-se necessária a mobilização de governantes, legisladores, sociedade civil e empresas, para buscar regulamentos, diretrizes e financiamento para, de forma ambiciosa, acelerar a transformação de nossas cidades, trazendo o verde das árvores e jardins como um elemento fundamental do nosso convívio nos centros urbanos.
O autor é diretor de meio ambiente da CPFL Energia