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A crise da falta de água

Roberto Hamilton Salvadeu Cruz
| Tempo de leitura: 3 min

Para quem é leigo no assunto, o conceito de período de retorno usado pelos hidrólogos nos estudos de eventos de enchentes ou de períodos críticos de falta de chuvas é algo um tanto abstrato e difícil de entender. Esse conceito envolve estudos estatísticos de séries históricas de medições de grandezas hidrológicas, como vazões e alturas de chuvas. Diz-se que um período de estiagem de recorrência 20 anos corresponde a se ter, em média, um evento crítico a cada 20 anos. Isso não quer dizer que só acontece de 20 em 20 anos, mas que o evento tende a se dar nesse intervalo de tempo. Por outro lado, quanto maior o valor de período de retorno, mais crítico e intenso o evento se manifesta. Uma enchente ou estiagem de 10 anos é muitíssimo menos intensa do que a de 1.000 anos. Esta introdução é para analisarmos o que está ocorrendo com a falta de água em São Paulo. Os engenheiros do Centro Técnico de Hidráulica da Universidade de São Paulo (CTH), um órgão extremamente sério e de referência nacional, estimaram o período de retorno desta ausência de chuvas como muito superior aos eventos similares ocorridos nos últimos 60 anos. Infelizmente, o evento crítico que está acontecendo tem se prestado para ilações políticas, o que não aconteceria fora do período eleitoral.

De fato, a tendência é de se fazer a clássica pergunta: "Por que antes não se tomaram providências para se evitar os problemas decorrentes desta estiagem?". Humanamente, compreende-se que todo mundo tende a se comportar assim e a procurar um possível culpado pela incúria de não ter tomado as providências necessárias para evitar os graves problemas decorrentes. Contudo, é preciso entender como as coisas funcionam. Em primeiro lugar, obras hidráulicas são extremamente caras, em geral de grande porte, e demandam muito tempo para serem feitas. Hoje em dia não se fazem obras de grande magnitude sem uma série de estudos. Começa-se pelo anteprojeto, vindo a seguir estudos de viabilidade técnica, de benefícios e custos, de impactos ambientais, com eventuais audiências públicas, de obtenção de outorga junto aos órgãos governamental estadual e federal e eventual acordo político quando se vai interferir nos interesses de outros estados ou municípios e - só então - executa-se o projeto executivo, a licitação e a execução da obra. Isto explica por que não se projetam com antecipação obras hidráulicas vultosas, pois elas podem ser questionadas, em períodos normais, como postergáveis ou mesmo desnecessárias, quando visam solucionar eventos catastróficos com períodos de retorno elevados.


Eu mesmo já tive de enfrentar questionamentos, por exemplo, do tipo: "Por que o extravazor desta barragem é tão caro e desnecessariamente tão grande?". "Para suportar a passagem de uma enchente milenar", eu respondia e aí vinha a parte mais difícil, fazer entender o que seria essa tal enchente e que ela poderia não demorar 1.000 anos para acontecer... E o pior: para cada período de retorno de um evento corresponde o risco de suceder outro ainda mais catastrófico. O que se faz é seguir protocolos dos manuais de projetos que indicam valores razoavelmente seguros para o risco conforme o tipo de obra hidráulica, levando em conta que maior o valor adotado no projeto, maior o seu custo. Isso tudo para entender que dar uma solução para a falta de água em São Paulo não é um problema trivial e que, mesmo soluções ditas emergenciais podem ser caras e exigir algum tempo para serem concretizadas.


Basta lembrar que, como foi indicado acima, atravessamos um período extremamente seco, com elevado período de retorno e que as obras já feitas por técnicos muito competentes (muitos dos quais conheci pessoalmente) em governos passados o foram com riscos tidos na ocasião como aceitáveis e economicamente viáveis. Infelizmente, ainda não se descobriu meios de usar a clarividência na previsão dos ciclos hidrológicos...


O autor é engenheiro hidráulico, com doutorado

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