Regional

Médico do "interior" e seus "causos"

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

A ideia de construir um asilo para idosos, segundo o médico João Carlos Hueb surgiu quando ele percebeu que alguns idosos não tomavam o remédio na hora certa. Foram três anos de muitas ações para erguer o prédio. Depois da inauguração, não tinha morador. O primeiro foi um andarilho que logo depois deixou o local.

“A maior parte de minha clientela era formada por idosos. Com o tempo percebi que alguns deles ficavam sozinhos em casa, pois seus familiares saíam de madru­gada, rumo ao corte de cana, e voltavam à noite. O resul­tado disso era que eles não tomavam os remédios direito e se alimentavam mal, enfim, não eram bem cuidados.”

Em reunião com várias pessoas da cidade, a maioria do Rotary Clube, o médico pediu ajuda para construir o asilo. “Meus amigos, nós temos que construir um asilo na cidade. Vários idosos de Macatuba estão malcuidados devido às condições inapropriadas de seus familiares para cuidar de um idoso. Os presentes concordara. Falamos com o prefeito, na época Fernando Valezi Filho, que imediatamente se comprometeu a doar a área para a construção do asilo.”

Haviam várias áreas e a opção foi por uma quadra ao lado do Centro de Lazer do Trabalhador. “Arregaçamos as mangas e parti­mos em busca de dinheiro para a construção. Pedimos doações, fizemos rifas, bingos, quermesses etc. Em três anos o asilo estava pronto e mobiliado. Contratamos uma senhora de nome Eva Pazetto, que ficaria encarregada de cuidar dos velhi­nhos.”

A espera por candidatos a ocupar uma das trinta vagas do asilo criou ansiedade no médico. “Eu estava me sentindo o próprio Odorico Para­guaçu quando ficamos sabendo que tinha um andarilho idoso dormindo no jardim da praça da matriz. Imedia­tamente pedimos para a dona Eva ir até lá e convidá-lo para ir para o asilo. Quando ele chegou, seu estado era de dar pena. Estava com a barba e os cabelos compridos e sujos, as unhas grandes, a roupa esfarrapada, malchei­roso e com uma grande ferida infectada na perna.”

O morador não ficou por muito tempo. Depois de tratado e com a ferida cicatrizada ele comunicou que iria embora. “ Dona Eva me informou que o seu Zé ia embora. Pedi para ela segurar ele por lá e fui conversar com o andarilho. Perguntei porque ele queria ir embora agora que estava saudável. Ele me respondeu que era andarilho e que o destino dele era andar pelo mundo. Só assim se sentia feliz. Tive que concordar e ele se foi.”

Asilo não ficou sem morador

O asilo tinha doze apartamentos e uma enfermaria e depois do episódio do seu Zé sempre se manteve com lotação máxima: trinta idosos. “Felizmente nunca tivemos problemas com seu custeio. A padaria do Do­minique fornece os pães; o açougue do Jorge, os fran­gos; vários sitiantes, na época das frutas, levam caixas de manga, laranja e tangerina; e algumas famílias forne­cem mensalmente algum tipo de alimento. O dono da pizzaria da cidade, chamado de Zé da Boia, levava sema­nalmente para o asilo uma peça de muçarela.”


Imagem que chorava atraiu milhares de pessoas a Macatuba

O livro conta que em Macatuba acontecia de tudo. “Certa vez anun­ciaram que uma imagem de Cristo, que ficava na igreja, estava chorando lágrimas de sangue. Foi a maior agita­ção na cidade, principalmente com a chegada das emis­soras de televisão, jornais e revistas de São Paulo, que noticiaram o fato. Na porta do salão paroquial, onde ficava a estátua, fazia fila de pessoas que queriam ver o Cristo chorando, inclusive pessoas de outras cidades que invadiram Macatuba.”

O médico João Carlos Hueb estava curioso. “Re­solvi constatar com meus próprios olhos o milagre de Macatuba. Fui para casa paro­quial. Eram aproximadamente oito horas da noite quan­do cheguei. O local estava entupido de gente. As pessoas se amontoavam em uma fila desorganizada. Quando fui me aproximando e perceberam que eu estava ali, alas­trou-se a notícia de que eu tinha chegado para examinar o Cristo. Escutei um murmúrio sequencial em que as pessoas diziam: Abram caminho, que o Dr. João chegou para exa­minar o Cristo.”

O médico deparou com uma estátua da cabeça de Cristo pregada na parede, nela se viam dois riscos avermelhados saindo dos olhos e correndo pela face. “Ao lado, sentado em uma cadeira, como guardião da estátua, estava o padre José Corsini. Cumprimentei-o e subi em uma cadeira para observar o fenômeno bem de perto. Nesse momento co­locaram uma lente de aumento em minha mão, para que eu examinasse melhor.”

Ele perguntou ao padre. “Nós temos um laboratório de análises clíni­cas no hospital. Será que o senhor me autorizaria a re­tirar uma pequena amostra deste líquido para que fosse examinado? A resposta foi: Olha bem, doutor, é claro que se o senhor olhar este líquido no microscópio não vai encontrar hemácias, pois isto não é sangue. Mas mesmo assim não deixa de ser um milagre, manifestado de forma simbólica, o Cris­to chorando lágrimas de sangue.”

Hueb confessa que aceitou o argumento e foi embora sem acreditar que aquilo pudesse ser um milagre. “A imagem foi levada para a Diocese em Botucatu e nunca mais tivemos notícias dela. Mas o pior ainda estava por vir. Correu um rumor em Macatuba de que o fato de o Cristo ter chorado lágrimas de sangue era sinal de que algo muito ruim iria acontecer na cidade. E não demorou muito.”

Uma manhã quando o médico estava no hospital uma pessoa entrou correndo e pediu a ele que fosse ver o padre que estava passando mal na casa paroquial. Hueb seguiu com a ambulância dotada de instrumentos e uma enfermeira. No local ficou sabendo que o padre não tinha aberto a casa como de costume. “Foi preciso arrombar a porta. Me deparei com o padre José Corsini de pijama branco de bruços, com uma poça de sangue ao seu redor. Ao colocá-lo de barriga para cima, notei várias perfurações de faca em seu tórax.”

O médico constatou que o padre havia morrido há mais de 10 horas. “Depois de algum tempo, a polícia descobriu que o assassino era um rapaz que morava perto de minha casa. Ele matou o padre para roubar o dinheiro do dízimo.”


Cortadores de cana eram vítimas de insolação no período de colheita

A agricultura de Macatuba se baseava no cultivo da cana-de-açúcar. O corte da cana era feito de forma manual e antes do corte a cana era queimada para facilitar sua colheita. “Tínhamos que conviver com a injúria ambiental, e quem mais sofria com isso eram as crianças. Alguns estudos demonstraram que, durante a safra da cana, a incidência de doenças respiratórias aumentava muito. Mas os usineiros nunca se preocuparam muito com isso.”

O trabalho nos canaviais era tão extenuante que, à tarde, na Santa Casa, di­ficilmente o médico ficava sem atender um trabalhador com insolação. “Eles chegavam ao pronto-socorro pretos de tanto carvão, com apenas os olhos à vista na face, com câimbras horríveis.O tratamento consistia em infun­dir uma grande quantidade de soro na veia, para repor a perda de eletrólitos resultante do suor exagerado. O trabalho era tão exaustivo que, de vez em quanto, um trabalhador morria no canavial durante o trabalho.”

Este é o problema que hoje que o Ministério Público do Trabalho tem acionado as empresas na Justiça do Trabalho para reduzir o corte de cana em dias quentes.


Com a alma leve

Depois que começou a fazer o atendimento voluntário o médico percebeu que o grande beneficiado era ele mesmo. “Era uma troca: eu dava o atendi­mento médico e recebia o bem-estar que ele me causava. Voltava para casa muito cansado, com o corpo pesado, mas com a alma leve. Percebi mais, aquela medicina que eu faço naquele quar­tinho do asilo, sem nenhum recurso técnico, é que é a verdadeira medicina.”

Ele lembra que chama o paciente pelo nome e já começa a curar a partir do momento em que ele atraves­sa a porta do consultório. “Ali eu não tenho nada, mas tenho o meu conhecimento e o amor pelo paciente, o que, inevitavelmente, me impele a compartilhar de seu suador e do seu sofrimento. No fundo, como meu pai e meu avô, eu também sou um mascate, só que minha mercadoria não é uma camisa, um vestido, tampouco pedras de Jerusalém. A minha mercadoria é a cura e o alívio da dor.”  Hueb teve a oportunidade de experimentar quase todas as facetas da medicina. “Até pouco tempo atrás – hoje menos – os meandros impenetráveis da medicina escondiam coisas inimagináveis para as pessoas “normais”.”

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