Regional

"Chuvisco" mudou a visão sobre o alcoolismo de Hueb

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 2 min

“Comecei a mudar meu conceito sobre o alcoolis­mo quando passei a tratar de um senhor negro que an­dava alcoolizado pelas ruas da cidade, apelidado de ‘Chuvisco’. Internei-o para desintoxicar, depois consegui uma vaga para ele no asilo. De vez em quanto ia visitá­-lo. Ele estava sem beber, comia bem, tomava banho todos os dias e estava bem vestido,” conta o médico João Carlos Hueb.

Só havia um problema aquele “Chuvisco” brincalhão, que andava pe­las ruas, deu lugar a um “Chuvisco” tristonho e cabisbai­xo. “Uma vez, quando cheguei ao asilo, a zeladora veio ao meu encontro e contou que ele tinha saído e bebido. Ela esperava que eu lhe aplicasse uma bronca.”

O médico foi ao encontro de “Chuvisco” e encontrou-o sentado na varanda, no centro de uma roda de velhinhos. “Ele estava todo  prosa, gesticu­lando e dando risadas. Era outra pessoa. Como ele não havia me visto, dei as costas e voltei, dando de cara com a zeladora, que me disse: E aí, o senhor deu uma bronca no ‘Chuvisco’? Respondi que não e pedi que ela não falasse nada para ele.”

Nova visão

Hueb pediu que a zeladora deixasse-o sair quando ele quisesse. “Passei a ter uma nova visão do álcool, que em algumas situações é necessário e altamente be­néfico para certas pessoas. “Chuvisco” era um negro, sem família, sem emprego, sem casa, enfim, sem nenhuma perspectiva. Que futuro a vida lhe reservou? Nenhum, apenas sofrimento. De repente aparece o álcool, que lhe anestesia a alma e oferece a ele um mundo virtual, cuja fantasia transcende a realidade. Qual o preço disso? Vi­ver uns poucos anos a menos, de uma vida que nem é vida?”

O Pacheco era outro alcoolista de Macatuba. Andava pelas ruas com seus dois cachorros, “Ronaldinho” e “Capeta”. Ele frequentava muito a igreja e sempre que encontrava alguém, ele repetia o que ouvia dos carismáticos. “Jesus te ama, viu? Um dia ele entrou na igreja e seu cachorro ‘Capeta’ entrou atrás. De repente, no meio do maior silêncio, ele começou a gritar: “Sai, ‘Capeta’! Sai, ‘Capeta’. Os católicos levaram o maior susto, achando que alguém estava sendo exorcizado.”  Como todos da cidade estavam acostumados a ver o Pacheco dormindo bêbado nas praças, certa manhã ele caiu morto em uma praça e só foram perceber que ele não estava dormindo bêbado no outro dia.


Alcoolismo & miséria familiar

O médico ficava preocupado com os alcoolista que havia na cidade de Macatuba.  “Travei uma verdadeira bata­lha contra esse vício na cidade. Internava os pacientes no hospital durante sete dias para desintoxicação e os medicava para diminuir a compulsão pela bebida. Eles ficavam em torno de um mês sem be­ber, depois voltavam com tudo na bebida.”

Diante da situação, o médico resolveu levar os Alcoólicos Anônimos para a cidade. “O AA é uma psicoterapia de grupo, em que os frequentadores davam depoimentos de vida. Os alcoólicos que conseguíamos inserir no grupo passavam uma boa temporada sem be­ber. No início a frequência foi boa, depois restou só um integrante.”

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