Esperei uma semana para escrever este artigo com muita calma, baseada nas reações dos diversos segmentos sociais e políticos diante da reeleição da presidenta Dilma Rousseff, do PT. Foi "uma das disputas eleitorais mais acirradas de nossa história pós-ditadura" é a opinião mais freqüente de comentaristas de ambos os lados. Pode não ter sido bem assim, talvez porque tenhamos esquecido as falcatruas políticas do PIG (Partido da Imprensa Golpista), iniciadas em 1989, quando Collor derrotou Lula no segundo turno, graças a um golpe midiático da Rede Globo, o primeiro da série que continua até hoje, mas o único que conseguiu o resultado esperado.
Depois veio o impeachment merecido de Collor, quando a imprensa hegemônica falou pela primeira vez em "corrupção", mas sem mencionar o nome de nenhum dos corruptores, pois isso ainda era um tabu nos meios sociais. O vice Itamar Franco assumiu e criou o Plano Real, chamando FHC para ministro da Fazenda. Conseqüência imediata foi a vitória de FHC, em 1994 e a primeira reeleição em 1998. A votação no Legislativo dessa emenda em favor do próprio presidente permanece até hoje sob suspeita de "compra de votos" de parlamentares, com alguns deles confirmando a denúncia, mas a ação da Justiça sob controle severo dos tucanos no poder. Foi no mesmo ano de 1998 que surgiu a primeira denúncia do mensalão tucano em Minas Gerais, já com o uso do "valerioduto", termo derivado do nome de um publicitário mineiro, na tentativa de reeleição de Eduardo Azeredo ao governo do estado.
Já posso justificar o título do artigo: eu tinha pensado em dizer que havia dois tipos de privataria nos meios tucanos, mas com os dois parágrafos anteriores, descubro que dois é pouco, há mais coisas nas políticas sujas do que sonham nossas vãs opiniões. Há a privataria oficial, surgida no livro "A Privataria Tucana", que o premiado jornalista investigativo Amaury Ribeiro Jr levou dez anos para escrever, coletando provas oficiais em cartórios e juntas comerciais do Brasil, EUA e Caribe, onde estão os paraísos fiscais usados para esconder o "lucro" das falcatruas usadas nas privatizações que encerraram o nefasto governo de FHC . A Geração Editorial, de Luiz Fernando Emediato, publicou a obra em 2011, no ano seguinte da terceira derrota dos tucanos para o PT, nas disputas pela Presidência do Brasil.
Para bem iniciar minhas reflexões, reli (pela terceira vez) as 340 páginas do livro de Amaury Ribeiro Jr. A obra mostra tantos trejeitos financeiros e políticos do malfadado processo de "privatização + pirataria = privataria", que o leitor se sente envolto em lama e podridão.
Um mês depois saiu uma segunda reimpressão. O tucano mais visado nas denúncias foi José Serra, em conluio com sua filha Verônica, seu genro Alexandre Bourgeois e um primo por afinidade, o espanhol Gregório Marin Preciado, citado 32 vezes, segundo o Índice Remissivo do livro. Cada um se amoitou e não disse nada sobre as denúncias, embora a filha de Serra tenha sido indiciada em crime de quebra de sigilo bancário de muitas pessoas.
José Serra foi o terceiro tucano derrotado pela primeira mulher eleita presidenta em 2010, e era o Ministro do Planejamento do governo FHC e dono do martelo. A Rede Globo fazia questão de mostrá-lo em rede nacional, ao brandir esse instrumento tradicional em qualquer tipo de leilão. Houve uma CPMI, envolvendo Câmara e Senado, que era transmitida ao vivo, não me lembro se em canal aberto ou na TV Senado. Quem estava interessado, e tinha tempo disponível, pôde ver a cara de pau dos envolvidos.
Foi um espetáculo de lavar a alma dos petistas, mas a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal nem se abalaram. Não houve nenhum processo judicial. Aliás o primeiro partido no poder a ser julgado no STF foi, é claro, o PT.
Há também um livro, de Palmério Dória, "O Príncipe da Privataria", mostrando o envolvimento de FHC, que gosta de ser chamado de "príncipe dos sociólogos". E outro livro, do jornalista Paulo Moreira Leite, "A Outra História do Mensalão", mostra as manipulações jurídicas na corte e nos órgãos de imprensa pigais. O espaço não me permite contar tudo que sei!
A autora é professora é doutora em análise semiótica dos discursos