Cultura

No universo de Taiguara

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 4 min

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CD ‘Ele Vive’, de Taiguara: pacifista contestador

“Obrigado. Muito obrigado”. Assim, após aplausos, é encerrado o álbum póstumo de Taiguara, “Ele Vive” (Gravadora Karup). O agradecimento originalmente ocorreu em show de 1990, no Teatro João Caetano, no Rio, após cantar “Hoje”, que fecha o CD – Taiguara morreria em 14 de fevereiro de 1996, vítima de câncer, aos 50 anos. A gravação ao vivo é uma das 15 canções recuperadas no novo disco.

Assim como ocorreu com o projeto “Anthology” dos Beatles, quando gravações caseiras de John Lennon se transformaram em músicas do grupo com tratamento de estúdio, canções de Taiguara ganharam a luz após serem garimpadas de fitas cassete.

A diferença é que, nos anos 90, os Beatles remanescentes concluíram duas músicas dessa forma (“Free as a Bird” e “Real Love”) – e o disco de Taiguara tem 11 canções inéditas nesses moldes, além de quatro raras ao vivo (como “Hoje”).

O produtor/”artesão” do trabalho é o baixista Pedro Baldanza (ex-Som Nosso de Cada Dia, banda progressista dos anos 70, e que também atuou como músico de Elis Regina, Sá & Guarabyra, além de Novos Baianos). 

“Tinha hora que a gente parava e ficava sinceramente comovido com o que estava acontecendo no estúdio”, conta Baldanza. “Pegamos voz e piano do Taiguara e preenchemos as reticências. Na verdade, Taiguara, mesmo nas gravações caseiras, já apresentava o caminho dos arranjos. Procuramos respeitar a sua originalidade”.

Aos 61 anos, Baldanza diz desconhecer um trabalho com a mesma extensão no Brasil. “Foram quarenta fitas cassete. A partir dessa digitalização, o material pôde ser trabalhado por toda uma equipe. Foi bem manual e muito envolvente”.

"Trata-se de um resgate necessário, já que a obra de Taiguara ficou incompreendida por muito tempo. Rolou um hiato porque a ditadura foi muito pesada com ele”.

Baldanza acrescenta que o álbum também traz canções com viés latino e africano. “E, sobre as letras, tem muito valor para a meninada que está politizada hoje no País. Taiguara já pensava e agia com espírito combativo”.

Também um livro

A Kuarup já havia sido responsável por recuperar, em 2013, o polêmico álbum “Imyra, Tayra, Ipy” – retirado das lojas pela censura em 1976 apenas 72 horas após seu lançamento. Taiguara era um dos maiores alvos da “tesoura” da época por conta de sua postura crítica e libertária após premiada fase romântica como intérprete em festivais (com sucessos como “Universo no Teu Corpo”).

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Capa do livro ‘Os Outubros de Taiguara’, recém-lançado

Agora em 2014, músicos que participaram do álbum original “Imyra...”, como Toninho Horta e Wagner Tiso, decidiram se reunir para shows de homenagem – o que rendeu também dupla apresentação no programa de Chico Pinheiro na Globo News, “Sarau”.

A atração destacou Taiguara como o “artista mais censurado do Brasil”.

A avaliação é compartilhada pela jornalista Janes Rocha, que acaba de lançar “Os Outubros de Taiguara”, livro sobre a carreira do músico nascido por acaso no Uruguai em 9 de outubro de 1945 – mesmo dia, mês e ano do também pacifista e libertário John Lennon.

Taiguara seguiu carreira em São Paulo e no Rio até passar por Londres (onde chegou a gravar um disco em inglês, perdido) e se auto-exilar na África (Tanzânia) antes de seu retorno ao Brasil pós-redemocratização.

Logo depois da volta, também chegou a se apresentar no Templo, em Bauru, em 1994.

A partir de documentos do Arquivo Nacional e no extinto Serviço Nacional de Inteligência (SNI) das Forças Armadas, a autora desnuda detalhes inéditos de como a repressão prejudicou Taiguara.

Ao todo, calcula ela, mais de 80 canções foram vetadas pela censura da época – além de um disco inteiro, o já mencionado “Imyra, Tayra, Ipy”. 

Filhos, músicas e afeto

Uma das canções do álbum "Ele Vive" é “Samora Potiguara”, composta após o nascimento de um dos cinco filhos, de mesmo nome. Hoje, Samora, 30 anos, é músico – nascido em São Paulo e criado no Rio. Ele acompanha as novas obras sobre o pai sem perder de vista as lembranças da infância.

“Íamos à praia, à cachoeira e passeávamos por Santa Teresa, bairro tradicional do Rio. Adorava ficar ouvindo ele tocar e, principalmente, quando me chamava para sentar ao seu lado no piano”. É dessa época de Santa Teresa que as canções inéditas foram recuperadas pela gravadora.

Mais produção

O tom emotivo vai além dos depoimentos e é reforçado em outros trabalhos recentes: o álbum “Menino da Silva” (2012), estreia de Lenine Guarani, filho de Taiguara, no qual também há três regravações do pai – e o projeto “A Voz da Mulher na Obra de Taiguara”, CD e DVD de 2013 e 2014, nos quais cantoras interpretam músicas do artista.

Imyra, filha mais velha, também iniciou shows de tributo ao pai. O primeiro foi em outubro no Bar Godofredo – de Gabriel, filho de Beto Guedes, no Rio. "Corremos para ensaiar e foi uma emoção muita verdadeira". Imyra agora planeja levar o tributo a outras cidades por meio de um circuito ainda em negociação. 

E mais: o produtor Pedro Baldanza acredita na realização de um volume 2 de inéditas para breve. Se foram tantos anos de silêncio sobre Taiguara, trecho de uma de suas músicas (“Teu Sonho Não Acabou”) resume a sensação que parece integrar fãs, produtores e familiares: “Lá, onde eu estive, o sonho acabou. Cá, onde te encontro, só começou”.

TAIGUARA – ELE VIVE

• 15 faixas

• Kuarup, R$ 24,90


OS OUTUBROS DE TAIGUARA

•  De Janes Rocha

•  Kuarup, 158 páginas, R$ 46

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