Tribuna do Leitor

Quem são os culpados pela falta de água?


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Somos conduzidos a atribuir ao indivíduo a culpa pela crise de abastecimento de água, algo que definitivamente não se justifica, afinal, o uso humano é responsável por algo entre 5% e 15% do consumo total de água. O capitalismo, com a sua cultura do individualismo, tem dessas coisas, induz à definição da questão individual como central e desestimula a análise da conjuntura e das estruturas estabelecidas pelas correlações de poder.

O rompante de chamar a atenção ou fotografar a senhorinha displicente lavando a calçada faz o sujeito tomar-se de dignidade e sair fortalecido, sentindo-se mais brasileiro, mais cidadão. Mais tarde conta o caso orgulhoso e indignado, na mesa do jantar. Faz bem para si próprio, e nada além disso. Claro, não pretendo desestimular a microeconomia de água, afinal, o consumo consciente de qualquer recurso natural é fundamental em toda situação, mas certamente esse não é o fator determinante da crise, pois a indústria e o agronegócio é que são os grandes vilões, bebendo com seus grandes canudos algo entre 85% e 95% de toda a água captada.

Como agronegócio não entenda o agricultor familiar que planta alfaces e rúculas, tomates e batatas, ou de alguma maneira comida para as pessoas, afinal, isso representa uma parcela muito pequena do montante. Como agronegócio entenda a monocultura multinacional da soja, onde mais de 50% do que é produzido é exportado, lavando nossa terra com venenos agrotóxicos multinacionais, que o eufemismo das empresas ainda insiste em chamar de "defensivos agrícolas".

Também a cana-de-açúcar, com 55% do açúcar e 20% do etanol produzidos sendo exportados. Me lembro do Eduardo Galeano: "Novo cardápio dos automóveis, que já não comem apenas petróleo ou gás, mas também milho e cana-de-açúcar de imensas plantações. Dar de comer aos carros é mais importante do que dar de comer às pessoas." Além da pecuária, pois para produzir 1 kg de carne bovina são necessários 15.000 (quinze mil!) litros de água. Para a produção de 1 kg de trigo gasta-se onze vezes menos, apenas 1.300 litros.

Não podemos esquecer do eucalipto, abundante no Brasil desde que os ingleses descobriram que conseguiriam ganhar dinheiro com isso por aqui, no final do século XIX. Os plantadores dizem ser boato que a árvore consome muita água, eu não sei se acredito. Estudos apontam inúmeros impactos negativos do cultivo do eucalipto para além da questão da água, como o "deserto verde", que é desertificacão do clima e do solo, a diminuição da fauna e da biodiversidade, entre outros.

Fiquei em pânico ao descobrir o quanto é simples e comum aqui no exterior ganharem dinheiro plantando árvores no Brasil - bancos permitem a qualquer um começar investindo cinco mil euros. É a mesma questão de sempre, espertalhões estrangeiros sugando os recursos naturais do Brasil, só que agora muito mais simples de fazer. Sugiro pesquisar por "investment forestry brazil" para ver você mesmo.

Também culpados são, é claro, os políticos, que não tem nada com a falta de chuvas mas que são diretamente responsáveis pela crise de abastecimento de água, afinal esperamos que usem nosso dinheiro para gerenciar melhor os recursos naturais, inclusive preparando-se para períodos de estiagem. Os governos devem garantir água para o seu povo sempre, independentemente do clima e não devemos aceitar nada menos do que isso.

Portanto, esse papo de conscientização e "faça a sua parte" denunciando lavadores de calçadas atrapalha mais do que ajuda, pois não aponta as reais causas do problema. Se quer mesmo fazer sua parte na crise de abastecimento de água plante árvores! (Procure o Projeto Fruto Urbano nas redes sociais). Também seja contra o plantio de eucalipto, ataque as multinacionais da monocultura. Tente comer menos carne, incentive a agricultura sustentável - feira agroecológica toda quinta-feira, 16h, em frente à Assenag. A água, meus camaradas, deve servir em primeiro lugar às pessoas, assim como nossa terra deve ser usada, antes de qualquer outro fim, para alimentar o nosso povo.

Luiz Miguel Axcar

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