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Jornalista vivenciou os horrores da Guerra na Síria e conta em detalhes o que viu na obra |
Único jornalista brasileiro a mergulhar no caos que se tornou a devastada cidade de Homs, principal foco de conflito na Guerra da Síria, Klester Cavalcanti divulga o livro “Dias de Inferno na Síria” hoje, a partir das 19h30, na Unesp Bauru.
Ele profere palestra comentando a dramática experiência que viveu em 2012 em sua incursão em um cenário de extrema violência para fazer uma reportagem especial que culminou com prisão e tortura em um país dividido por um conflito entre as forças leais ao governo de Bashar al-Assad e os rebeldes, que tentavam derrubar o presidente do poder. Um relato humano e realista da Guerra da Síria. Após a palestra, haverá sessão de autógrafos com o autor. O evento é aberto ao público e tem entrada gratuita.
Cavalcanti é autor de quatro livros e vencedor de três prêmios Jabuti, o mais recente, em 2013, justamente com “Dias de Inferno na Síria”, lançado em outubro de 2012. Em entrevista ao Jornal da Cidade, o jornalista dá uma mostra da história forte que a obra traz, com a narrativa de sua inexplicável e injustificável prisão mesmo com visto de imprensa concedido pelo governo sírio, seguida de ameaças de morte, torturas físicas e psicológicas, além de um relato comovente de humanidade, generosidade e fé do tempo vivido na cela da prisão onde passou seis dias como único estrangeiro e cristão no meio de 20 sírios mulçumanos.
“Eu não sabia se iria ficar lá para sempre, se seria executado. Foi um inferno”, resume. O jornalista só foi libertado devido a intervenção do Itamaraty.
Jornal da Cidade - Como se deu sua prisão? Não houve nenhum tipo de justificativa?
Klester Cavalcanti – Até hoje eu não sei o motivo. Ninguém me disse. Eu fui para a Síria com visto de imprensa, tudo legalizado. Eu também tinha uma articulação, se fosse necessário, para entrar com os rebeldes pela Turquia. Mas eu queria fazer a coisa direito. Fui lá com visto para a cidade de Homs, que é onde a guerra está mais pesada e no meio da rua fui preso pelo exército sírio. Aí começou o inferno, a tortura psicológica.
JC - Você foi torturado de que maneira?
Cavalcanti – Me colocavam no meio da rua e ficavam me cercando, apontando arma para a minha cabeça e gritando comigo em árabe. Eles me levaram para uma delegacia improvisada em um prédio público e neste lugar fui interrogado. O delegado não falava inglês e perguntava em árabe, um outro cara traduzia para o inglês. No fim desta conversa, o delegado mandou eu assinar um documento em papel timbrado da polícia da Síria, mas escrito em árabe. Eu falei que não iria assinar um negócio em árabe sem saber o que estava escrito. O delegado estava fumando. E veio com o cigarro na direção do meu rosto, gritando comigo em árabe. O cara que estava traduzindo me falou: “ele está dizendo que se você não assinar vai queimar seu olho, você vai ficar cego”. Eu falei que não iria assinar. Ficou nisso de “não vou assinar”, “não vou assinar”, até que o delegado veio com o cigarro na direção do meu olho, chegou bem perto, na hora que iria atingir meu olho, desviou e queimou meu rosto. Apagou o cigarro no meu rosto. Eu até ouvi o chiado do cigarro quando ele apagou. Aí, ele acendeu outro cigarro e veio de novo gritando e eu dizendo que não iria assinar. Quando eu vi que realmente ele iria queimar meu olho, cheguei a sentir o calor na minha retina, eu aceitei assinar. Depois disso, fui algemado, passei na noite preso a uma cama de ferro e me mandaram para o presídio.
JC - Você chegou a pensar que iria morrer?
Cavalcanti – A primeira frase do livro é assim: “Pela primeira vez na vida, eu tive certeza de que iria morrer”. Isso foi no momento em que fui preso, no primeiro dia. Antes de entrar naquela delegacia onde o delegado me torturou. Esta delegacia era subterrânea, uma sala. Para chegar a este lugar, eu desci uma escadaria escura com um oficial sírio com um fuzil atrás de mim encostando um fuzil na minha cabeça. Quanto mais a gente descia, mais escura ficava a escada. Eu olhei para o fim da escadaria e vi algo que imaginei ser uma parede. Pensei: ‘estou descendo esta escadaria com um cara com um fuzil apontado para minha cabeça. Acabou. Vou ser executado’. Fechei os olhos e entreguei a alma a Deus, não tinha o que fazer. Mas no fim da escada não era uma parede, era uma porta de ferro, que foi aberta e atrás da qual ficava a delegacia improvisada.
JC – Neste momento em que você teve convicção de que seria executado o que veio à mente? O velho clichê “de passar um filme” ocorreu?
Cavalcanti – É tão rápido que passou um curta, no máximo um curta. Eu creio muito em Deus. Estou muito longe de ser perfeito, mas senti uma paz muito grande. Eu fui para a Síria, na cidade onde a guerra é mais pesada. Eu não sou louco, fui sabendo que era arriscado. É claro que eu não queria morrer. Fui para a Síria para mostrar o que eu chamo de lado humano da guerra. Quando tive certeza que iria morrer, fiquei tranquilo. Não entrei em pânico, não chorei, apenas aceitei. Pensei que pelo menos eu iria morrer onde eu queria estar e fazendo o que queria estar fazendo.
JC - Como era a vida na prisão? A relação com outros presos?
Cavalcanti – Fui colocado em uma cela comum com mais de 20 presos, todos sírios da região, todos mulçumanos. Eu era o único que não era mulçumano e o único jornalista na prisão. Ao todo, fiquei seis dias preso. Na prisão, a tortura que tinha era a psicológica, de ninguém me dizer nada. Quando eu fui preso, não me deixaram dar sequer um telefonema. Então, eu não sabia se tinham alguém tentando me soltar. Não sabia nem se tinha alguma pessoa no mundo que sabia que eu estava preso. Isso é um inferno. Por outro lado, tem uma coisa muito bacana. Na cela foi uma experiência humana muito bonita. Eles foram muitos legais comigo, fiz três grandes amigos. Tinha dia que eu não queria comer e os caras vinham me incentivar, dizendo que eu precisava comer para não ficar doente. Tinha um preso que falava inglês e virou meu intérprete lá dentro. Em momento algum houve um segundo, dentro da cela, em que eu me sentisse violentado ou desrespeitado.
JC - O que a forte experiência mudou em sua vida?
Cavalcanti – Uma delas é o que falei de fazer as coisas que acredita. Outra coisa que eu sempre tive e depois da Síria ficou muito mais forte é de abominar todo e qualquer tipo de preconceito. Eu fiquei numa cela em uma penitenciária no meio da guerra. A gente ouvia tiros e explosões do dia todo. Eu era o único estrangeiro e o único preso que não era mulçumano. Os caras perguntaram minha religião e falei que era cristão. E também o único jornalista. A gente dormia no chão, comia no chão. Era muito triste. Aquelas pessoas que estavam presas comigo estavam sofrendo mais do que eu. Porque eles, além da dor própria por estarem presos, tinham a dor de terem familiares, amigos no meio da guerra. Minha dor era unicamente minha. Eles tinha a dor deles e dos que estavam lá fora. E mesmo assim, demonstraram bondade, generosidade e respeito em relação a mim. Os caras foram irmãos comigo. Eles deixaram eu orar com eles. A primeira vez que orei com eles eu estava superemocionado e senti vontade de chorar. Mas pensei ‘não vou chorar aqui dentro’. Sentei, trinquei os dentes e segurei. Mas senti o olho encher d’água. Dois presos me viram emocionado, vieram, sentaram perto de mim e me abraçaram. Isso em um presídio, no meio da guerra, ouvindo tiros e explosões entre mulçumanos.