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Eleição e educação não estão rimando

Joaquim Eliseo Mendes
| Tempo de leitura: 3 min

"Papai, por que eles não jogam esses papéis no lixo, que coisa feia, não?". Essa inocente mas significativa pergunta eu e minha esposa ouvimos quando íamos votar no primeiro turno das eleições na Escola "Profª Mercedes Paz Bueno", de uma linda menina que deve andar lá pelos seus cinco anos e que, segurando na mão do pai, ficou espantada com a sujeira resultante dos milhares de santinhos esparramados sobre a calçada por onde seguia. Ficamos encantados, até hoje não a esquecemos, e comentamos com outras pessoas esse fato que evidencia a boa educação e formação que lhe estão sendo ministradas pelos pais e escola.

Portanto, aos pais desconhecidos e à escola que frequenta, os nossos cumprimentos e parabéns! Essa mesma inocente e significativa pergunta, diga-se de passagem difícil de ser respondida, deve também ter sido feita a um pai, mãe, avós ou a alguém por milhões de crianças neste país no mesmo ou em outro dia. O fato dos santinhos e outros ocorridos nos dois turnos das eleições e que têm se repetido ao longo do tempo espelham mais uma vez a falta de politização e amadurecimento da sociedade brasileira que, entendo, poderá ser aprimorada somente pelas futuras gerações, começando por estas que estão frequentando as escolas atualmente.

Nível desejável que demandará muitos e muitos anos. Não verei. É preciso que sejam orientadas e formas a cobrar dos pais e não dos políticos. Entendo que os filhos poderão e deverão cobrar os pais como "Papai, o senhor vai votar, não?", "Mamãe e vovó, onde vocês vão votar amanhã?", "Não deixe de votar", "mamãe e papai, eu quero ir votar com vocês" e outras cobranças. Só a educação e os filhos conseguirão mudanças ao longo do tempo. Como explicar a estas gerações ou a nossos filhos o fato de que em uma eleição em que o presente do Brasil foi eleito por 51,64% de votos, do total dos votos apurados houve 1,71% em branco e uma abstenção de 21,1%? E aqui em nosso Estado de São Paulo, foram apurados 500.950 votos em branco (1,97%), 1.136.874 (4,47%) nulos e 6.558.345 (20,51%) de abstenção. Como explicar aos filhos, netos e demais jovens? Pois eles querem e têm o direito de saber. Que exemplos esta nossa geração está dando? Será difícil também explicar a obrigatoriedade do voto em uma democracia e por que no Brasil, o país mais eficiente e rápido do mundo na apuração que leva em torno de duas horas, milhões de cidadãos deixam de cumprir o dever do voto visto que todos, parecem, querem mudanças para o bem do povo brasileiro.


Difícil a um pai ou mãe justificar aos filhos por que teve o incômodo de sair de casa, ir ao local e anular o seu voto. E também explicar ao filho o "voto gozação". Caro amigo leitor, você está preparado para responder conscientemente a seu filho? Ainda bem que as minhas netas gêmeas, precoces e espertas como são, não estão na idade de perguntar, pois eu não saberia como responder com a verdade. Entendo que somente as crianças e jovens atuais poderão mudar esta inconcebível realidade com cobranças aos pais e familiares. O único caminho para mudar é através da educação. Neles devemos depositar nossas esperanças. Que nós professores e a escola ensinemos aos alunos a cobrar dos pais e não dos políticos. Porque os pais devem respostas verdadeiras e convincentes aos filhos. Assim também entende um dos mais conceituados empresários deste País, Abilio Diniz, que, em "Carta à presidente" (Folha de São Paulo, 28/10), assim se expressou: "Educação de qualidade é a chave do sucesso".

O autor é professor e membro efetivo de AbLetras

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