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Me apaixonei por Ela

Thiago Brandão
| Tempo de leitura: 2 min

Na era das telas touch screen e dos relacionamentos resumidos a digitadas frenéticas nos computadores e smartphones, nada mais natural que se apaixonar por um aparelho como, um celular, um tablet ou um notebook. Não? Será? Vamos analisar. Você que lê este texto, seja em uma plataforma digital e interagindo com ele, ou, sujando os dedos de tinta preta ao folhear e manusear o jornal da forma mais romântica e pura possível, com certeza passa 90% do seu dia em que está acordado de olhos e dedos grudados no teclado do computador ou do celular, em uma relação que transcende a frieza esperada das telas e que pode se tornar carnal, vital, essencial e fundamental para a sua vida.

Quem teve a oportunidade de assistir ao belíssimo filme Ela (Her), com o ator Joaquim Phoenix interpretando de forma crível e sensível um escritor de cartas chamado Theodore, que vivendo em um futuro (Futuro? Penso que seja mais do que presente), adquire um software de computador intuitivo, com uma voz feminina e programada para evoluir a cada minuto para chegar à semelhança do comportamento humano. Pois bem, Theodore apaixona-se pela suave voz do software de nome Samantha, interpretação vocal da atriz Scarlett Johansson, criando um relacionamento amoroso com o celular e com a voz, que transcende todo e qualquer significado que se conhece para o relacionamento humano.

O filme (quem não assistiu, deve reservar o filme na locadora mais próxima de casa, pois o título é disputadíssimo) é interessante para refletirmos sobre como as pessoas têm conduzido as suas relações pessoais, restringindo-se cada vez mais ao mergulho das telas e vivendo ali, no mundo virtual, uma realidade que elas transferem para a sua vida e a tomam como sendo o único e exclusivo espaço onde é possível construir algum tipo de relacionamento e afetividade humana.

Sem entrar em mais detalhes do filme, mas só fazendo mais um paralelo, em uma cena, Theodore e todas as suas pessoas a sua volta falam sozinhos com os seus softwares como se o mundo fossem apenas eles mesmos. E quando andamos nas ruas hoje, como as pessoas caminham ou até mesmo dirigem os carros? Olham para a bendita da tela do celular.

Não estamos longe da ficção retratada pelo diretor Spike Jonze em Ela. Esta representação da realidade e a abordagem crítica das relações humanas estão mais impregnadas do que nunca em nosso dia a dia. Temo pelas gerações futuras, que pedindo licença à Teoria da Evolução de Darwin, terão dedos superdesenvolvidos de tanto digitar, olhos com deficiência de visão pelo excesso de luz das telas e muda, porque perderão a capacidade da comunicação oral. Estou pessimista ou realista?

O autor é jornalista e assessor de imprensa

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