Cultura

"Fogo brando funde o ferro duro"

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 3 min

Divulgação

CD ‘Ele Vive’ traz 11 canções recuperadas a partir de fitas caseiras e quatro de show no RJ

“Obrigado. Muito obrigado”. Assim, após aplausos, é encerrado o álbum póstumo de Taiguara, “Ele Vive” (Gravadora Karup). O agradecimento originalmente ocorreu em show de 1990, no Teatro João Caetano, no Rio, após cantar “Hoje”, que fecha o CD – Taiguara morreria em 14 de fevereiro de 1996, vítima de câncer, aos 50 anos. A gravação ao vivo é uma das 15 canções recuperadas no novo disco.


O produtor/”artesão” do trabalho é o baixista Pedro Baldanza (ex-Som Nosso de Cada Dia, banda progressista dos anos 70, e que também atuou como músico de Elis Regina, Sá & Guarabyra, além de Novos Baianos).


“Tinha hora que a gente parava e ficava sinceramente comovido com o que estava acontecendo no estúdio”, conta Baldanza.


“Pegamos voz e piano do Taiguara e preenchemos as reticências. Na verdade, Taiguara, mesmo nas gravações caseiras, já apresentava o caminho dos arranjos. Procuramos respeitar a sua originalidade”.


Aos 61 anos, Baldanza diz desconhecer um trabalho com igual extensão no Brasil. “Foram quarenta fitas cassete. A partir dessa digitalização, o material pôde ser trabalhado por toda uma equipe. Foi bem manual e envolvente”.


“Trata-se de um resgate necessário, já que a obra de Taiguara ficou incompreendida por muito tempo. Rolou um hiato porque a ditadura foi muito pesada com ele”.


O álbum também traz canções com toques latinos e africanos. “E, sobre as letras, tem muito valor para a meninada politizada hoje no País. Taiguara já pensava e agia com espírito combativo”.


Também em livro


A Kuarup já havia sido responsável por recuperar, em 2013, o ousado álbum “Imyra, Tayra, Ipy” – retirado das lojas pela censura em 1976 apenas 72 horas após seu lançamento. Taiguara era um dos maiores alvos da “tesoura” da época por conta da postura crítica e libertária após premiada fase romântica como intérprete em festivais (com sucessos como “Universo no Teu Corpo”).


Agora em 2014, músicos que participaram do álbum original “Imyra...”, como Toninho Horta e Wagner Tiso, decidiram se reunir para shows de homenagem – o que rendeu também dupla apresentação no programa de Chico Pinheiro na Globo News, “Sarau”.


A atração destacou Taiguara como o “artista mais censurado do Brasil”.


A avaliação é compartilhada pela jornalista Janes Rocha, que acaba de lançar “Os Outubros de Taiguara”, livro sobre a carreira do músico nascido por acaso no Uruguai em 9 de outubro de 1945. Ele seguiu carreira em São Paulo e no Rio até passar por Londres (onde chegou a gravar um disco em inglês, perdido) e se autoexilar na África (Tanzânia) antes de seu retorno ao Brasil pós-redemocratização.


Logo depois da volta, também chegou a se apresentar no Templo Bar, em Bauru, em 1994.


A partir de documentos, a autora traz detalhes de como a repressão prejudicou Taiguara. Ao todo, calcula ela, mais de 80 canções foram vetadas – além de um disco inteiro, o já mencionado “Imyra, Tayra, Ipy”.


Mas, como na música “Que as Crianças Cantem Livres”, o fogo brando funde o ferro duro e, agora, novas gerações podem conhecer quase toda a obra do artista.



Outras obras


Taiguara também dá o tom de lançamentos em outras vozes. O álbum “Menino da Silva” é a estreia de Lenine Guarani com três regravações do pai. Já o projeto “A Voz da Mulher na Obra de Taiguara”, CD e DVD, traz cantoras interpretando o artista.

Imyra, filha mais velha, iniciou shows de tributo no Rio. O próximo será dia 20 no Bar Godofrêdo de Gabriel, filho de Beto Guedes. “É uma emoção muita verdadeira”, diz ela.


E mais: o produtor Pedro Baldanza acredita em um volume 2 de CD de inéditas para breve. Se foram tantos anos de silêncio sobre Taiguara, trecho de uma de suas músicas (“Teu Sonho Não Acabou”) resume a sensação que parece integrar fãs, produtores e familiares: “Lá, onde eu estive, o sonho acabou. Cá, onde te encontro, só começou”.

 

  • Serviço


  • CD ‘ELE VIVE’

    • 15 faixas. Gravadora

    Kuarup, R$ 24,90


    ‘OS OUTUBROS DE TAIGUARA’

    •  De Janes Rocha.  Kuarup, 158 páginas, R$ 46,00

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