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O sonho de Policarpo Quaresma

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O País tem a oportunidade de, finalmente, consolidar a República proclamada em 1889. Pela primeira vez os corruptores começam a ser presos com a Operação Lava Jato. Presidentes e executivos de empresas emblemáticas como Camargo Corrêa, Odebrecht, OAS, Engevix, Queiros Galvão e outras menos ranqueadas estão com prisões preventivas ou provisórias decretadas. Fato inesperado, depois de décadas de financiamento de esquemas eleitorais e partidários com o dinheiro de superfaturamentos de obras públicas. Pode estar em curso a realização do sonho de Policarpo Quaresma, personagem de Lima Barreto, patrono dos patriotas e dos otimistas brasileiros. Para ele, o Brasil tinha todos os climas, todos os frutos, todos os minerais e animais úteis, as melhores terras de cultura, a gente mais valente, mais hospitaleira, mais inteligente e mais doce do mundo. O que precisava mais? Só de um pouco de originalidade. A ingenuidade levou-o ao seu triste fim. Mal sabia que essa criatividade herdada do brasileiro sempre foi praticada contra, e não a favor da nacionalidade, desde o tempo de o Brasil-Colônia.
Durante a regência de D. João VI (1822) a propina era por Sua Majestade estimulada para conter a tendência anti-absolutista da burguesia comercial; e também para que ficasse com a parte do leão (rei) nas prebendas. A mesma estratégia seguiu o seu filho D. Pedro I. Mudou um pouco com D. Pedro II. Intelectual, mais interessado nas mordomias, nas viagens e ao hobby da fotografia, o imperador deixou que os barões e viscondes se locupletassem. Pelo menos assim eles cuidariam melhor do reino para não deixar secar a fonte de rendimentos. Queria evitar, quando muito, as aporrinhações com as fofocas da Corte. Os militares e aristocratas golpistas, que impuseram o regime republicano também alegaram o combate à corrupção e a modernização do Estado para justificar a queda da monarquia. A população acordou assustada no dia 15 de novembro. Desejava apenas melhor distribuição de renda e oportunidades de trabalho. Ninguém cogitava em mudança de regime. O modo operativo de manutenção do poder continuou o mesmo, com o uso da "res publica". A diferença para os dias atuais é que na Primeira República o dinheiro era de gorjeta. Os "agrados" se concentravam na distribuição de alguns privilégios ou dos cargos públicos. Hoje, só na Operação Lava Jato a Polícia Federal calcula o Petrolão em valores que poderão somar 10 bilhões de reais. No cotejo dos alcances, os envolvidos no Mensalão não passariam de "trombadinhas". Um dos "arrependidos? que se propôs à delação premiada é o executivo da empresa Toyo-Seal Júlio Camargo, com contratos de mais de 3,5 bilhões de dólares com a Petrobras. Camargo tem por hobby criar cavalos de raça. Emprestava seu jatinho para José Dirceu, então ministro-chefe da Casa Civil do Governo Lula. Só um ex-diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, preso preventivamente, embolsou sozinho 100 milhões de dólares. É tanto dinheiro que a Justiça dos Estados Unidos promoverá investigações próprias. A lei norte-americana proíbe que qualquer cidadão do país ofereça, prometa ou autorize pagamento de dinheiro ou qualquer coisa de valor para funcionário estrangeiro. A Petrobras tem ações negociadas em Wall Street. Existe por parte da Procuradoria americana a obrigação de defender os interesses de poupadores prejudicados por grandes fraudes. A Petrobras pagou pela Refinaria de Pasadena, no Texas, 3 bilhões de dólares, ou seja, 27 vezes mais do que o valor desembolsado pela vendedora, a empresa belga Astra Oil.
A Petrobras funcionava como centro operacional de uma rede de subornos, comissões e lavagem de dinheiro. Havia uma tabelinha de propinas: 2% para os partidos da base e 3% para o PT. O balanço trimestral da Petrobras, pela primeira vez em 61 anos não pôde ser fechado porque aos auditores independentes não conseguiram contabilizar os desfalques, e se negam a dar parecer. Às delações de Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Yousseff somam-se a de outros executivos de grandes empresas. Com os bens bloqueados, eles querem a diminuição das penas a que fatalmente serão condenados. Parece que é o fim da linha. Ou o Dia do Juízo Final que se aproxima. A presidente Dilma Rousseff, que está na Austrália participando da reunião do G20 somente teria duas opções: ou ir pelo ralo junto com Lula e o PT, ou aproveitar o bolo caso para promover as reformas política, administrativa e fiscal a que se propôs durante a campanha eleitoral, indiferente ao esperneio do seu partido. "Um fim de mar colore o horizonte", como no verso do poeta morto Manoel de Barros. Sou otimista. Nasce a República. Realiza-se o sonho de Policarpo Quaresma.

O autor é jornalista e articulista do JC

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