Articulistas

?Comunistas são cristãos não assumidos?

Wellington Martins
| Tempo de leitura: 3 min

Disse o papa: "Comunistas são cristãos não assumidos!", em entrevista ao jornal de Roma, Il Messaggero. Desde que chegou ao comando da Igreja Católica, o papa Francisco tem feito reiteradas críticas ao sistema capitalista - ao consumismo, ao enriquecimento a partir de especulação financeira, ao rentismo, ao descaso com os pobres, ao individualismo etc. E tais críticas levaram analistas diversos a rotular o papa atual de marxista.

A revista internacional The Economist, por exemplo, dirigiu-se a Francisco como sendo um "leninista" (em referência ao revolucionário russo Vladimir Lenin), por causa das acusações do pontífice contra o capitalismo e de sua posição em favor de uma reforma econômica radical para o mundo. Mas essa aproximação entre cristianismo e comunismo feita pelo papa não é novidade. Pois, apesar de serem diferentes ? o cristianismo (uma doutrina religiosa) e o comunismo (uma doutrina política) ?, há um princípio ético essencial para o qual convergem ambos: a igualdade.

Jesus Cristo foi um homem do povo, que viveu fraternalmente em meio ao povo, sem fazer distinção de pessoas [Mt 9,10] e que ordenou aos seus seguidores que fizessem o mesmo: que amassem igualmente a todas as pessoas [Jo 15,12]. O Catecismo da Igreja Católica, por isso, afirma: "A igualdade entre os homens diz respeito essencialmente à sua dignidade pessoal e aos direitos que daí decorrem" [CIC §1935].

Tal igualdade entre todos os do povo, na dignidade de cada pessoa e nos iguais direitos concedidos a cada um, tem sido a grande bandeira da esquerda política: desde antes de Karl Marx até depois dele. E, hoje, tal princípio já ganhou seu status na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que afirma: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos" [Artigo I, de 1948]. Dessa defesa da igualdade, como objetivo de luta por justiça social, é que tanto a Igreja Católica quanto vertentes socialistas fazem uma ?opção preferencial pelos pobres?. Não só militando pelo fim da exploração desumana feita pelos poucos ricos contra os muitos pobres, mas indo além: louvando moralmente o desapego dos bens materiais como sendo uma virtude.

A simplicidade tida como virtude tem exemplos históricos tanto na tradição cristã (com São Francisco de Assis) quanto na esquerda política (com Leon Tolstoi e o contemporâneo José Mujica). E esse discurso de desapego material, quer usado por um cristão ou por um socialista, fere frontalmente o capitalismo por fragilizar um dos alicerces da sua existência, o consumo. Enfim, as aproximações entre cristianismo e socialismo, apesar de possíveis, são matéria de reflexão e crítica, especialmente após o surgimento da chamada Teologia da Libertação.

Sobre este tema, o então cardeal Joseph Ratzinger exortou que não há apenas uma, mas "várias teologias da libertação" [Libertatis Nuntius VII, 4], dada a multiplicidade de interpretação que há acerca dessa proximidade entre cristianismo e socialismo. Entretanto, ele assegura que: "Existe uma autêntica Teologia da Libertação" [idem VI, 7], que é aquela que se baseia no Evangelho de amor e que, por isso, busca não só a libertação material-econômica dos mais pobres e oprimidos (Marx), mas ainda a sua salvação moral-espiritual (Cristo).

O autor é professor de filosofia /
am.wellington@hotmail.com

Comentários

Comentários