Toda manhã, por volta das 7h, o casal de maritacas anuncia, sentado na fiação próxima da janela do sobrado que, pra eles, o dia acordou... À noite, a hora de dormir chega pelo convite do zunido de morcegos vindo do forro da casa... Vez por outra, os mamíferos voadores também fazem sua reunião no alto da torre da churrasqueira. Enquanto isso, lá fora, colado ao poste de iluminação pública, pertinho dos olhos para quem está na varanda dos quartos que dão para a rua, o bem-te-vi se aconchega no ninho feito sobre o transformador, uma proteção contra o ataque do bando de saguis que invadiram a cidade.
Mas, afinal, além da conhecida menção de que o homem é quem está “visitando” áreas de floresta com a expansão urbana, o que é preciso fazer para lidar, pacificamente, com a revoada urbana das aves? A primeira citação dos especialistas é, claro, não machuque os bichinhos! A segunda: não os alimente! Mas, para os especialistas, os leigos precisam se informar sobre a lógica dessa realidade para, então, realizar o manejo adequado e a convivência com os voadores.
É preciso discutir, por exemplo, que os “visitantes de asas”, antes ocasionais, perceberam, pelo instinto natural de sobrevivência, que o ser humano é mal educado e, igualmente, não tem consciência de desperdício. Logo, sobram lixo e restos de alimentos por todos os lados.
O ruim é que a “maldição” cultural do péssimo comportamento coletivo humano “contaminou” as aves e outros bichos de uma “preguiça” só. E, então, eles passaram a comer do banquete de restos e pela cidade passaram a ficar.
Talvez também por isso aves migratórias estão gostando da “brincadeira” de esticar a temporada de férias. Pra que voar centenas, milhares de quilômetros, para outras regiões a procura de alimentos e reproduzir? E é claro que a adaptação é moleza! Na terra Sem Limites, tal qual em outras localidades, os construtores são extremamente gentis e deixam frestas nos beirais. E lá é lugar propício e seguro para os engenheiros de asas construírem seus ninhos.
Proteção
Afinal, já está lá quase tudo pronto. Os forros são quentinhos, protegidos da chuva e, todo dia, o alimento está servido à beira do meio fio, nos sacos de lixo, ou nos fundos dos quintais. Melhor acasalar por aqui e por aqui ficar...
E como a natureza é esperta! Os filhotes aprendem, desde cedo, por percepção, que telhas, forros e fios são suas casas... É o que veem e percebem ainda no ninho, desde antes das primeiras sinfonias. E, adultos, fazem a repetição do novo “habitat” para suas novas gerações. E nem precisa de Charles Darwin para ensinar a revolução na evolução a partir das manias pouco inteligentes dos homo sapiens.
Está explicada, sem o modo empírico mas pela observação do simples, além da correria do “comportamento”, além das janelas, a razão para a permanência e multiplicação de aves em ambiente urbano.
Conversa de especialista traz lições
Doutor em ciências biológicas e zoologia pela Universidade de São Paulo, professor da Unesp-Bauru e estudioso em ornitologia com ênfase para anatomia, sistemática, evolução, ecologia e acústica das aves, Reginaldo José Donatelli, foi objetivo, prático o suficiente e na medida da extrema necessidade do homem compreender: não só é possível, como urgente, que o ser humano tenha discernimento, informação e habilidade para conviver com as aves no ambiente urbano.
“É possível, fácil, prático e barato conviver com as aves que estão mais presentes no ambiente urbano”, pontua. A maritaca, por exemplo, Donatelli explica que é uma das espécies migratórias que estão gostando de ficar por aqui. “É simples impedir que a maritaca acesse o forro das casas, onde elas causam estragos na fiação. É só colocar uma grade firme no forro e está resolvido. O mesmo vale para os morcegos e outros pássaros que fazem ninhos nos cantos, entre a telha e o beiral”, opina.
No caso dos mamíferos voadores, ao invés do medo, receio, o especialista lembra que eles ajudam a controlar a população de insetos à noite. A dieta dos morcegos inclui frutas. “Para controlar, há a forma cara e a barata. O caro é adquirir um ultrassom de empresa especializada, ainda não disponível em Bauru. Ele não suporta a emissão do ultrassom. A solução barata é também a grade no forro”, enumera.
Donatelli ainda sugere uma alternativa igualmente eficaz e de preço intermediário: alternar telhas de vidro com as tradicionais. “Usando uma telha de vidro para cada 10 normais já resolve o problema, pela permanência da claridade no forro”, conta.
A solução da grade, associada a não manter restos de alimento ou lixo espalhados por quintais, terrenos ou na rua, dá resultado. Mas, para isso, antes de reclamar dos bichinhos com asas, o cidadão precisa, de fato, é ter uma conversa franca com seu espelho e rever hábitos e vícios.
Casa e comida
Reginaldo José Donatelli argumenta que as aves escolhem forros e transformadores de energia elétrica por segurança. “As aves escolhem esses locais por segurança para a reprodução. O bem-te-vi foge da mata, mesmo urbana, porque em bando os saguis os exterminam. E na fiação eles são eletrocutados com frequência. O forro é escolhido pela mesma razão.”
O zoologista lembra que o gambá está se deleitando do lixo urbano, assim como essa mesma prática humana está atraindo gaviões e outros. “O lixo misturado com alimento nos sacos de plástico está sendo rasgado por aves e não só cachorros ou gatos de rua.”
Donatelli mostra maior preocupação com os saguis. “Eles estão aos montes na periferia e estão acabando com tudo, principalmente com o cerrado”, diz. Sobre a presença do tucano, o professor menciona que ele é abundante em nossa região. “Ele não apareceu por desmatamento, já estava aqui e vive no cerrado.”
‘Nós reensinamos a ave a morar’
“As pessoas acham bonitinho o sagui e passam a alimentar o animal para que ele permaneça ou retorne nos quintais. O mesmo acontece com os pássaros. Com comida farta e local para se reproduzir, nós reensinamos a ave a morar, e na cidade”. A avaliação é do zootecnista e diretor do Zoológico de Bauru, Luiz Pires.
Há algum tempo, ele vem defendendo, por ora em vão, que as pessoas deixem de alimentar saguis e demais integrantes da fauna. Pires orienta que os bichos aprendem rápido e, muitos, se adaptam às novas condições de vida, mesmo em ambiente urbano, também com facilidade.
“Várias dessas aves são migratórias e deveriam ir embora após o período de migração pela reprodução ou busca de alimentos. Mas estão gostando de ficar. E vão ficar mesmo, porque estão reaprendendo a viver com nossos vícios”, reforça.
Pires lembra que o desbravador histórico dessa relação remonta ao período do próprio descobrimento do Brasil, com as naus de Cabral. “Tudo começou com o pardal, que veio com as caravelas nos porões e aqui encontrou ambiente propício para se instalar. E eles visitaram as cidades e hoje é uma ave totalmente urbana. É sempre a relação entre segurança para reprodução e sobrevivência dos filhotes com acesso a alimentos que faz com que essas aves se urbanizem”, lembra.
Os cíclicos
E onde não tem predador, o bicho fica. Mas alguns são cíclicos, conta Pires. “A andorinha por exemplo já desapareceu e agora tem um ou o outro grupo em um canto da cidade. Antes elas vinham para repousar. Na década de 60 elas utilizavam as árvores da região do Hospital de Base e da Praça Aparecida para ficar. Eram revoadas enormes e os fios todos com a tropa enfileirada de andorinhas. Cada uma come 700 insetos por dia. Mas as pessoas se incomodavam com as fezes onde elas ficam. Os bandos sumiram”, posiciona.
A garça branca também formava seu bando nas proximidades de onde está hoje o condomínio Lago Sul, na região da rodovia Bauru-Ipaussu. “Elas deixam um forte odor pela presença enorme de amônia, comum às fezes. E o bando sempre era avistado voando no sentido Arealva-Piratininga. Mas elas não têm aparecido mais. Isso é cíclico”, acredita. O coró coró também se encaixa nesse perfil, segundo o zootecnista. “Eles aumentaram muito quando a cidade viveu uma epidemia de caramujo africano, há uns cinco anos. Explodiu a população, mas a fartura de caramujo acabou e o coró coró também foi embora”, acrescenta.
O tucano toco também é presença garantida em muitos quintais. “Mas eles devoram ovos e outros pássaros, dizimam tudo. E as pessoas acham bonito. E isso pode ser o convite à adaptação facilitada”, finaliza.
Bióloga faz sugestões para o trato e estudo
Maria Luisa Marinho de Noronha (Marilu de Noronha) é ?médica-veterinária e bióloga, servidora aposentada da Prefeitura do Rio de Janeiro e pesquisadora-colaboradora do Laboratório de Ornitologia, Instituto de Biologia-UFRJ. Entre seus trabalhos está um sobre a população de pombos na capital carioca, mas ela tem dedicado boa parte de seu tempo a outras aves.
Marilu Noronha aceitou o convite do Jornal da Cidade para sugerir para os moradores sobre a convivência com as aves e os que pesquisam o tema.
Para os educadores de ciência e biologia, Noronha pondera que sigam a sugestão da pesquisadora, ornitóloga e escritora Martha Argel de Oliveira: “As aves urbanas representam um tema muito adequado para o trabalho em educação ambiental, principalmente por estarem presentes no próprio ambiente em que os alunos vivem... Podem ser trabalhadas em atividades práticas, de diversas formas e sem exigir equipamentos caros... Outro aspecto positivo é a existência de farto material de apoio”.
Para os cidadãos que cidadãos que alimentam aves e contribuem para o aumento populacional das espécies que vêm se tornando problemas nas cidades, ela diz: “Nas minhas palestras e na cartilha sobre pombos digo que a observação de aves é uma atividade prazerosa, lúdica, educativa, que proporciona contato sadio com a natureza e belos ambientes, além de ser própria para todas as idades... No lugar de alimentar pombos, torne-se um observador de aves”.
Já aos graduandos e pós-graduandos em biologia e veterinária, a profissional sugere que “contribuam para o melhor conhecimento das aves urbanas de Bauru, estudando e publicando sobre sua riqueza e composição, dieta, relações ecológicas, censos, problemas que podem causar, zoonoses e outros temas, pois esses artigos poderão subsidiar gestores ambientais do Estado e do município em suas ações”, destaca a especialista.
As pombas da USP: aves se adaptam facilmente
O campus da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) ganhou “moradores” há algum tempo. As pombas, sobretudo a amargosa ou de bando, tomaram as copas e galhos de árvores. O diretor do Zoológico, Luiz Pires, conta que já foram realizadas várias intervenções para conter o aumento da população de pombos. “Chegou a um ponto que em uma intervenção foi feita poda drástica de várias árvores. Mas elas estão lá protegidas e com alimentação fácil. A adaptação desses animais é muito fácil. E elas entram em qualquer canto, ou buraco, e por lá ficam”, comenta.
Reginaldo Donatelli conta que a ocorrência está sendo estudada por aluna de biologia da Unesp sob sua orientação. “É ave migratória. Era para vir e depois ir embora, mas estão ficando. Estamos investigando isso”, menciona. A mesma ocorrência com esses pombos foi identificada nos loteamentos fechados Shangrilá, Samambaia e no condomínio Vila Inglesa. “No campus elas encontraram nas árvores a proteção, sem o predador natural. E ficam somente à noite. Durante o dia elas não ficam aqui. Nem os refletores acesos as fazem ir embora à noite.”
O prefeito do campus, José Roberto Lauris, lembra que o fato do campus ser da área de saúde amplia a preocupação. “É muita deposição de fezes e as pessoas pisam nesse material que precisa ser retirado permanentemente para que não entre pelos calçados nas áreas de saúde da unidade”, comenta.
Conheça mais sobre as ‘nossas aves’
De posse de uma lista prévia das principais aves que estão convivendo no meio urbano em Bauru, a médica-veterinária e bióloga Maria Luisa Marinho de Noronha traçou observações sobre cada uma:
Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)
Provavelmente é o pássaro mais comum em todo o País, ocupando quase todos os tipos de ambientes dentro e fora das cidades. Apresenta ampla plasticidade comportamental com aspectos generalistas, o que favorece a sua sobrevivência em ambientes urbanos. São aves agressivas entre si e competem muito por território e não formam bandos. O “problema” mais sério que me foi narrado sobre um bem-te-vi é que um casal vem roubando ração de cachorro (do labrador da minha filha), o que foi testemunhado por mim. Mas também, há relatos e ninhos da espécie em transformadores elétricos, sem grandes danos.
Periquitão-maracanã (Psittacara leucophthalmus):
Psitacídeo (da família das araras, papagaios e periquitos) de ampla distribuição na maior parte do país. É comum em áreas abertas e semi-abertas, plantações, cidades, florestas, manguezais etc. Forma bandos de mais de 30 indivíduos. Devoram frutos e sementes duras de leguminosas. Podem se trazer alguns problemas para plantações e pomares comerciais.
Pomba-de-bando (Zenaida auriculata):
Espécie de forma delgada, bem menor do que as precedentes. Vive na caatinga, cerrado, campos, cultivos e pastos. Aumenta sua área de distribuição também devido à desertificação antrópica, isto é, ampliação de áreas abertas e urbanização. Tem alto potencial para se tornar espécie-praga em áreas de monocultura porque consome sementes de plantas em brotação (de soja, por exemplo, mas também aprecia milho, trigo, sorgo, arroz e outras). Pode ocupar canaviais para construir seus ninhos e se reproduzir. Campos de soja e canaviais são muitos nos municípios que circundam Bauru, como fui informada. Bandos pousados em condutores elétricos provocam colisão entre as fases, podendo ocasionar falhas na distribuição de energia. O problema pode ser contornado com uso de espaçadores de PVC para evitar curto-circuitos.
Rolinha-roxa (Columbina talpacoti):
A mais comum das rolinhas no Brasil, distribuída em todo o território nacional, dando preferência a áreas semi-abertas, bordas de florestas, terreiros de fazendas, parques e jardins nas cidades. Para obter alimento, frutos e sementes, vasculha em todos os cantos, até mesmo em varandas e terraços de residências. Não costuma causar problemas sérios, no máximo, algum dano a pomares em quintais e pisos para lavar.
Pomba-amargosa (Patagioenas plumbea):
Espécie florestal bastante tímida, uma pomba grande e de cauda longa. Acredito que esteja restrita às matas das áreas protegidas do município de Bauru e do campus da USP. Não tem o potencial para se tornar uma ave-problema, mas pode ser afetada pela destruição de seu habitat.
Pombo-doméstico (Columba livia):
Espécie exótica ao país, oriunda das encostas rochosas do Mar Mediterrêneo, introduzida no Brasil por imigrantes portugueses no século XVI. Tem ampla distribuição mundial e se adaptou muito bem às cidades porque as edificações humanas guardam semelhanças a seu habitat original. Adorado por muitos, é considerado o símbolo da paz e do amor, o pombo-doméstico encontra fartura de alimentos nas sobras da alimentação humana e na ampla distribuição voluntária de alimentos. Tanta fartura contribui para o aumento excessivo da sua população e, de fato, para problemas como: imundice que pode depreciar monumentos públicos, fachadas, varandas, terraços e quintais; danos a antenas e equipamentos eletrônicos, entre vários outros.
Pomba-asa-branca ou pombão (Patagioenaspicazuro):
É o maior columbídeo do país (família que reúne pombos e rolinhas), gosta de viver em capões, matas-de-galeria, cerrado, caatinga. Sua distribuição original é centro-meridional, mas vem expandindo sua área de ocorrência no Sudeste como consequência da expansão da fronteira agrícola. Vem ocupando até mesmo o centro das cidades arborizadas. Aprecia sementes que busca nos solos de parques e plantações. Vive em bandos e pode realizar migrações.
Tucanuçu (Ramphastos toco):
É a espécie comum de tucano no Brasil Central, que expande sua área de ocorrência para o Sudeste por conta dos desmatamentos. É típica de áreas abertas, cerrados, caatingas, matas de galeria, pastos, ilhas fluviais e cidades. É predadora de ninhos de outras aves, também se alimenta de insetos e outros pequenos animais, e aprecia frutos. Anda em pequenos bandos, mas não é um causador de problemas para humanos.
Fogo-apagou (Columbina quammata):
Rolinha com aparência escamosa, comum em campos secos, cerrados e jardins. Ocorre no Nordeste, Brasil Central e parte da Região Sul. É uma espécie arisca, que anda em pequenos grupos ciscando pelo solo. É mais ouvida do que vista. Não causa problemas para pessoas. Há relatos de declínio das populações urbanas, o que pode ser uma conseqüência do aumento populacional da pomba-de-bando.