A entrevistada de hoje é casada, tem três filhos e muitas causas sociais para defender: Maria José Oliveira Santos, atual presidente do Conselho Municipal da Consciência Negra e diretora estadual do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de São Paulo (Apeoesp).
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João Rosan |
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“Uma de nossas lutas é levar o ensino da cultura do negro até as escolas”
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“Mas foi na igreja que teve início meu engajamento social. Sou católica praticante desde sempre. Trabalhei com catequese e com as pastorais, primeiro na Paróquia Santo Antônio e, atualmente, na São Judas Tadeu. Fazemos parte de uma equipe de casais, atuo nas pastorais e desenvolvo um trabalho na formação de seminaristas, em língua portuguesa”, enumera.
Filha de família ferroviária, Maria José cresceu na tradicional Vila Quaggio, em Bauru. E disposição é o que não falta para a professora aposentada. Para ela, o tempo livre trouxe ainda mais trabalho, seja na Apeoesp, no Conselho Municipal da Consciência Negra ou em outras bandeiras por ela levantadas. Confira.
Jornal da Cidade - Quais foram as linhas que traçaram sua infância?
Maria José Oliveira Santos - Eu fui criada na Vila Guaggio, um bairro ferroviário e, por sinal, sou de família ferroviária. Minha infância foi boa e tranquila. Era um tempo de brincadeiras na rua, de amizade com os vizinhos e de muita solidariedade. Um cuidava do outro. Parecia até que cada quadra tinha apenas uma família, de tão unida que a vizinhança era (risos). Meu pai era baiano, do sertão, e veio para cá aos 16 anos. Trabalhou também na ferrovia, na Companhia Paulista, e trouxe toda a família para cá. Conheceu minha mãe em Bauru. Ela veio de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, quando minha avó veio transferida para cá. A imagem da minha infância é a ferrovia. Nesse contexto, é impossível também não lembrar da minha avó materna, que teve uma trajetória profissional bonita e à frente do seu tempo.
JC - Uma mulher guerreira?
Maria José - Muito. Ela era do início do século XX e foi funcionária da Noroeste do Brasil até se aposentar. Por isso foi à frente do seu tempo. Na época, negros não eram contratados pela ferrovia, porque o negro era direcionado para a zona rural. E ela administrava os postos de alimentação da ferrovia. Trabalhou em muitas cidades. Era querida por todos e conhecida como “Dona Mãezinha”. Faleceu muito jovem, quando eu tinha 10 anos de idade.
JC - Como nasceu a professora Maria José?
Maria José - Meu pai era um apaixonado por leitura. Morreu muito cedo, quando eu tinha 10 anos, no mesmo ano em que faleceu a minha avó. Ele estava sempre lendo para nós. Lia Rui Barbosa, Olavo Bilac... Lia tudo o que pegava. Formei-me na faculdade de Letras da antiga Fafil (atual USC), em 1978. Estou aposentada há um ano e meio. Sempre dei aulas no Estado.
JC - Você é integrante da Apeoesp...
Maria José - A educação é minha paixão. Sempre acreditei ser possível ver a escola melhor. A escola que meus filhos tiveram é bem diferente da que eu e meus irmãos tivemos. Foi por isso que eu entrei para a Apeoesp. Há 15 anos sou diretora estadual do sindicato. Percebi que o professor desenvolve tudo quanto é trabalho social. Só não brigamos por nossa profissão. Temos uma tradição de sacerdócio, mas precisamos sobreviver na sociedade capitalista. Para a educação recuperar a qualidade necessária para a sociedade ir em frente é preciso, acima de tudo, vontade política. Eu acredito que só a educação é capaz de fazer a diferença.
JC - Foi na Apeoesp que seu trabalho com causas sociais teve início?
Maria José - Na verdade, meu primeiro engajamento social aconteceu na igreja. Sou católica praticante desde sempre. Trabalhei com catequese e com as pastorais, primeiro na Paróquia Santo Antônio e, atualmente, na São Judas Tadeu. Ainda trabalho na igreja. Fazemos parte de uma equipe de casais, atuo nas pastorais e desenvolvo um trabalho na formação de seminaristas, em língua portuguesa.
JC - Hoje você também é presidente do Conselho Municipal da Consciência Negra. Quando você abraçou a bandeira contra o racismo?
Maria José - Tudo começou na Apeoesp. O Conselho oferece cinco cadeiras para o poder público e 15 para a sociedade civil, onde a Apeoesp e outras instituições têm assentos. Então, estamos sempre batalhando juntos, principalmente dentro da escola, já que é muito necessário trabalhar a base. A educação é arma contra o racismo. Era secretária executiva e, desde 2013, estou na presidência.
JC - Qual é a maior luta do Conselho hoje?
Maria José - É o preconceito velado que existe na sociedade brasileira. São momentos que a gente passa em situações do cotidiano. São coisas que não podemos provar, que somente se sente. Nossa luta é para que o povo negro encontre a sua identidade. Outra luta do Conselho é esta: levar o ensino da cultura do negro, das nossas raízes, até as escolas, para que nossas crianças se vejam identificadas como o povo que, durante três séculos, construiu este País. É preciso ter orgulho disso. Isso é consciência negra. Temos um bom trabalho nesse sentido em Bauru e cidade vizinhas.
JC - O que simboliza o dia 20 de novembro?
Maria José - A gente homenageia o maior herói do povo negro: Zumbi dos Palmares, com sua saga de resistência no Quilombo, que durou cerca de 20 anos e tinha toda uma organização, inclusive política.
JC - Já pensou em entrar para a política?
Maria José - Não. Ao menos ainda não. Essa é uma caminhada árdua. Eu acredito que o assunto precisa ser bem analisado.
