Há 77 anos nascia em Agudos Maria De Rosa, conhecida por Lya De Rosa. Sua paixão pela cidade natal fez com que ela dedicasse quatro anos de sua vida em uma pesquisa para escrever sobre uma das principais ruas. “A Rua 13 de Maio Antiga. Uma Rua, muitas histórias” será lançado no próximo mês.
A obra é fruto de muitas lembranças somadas a dados pesquisados em livros, documentos e jornais antigos que a escritora, pedagoga e psicóloga não se furtou a ler. Com uma sensibilidade fora do comum, Lya conta no livro histórias que, para muitos está fora de moda, mas que tocam o coração.
No capítulo dedicado aos quintais da rua 13 de Maio, ela relata as experiências vividas na infância e que geraram alguns dos nomes mais importantes da cidade. Em outros trechos ela conta como era o transporte coletivo da cidade para Bauru, dos bailes de formatura, do comércio que fabricava sapatos, dos alfaiates e do maior revendedor de carros Ford do Brasil que tinha uma loja em Agudos. São 300 páginas de puro deleite para aqueles que se interessam em saber como era a vida dos agudenses na primeira década do século 20. “Naquele tempo não havia Internet e aparelhos celulares. Esses aparelhos mataram a janela. A janela por onde as vizinhas e comadres conversavam, trocavam ideias. A falta de comunicação entre as pessoas é uma perda inestimável. Claro que eu jamais deixarei que usar a Internet, mas não abandono a convivência com meus vizinhos, amigos e parentes.”
Éder Azevedo |
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Antiga estação da Paulista fica no final da rua 13 de Maio, prédio foi preservado e integra o patrimônio
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A escritora explica que, para escrever o livro que registra uma parte da história de Agudos, teve bastante trabalho. “Não há fonte de pesquisa em Agudos. Para escrever esse livro, eu já tinha escrito outro: ‘Agudos 100 anos de história’ quando a cidade completou o centenário, encontrei uma dificuldade grande para pesquisar. Na Câmara Municipal e prefeitura só têm documentação mais próximo do presente. O que eu queria mesmo, a partir da fundação de Agudos, nada foi encontrado. Não há arquivo histórico de maneira sistematizada.” Com seu jeito simples e elegante de ser, Lya De Rosa diz que a obra traz informações colhidas junto a antigos moradores, da Escola Coronel Leite fundada em 1913 e nos jornais da época arquivados no espaço histórico Plínio Machado Cardia.
Uma rua que tem muitas histórias
O livro é uma colcha de retalhos de histórias interessantes e históricas desde o nome da rua até casos ocorridos e registrados ao longo da vida dos moradores. O nome da via, 13 de Maio é uma homenagem a data que deu liberdade aos escravos. “Os ex-escravos se reuniam no largo São Paulo, todos os anos, na véspera do dia 13 de Maio para comemorar a libertação. Então, talvez, essas comemorações tenham motivado o nome da rua, mas não há documento que comprove isso.”
Na opinião dela, Agudos tinha muito comércio nessa época. “São conclusões minhas. As principais ruas começavam no Largo São Paulo e tinha muitas lojas comerciais ali por perto. Nas ruas dos Lavradores, hoje, avenida Benedito Otoni, na 7 de setembro, 13 de maio e XV de novembro.”
A inauguração das duas estações de estrada de ferro, a Sorocabana e a Paulista em 1903 foi o ‘start’ para o comércio na rua 13 de Maio. “Eu considero que o comércio desenvolveu mesmo a partir da inauguração das duas estradas de ferro. Considero um privilégio, elas estão numa mesma rua. Acredito que só em Agudos exista isso. Era um comércio em pleno desenvolvimento.”
De acordo com ela, o comércio era formado de lojas de secos e molhados, calçados e botinas feitas à mão, a sapataria do Nicola Pasqual, alfaiates e muitos hotéis. “Naquele tempo tinha mais de 20 hotéis espalhados pela cidade. Era uma cidade em desenvolvimento com a chegada das estações. Agudos tinha se firmado politicamente, todo mundo achava que era a cidade do futuro. No final da história isso não ocorreu, o movimento foi puxado para Bauru.”
Cidade teve maior revendedor de carros
A loja de carros Salmen foi o maior revendedor de carros Ford do Brasil e nasceu em Agudos na rua 13 de maio número 835. “O Frederico Pagani fazia sapatos à mão. A General Motors do Brasil do José Felipe Saab vendia móveis de aço, fonógrafos, máquinas de lavar, roupa, balcões frigoríficos, refrigeradores, máquina de escrever, caminhões, carros, bomba d’água, óleos e tintas.”
A loja do Arcangelo Napoleone de material de construção vendia também, madeira, perfumaria, ferragens, armarinhos, munições armas, fogos que naquela época era permitido, brinquedos, livros, artigos para escritório, discos, instrumentos de corda, cama de ferro e colchões.
Atualmente a rua 13 de Maio está renovada, dos antigos comerciantes, segundo a autora do livro, não há mais nenhum. “Cinco casarões foram preservados e pertencem às mesmas famílias: Zanirato, Cardia (prédio que abriga o museu), Livramento Dota, Sormani e de Carolina Rocha.”
Comemorações cívicas
A rua 13 de Maio foi palco de desfiles cívicos, religiosos e de carnaval, segundo o livro. “As procissões e desfiles de 7 de setembro eram realizados nessa via. Até desfile de fantasias carnavalescas. Hoje, não temos mais bailes carnavalescos na cidade.
Das ‘jardineiras’ dos anos 20 aos mais modernos ônibus
Desde os anos 20, empresas de ônibus serviram a população de Agudos. Em 25 foi inaugurada a primeira ‘jardineira’, de Guilherme Zavataro que fazia a linha Agudos-Borebi e Agudos-Bauru. Em 1930 a empresa Auto-Band de Arcanjo Comin começou a fazer o itinerário Agudos-Avaí com parada no Hotel dos Viajantes na rua 13 de maio. Nos anos 50, quatro companhias atuavam em Agudos.
A Empresa de Transportes Auto-Ônibus fazia o itinerário, Agudos-Domélia. A Empresa Pássaro Marrom ligava Ourinhos a Bauru, passando por Agudos. A Empresa de Ônibus Leão, unia Borebi-Agudos-Bauru. A Empresa de Ônibus Agudos-Paulistânia-São João do Turvo com escritório na rua 13 de Maio. A firma pertenceu a Salim Fayad e Irmãos.
Em 1934, Ângelo Franciscato inaugurou a linha Bauru a Agudos, Lençóis Paulista, Areiópolis, Aparecida, São Manuel e Botucatu. À época com uma única partida, às 9h40 e retorno de Botucatu às 14h. Logo depois a linha passou a operar em cinco horários.
No começo, eram as jardineiras que faziam o trajeto pela estrada velha de terra. As jardineiras entravam na avenida Benedito Ottoni e subiam a rua 13 de Maio. Acompanhar a chegada e saída das jardineiras foi um passatempo para os agudenses dessa época.
No início dos anos 60 o intercâmbio entre Bauru e Agudos aumentou por conta dos estudantes e comércio. A empresa Expresso de Prata ampliou o atendimento e passou a operar com ônibus modernos e confortáveis.
Quintais foram celeiros de intelectuais agudenses
Arua 13 de Maio de Agudos nem sempre foi só comercial. No início ela continha casas e casarões que davam a via um ar de nobreza. Foi nos quintais dessas casas, onde as crianças brincavam que teve início a carreira de vários intelectuais, lembra a escritora no livro.
Nos fundos das residência haviam imensos espaços dedicados a brincadeiras infantis. “Alguns talentos desabrocharam nessa época. Em um capítulo do livro eu escrevo sobre três pessoas que se destacaram em brincadeiras nos quintais. Uma delas, foi a escritora, Regina Maria Sormani Ferreira, que expõe na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. É conhecida nacionalmente. Uma de suas obras, ‘Quem tem medo do porão’ foi baseada nas histórias ocorridas no quintal e porão da casa dela.”
Em 1983, a agudense iniciou a carreira de escritora de livros de história sobre animais, aventuras e mistério, destinados ao público infantojuvenil. “Montou o projeto Teatro nas escolas, com contadores de história e bonecos, para propiciar uma maior aproximação entre crianças e personagens dos seus livros. Atualmente tem mais de 20 livros publicados, vários traduzidos para o espanhol.”
Maria Helena Cardia, que organizava os grupos para brincadeira e excursões pelas fazendas, é hoje uma empreendedora. “A minha irmã, Maria da Glória De Rosa escritora doutora, já na infância demonstrava que seria uma escritora. Ela tem livros da História da Educação publicados, que estão na 16ª edição.” Maria da Glória De Rosa lia os livros e escrevia os roteiros das peças a serem encenadas pelas demais crianças. “Ela escrevia as peças de teatro e nós éramos os atores. O teatrinho era dentro dos cirquinhos montados nos quintais.”
A irmã lembra com saudade que cada ‘ator’ recebia sua fala em um papel individual para decorar e apresentar na data marcada. “As falas vinham em papéis. Hoje ela é uma escritora renomada.”
Lya não cansa de ressaltar que os quintais eram e são importantes em determinada fase da vida de todo ser humano. “Os relacionamentos entre as crianças era algo maravilhoso. Havia comunicação pessoal, uma conversava com a outra, aprendia com a outra. À época não havia televisão, celular e nem Internet.” Além de melhorar as relações pessoais, as brincadeiras faziam pulsar a criatividade individual, frisa a escritora. “Dediquei um capítulo às brincadeiras de rua pela importância delas na vida das crianças. Elas mesmas faziam seus joguinhos. Confeccionavam petecas, faziam bola de meia. Brincavam de amarelinha, corda, rodavam pneus. Eram atividades sadias em que as crianças não ficavam presas no computador nem no telefone celular.”
No final do expediente, as famílias agudenses tinham o costume de se juntar nas calçadas. “Cada um trazia sua cadeira e ali passavam horas conversando. Um ouvia o outro. Era como uma terapia. Todos desabafavam, contavam histórias de vida, enquanto as crianças brincavam. Hoje, o pessoal chega do trabalho e vai direto para o computador e não se dedicam ao diálogo. O computador aproximou pessoas distantes e distanciou pessoas próximas.”