Geral

Renda emperra evolução do IDHM

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Bauru figura na seleta lista das cidades brasileiras com o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) considerado muito alto (acima de 0,800). Apesar disso, o contexto não é animador. Entre 2000 e 2010, perdeu 11 posições no ranking nacional, caindo do 26.º para o 37.º lugar. A renda média por pessoa é o indicador que segurou a evolução do município na última década, segundo dados divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

O IDHM varia de 0 a 1 (quanto maior a nota, melhor). O índice de Bauru foi de 0,801 em 2010. Dez anos antes, era de 0,736. Em São Paulo, o salto foi de 0,702 para 0,783. No País, de 0,612 para 0,727.

Numericamente, a cidade está bem à frente. A evolução do município de 2000 a 2010, contudo, foi inferior: de 8,83%. Considerando as notas estadual e nacional, os crescimentos registrados foram de 11,5% e 18,7%, respectivamente.

O desempenho local fez com que Bauru perdesse seis posições para outras cidades paulistas: Santana do Parnaíba, Americana, Assis, Campinas, Rio Claro e a própria capital do Estado.

Padrão de vida

Três dimensões do desenvolvimento humano são analisadas para o cálculo do índice: a longevidade (expectativa de vida ao nascer);  a educação (escolaridade da população adulta e fluxo escolar da população jovem); e o padrão de vida, medido pela renda de cada morador do município.

Foi nesse último quesito que Bauru apresentou pior evolução, de apenas 3,3%; com nota 0,800 em 2010, ante 0,774 em 2000. A taxa de crescimento é equivalente à metade da alcançada pelo Brasil (6,7%) e inferior à observada no Estado (4,3%) no mesmo período.

Motivos

Para o economista Reinaldo Cafeo, o desempenho modesto na renda de Bauru está associado ao modelo de crescimento sustentado no setor terciário, que corresponde a 68% da atividade produtiva local, abrangendo o comércio e os serviços. A indústria responde por 30% e o agronegócio, por 2%.

“Esse cenário tem proporcionado uma remuneração média mais baixa. Os sindicatos mais fortes, a mão de obra mais qualificada e os salários mais robustos estão na indústria. Passamos por um processo nacional de desindustrialização, mas a Lei do Cerrado e outros fatores criaram um cenário de acomodação ainda maior em Bauru”, explica.

Entre os anos de 2000 a 2010, além do fortalecimento do comércio pelo maior acesso ao consumo, houve uma grande expansão do ramo de recuperação de crédito na cidade.

“Isso tem nos garantido um baixo nível de desemprego e a oferta de oportunidades para muitos jovens que entram no mercado de trabalho. Por outro lado, as faixas salariais estão um pouco acima de um salário mínimo”, pondera Cafeo.

O desempenho de Bauru só não foi pior graças ao boom da construção civil, durante a segunda metade da década. “O setor é enquadrado como indústria e aqueceu muito a nossa economia. Ainda assim, é a atividade industrial com menor nível de salário, pois a base de sua pirâmide é composta por auxiliares de pedreiros, cuja remuneração não é das mais altas”.

Últimos 4 anos

O recorte dos dados para a análise do IDHM não alcança o período de 2011 a 2014. Reinaldo Cafeo adianta, porém, que não houve avanços nos últimos quatro anos no cenário responsável pelo baixo crescimento da nota de Bauru.

“A Lei do Cerrado só veio em 2009. Depois dela, houve uma evasão de indústrias de pequeno e médio porte da cidade. Além disso, a partir de 2011, já passamos a sentir a desaceleração da construção civil, baqueada pela crise econômica mundial”.

Perdendo fôlego

O diretor em Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Domingos Malandrino, pontua que a indústria está perdendo fôlego.  Para ele, o agravante do IDHM é que os dados refletem o período 2000-2010. “A situação após 2010 é ainda pior. Isso porque Bauru tinha, ainda no final do período de medição desse IDHM, uma participação diante do PIB industrial bem melhor que a média nacional. A participação nacional há alguns anos era de 12,3% e Bauru estava em 19%. Neste momento esses patamares são piores, o que preocupa ainda mais”, reflete.

Malandrino ressalta que o número de empregos na indústria não acompanhou os demais setores nos últimos 8 anos. “O que quero reforçar é que Bauru gerava acima da média nacional e estadual e isso parou. De 2012 para cá, nós caímos. Por isso acredito que o quadro do IDHM após 2010 seria ainda pior do que estamos vendo”, insiste. O diretor do Ciesp recorda que, apesar das dificuldades, o empresariado conseguiu investir em máquinas há dois anos, valendo-se de uma bolha favorável da cotação do dólar.

“Agora não temos mais essa situação. E se você não consegue investir em atualização em seu parque industrial não tem ganho em produtividade e isso no ciclo gera outros resultados negativos. A geração de emprego na indústria perde fôlego e isso em cadeia torna a situação ainda mais difícil”, finaliza.


Educação em alta

Em todo o País, a dimensão da educação é a que possui a menor nota no cálculo do IDHM. Em Bauru, não é diferente. O índice em 2010 é de 0,752, ante 0,800 para a renda e 0,854 para a longevidade. No entanto, foi esse indicador que garantiu a maior evolução para a cidade em comparação à nota do ano 2000: 0,645. O crescimento foi de 16,5%. Para avaliar a educação nos municípios, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) considera a escolaridade da população adulta e o fluxo escolar da jovem.

Assessor de gestão estratégica da Secretaria Municipal de Educação, Celso Zonta pondera que o índice não avalia a eficiência do ensino, mas apenas o grau de escolarização. “Nesse aspecto, a evolução foi significativa por conta das políticas públicas que priorizam a universalização. Tivemos os planos nacionais nos governos Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, que apontaram as metas nesse caminho. Em 1991, 37,3% das crianças de 5 a 6 anos frequentavam a escola. Agora, são 91,1%. Na faixa dos 11 a 13 anos, eram 36,8% e, hoje, são 84,9%”, compara.

Zonta observa que o grande parque universitário de Bauru também contribui positivamente para a melhora da nota.

Comentários

Comentários