Ciências

Sepse: o perigo que está em nós!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

É comum você ouvir que a pessoa morreu por infecção generalizada, septicemia, choque séptico ou que bactérias esparramaram-se pelo corpo e aí não resistiu! Para todas estas situações atualmente procura-se usar apenas um nome simples: “sepse” (fala-se sépisse). Este termo vem do grego e significa putrefação.

Ao antigo nome “septicemia” procurava-se atribuir significados como bactérias proliferando no sangue ou esparramando-se no organismo. Tudo que termina em “mia” implica em ser ou estar no sangue e septicemia literalmente significa sangue putrefato. Está em desuso o termo septicemia entre especialistas, pois na verdade representa um quadro iniciado por bactérias, mas não necessariamente esparramadas pelo corpo.

Na sepse as bactérias pode ter tido um papel preponderante no seu desencadeamento, mas o que leva à morte é a anarquia biológica que provocaram. Os sistemas do corpo e os mecanismos de defesa ficam descoordenados e atuam cada um a sua maneira, levando à falência do organismo como um todo e à morte. O problema deixa de ser as bactérias e passam a ser recuperar a sincronia dos mecanismos que fazem o organismo voltar a funcionar normalmente. Quase sempre o paciente envolvido na sepse vai para uma Unidade de Terapia Intensiva e a taxa de mortalidade é alta.

Resumindo: não se usa mais falar septicemia e sim sepse. O problema não são as bactérias, mas a anarquia biológica que induz nos mecanismos de funcionamento e defesa do corpo. Fazer voltar à sincronia que é o difícil! Quando acontece isto nos computadores e celulares recomenda-se que de um “pau”, um “resetar”, um “del” ou que se desligue tudo de uma vez e recomece de novo! No corpo é complicado fazer este tipo de manobra.

Bacteremia

No corpo temos o meio interno e externo, mas não esqueçamos que somos um tubo. A luz do esôfago, estômago e intestino são meio externo; traqueia e do pulmão também! Sim, somos um tubo ambulante com dois bracinhos e duas perninhas como aqueles desenhos de crianças! No meio interno não se deve ter bactérias, fungos e vírus, mas no dia a dia é quase impossível não entrar bactérias nos nossos tecidos.

Pentear cabelos, escovar dentes, comer, coçar os olhos, fazer as unhas ou sexo criam um monte de micro-ulcerações e introduzimos bactérias no sangue. Mas elas se dão muito mal: no sangue temos as paredes fechadas dos vasos e uma quantidade incrível de células fagocitárias e substâncias antibacterianas como os anticorpos: em segundos ou minutos, eliminam-nas! Este estágio transitório de bactérias chama-se bacteremia e o temos todos os dias!

Início da Sepse

Bacteremias diárias tiramos de letra quando os mecanismos de defesa funcionam sincronizadamente, especialmente a inflamação e o sistema imunológico. Deficiências nutricionais por alimentos inadequados, regimes e dietas malucas, assim como vida estressante associada a sedentarismo, cigarro, álcool e outras drogas promovem uma falta de efetividade desses mecanismos contra as bactérias do dia a dia. Do mesmo modo, pacientes em terapia contra o câncer, doenças autoimunes, insuficiência respiratória ou renal e cistite também ficam debilitados.

Nestes estados o que seria uma bacteremia habitual passa a ser uma contaminação importante e o organismo reage de forma assoberbada, desorganizada ou hiperdimensionada dando origem à sepse, também referida no meio dos especialistas como SIRS ou síndrome da resposta inflamatória sistêmica.

Prevenção

Um abscesso dentário, uma injeção contaminada, uma cirurgia simples e procedimentos aparentemente inofensivos como colocar um piercing ou fazer tatuagem podem levar a uma sepse se o paciente estiver debilitado por dieta maluca, por vícios, tomando corticoides ou com vida estressante!

Uma avaliação prévia e rigorosa das condições sistêmicas antes de qualquer procedimento que exponha o meio interno do corpo ao meio externo é fundamental para se evitar este tipo de problema: a sepse! E quanto antes se diagnosticar e tratar, aumenta-se a possibilidade de se salvar!

Cuidemo-nos!


Observatório

Morrem: Dos pacientes com sepse 55,7% morrem nas 229 UTIs pesquisadas pelo Instituto Latino Americano da Sepse. Nos EUA morrem 32%, França 30% e Austrália 18%. Um quarto das vagas de UTIs estão ocupadas por sepse e representa a principal causa de morte. Pacientes e médicos demoram a procurar a UTI. Pesquisa revelou: 44% dos médicos não sabem diagnosticar sepse e apenas 7% dos brasileiros já ouviram falar dela.

Tarde demais – Em 40% dos pacientes, já chegam na UTI com sepse. Eles retardam a  procura do hospital por ignorância ou comodismo. Os principais sinais são: febre, mal estar, fraqueza, tremores, tontura, falta de ar e diarreia! Quanto mais cedo tratada, muito menor a mortalidade.


Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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Email: consolaro@uol.com.br

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