Tribuna do Leitor

É adequado ser inadequado?


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Certa vez, uma professora me disse que uma de suas colegas, também professora, lhe sugeriu que ela desse aos seus alunos (em uma escola humilde de um bairro marcado pela violência e pelo tráfico de drogas) exercícios adequados à sua realidade. Esta professora ficou indignada, e lhe respondeu que não agiria desta forma. Pergunta-se: que seria então o adequado ? Para o caso relatado pela professora, adequados seriam os exercícios que os alunos entendessem, com realidades nas quais se identificassem, não gerando conflitos de realidade.

De pronto, questiona-se: se é um exercício, por que deve ser adequado? Não deveria ser o exercício um desafio? Deveria, então, ser inadequado? Sim. Não existe exercício sem desafio, e a inadequação é o alimento do desafio. Inadequado é o que gera conflito. E, no conflito, alguém deve vencer. E quem quer vencer se transforma.

É, então, nas incertezas que está o desafio. Naquilo que não sabemos, pois o inadequado é o que não se encaixa com as nossas certezas. A busca da certeza, que tanto amedronta a humanidade, pode ser utópica, mas o caminho desta busca é o alimento da alma. E o homem que estiver (ou se julgar) certo de tudo certamente já estará morto. A busca da certeza é, também, uma busca pelo que é adequado, porém, certamente terá mais valor se encontrar o inadequado, pois é no inadequado que está o conflito, e no conflito está a transformação. Os maiores filósofos eram cheios de dúvidas, e o pensamento filosófico nunca se firmou na certeza, mas sim na incerteza do homem no seu próprio ser (ou não ser? eis a questão).

A supervalorização da certeza (que é inclusive, um elemento de poder) nada mais é do que a expressão do anti-intelectualismo, e este, é um dos instrumentos da cultura de consumo de massa, que prega justamente a incorporação de valores, e não a criação, a partir de introspecção e observação. Duvidar, e duvidar-se, é visto de forma pejorativa, como falta de confiança, de perspicácia, e de sabedoria. O mito da certeza é que nos causa tamanha estranheza e rejeição ao que julgamos inadequado.

Que estejamos, então, certos em nossas dúvidas, e duvidosos em nossas certezas, pois não há transformação se não houver conflito, e só aquilo que julgarmos inadequado será capaz de nos deixar em conflito com nossas próprias certezas. Aquele que se julgar certo de tudo, certamente estará morto.

Mário Henrique da Luz do Prado

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