Malavolta Jr. |
|
|
Bolhas de sabão e um coração feito com bexigas: brincadeiras levadas por Paulo às crianças em hospital |
“Cheguei lá no hospital e me deram uma peruca e a calça de palhaço. Falei: ‘não foi isso o combinado, sou tímido’”. Aos risos, Paulo Roberto Migues, 53 anos, lembra do primeiro dia que incorporou um personagem em prol de uma causa nobre: fazer uma criança sorrir. “O convite foi para minha esposa, que passou a missão pra mim. Hoje não consigo mais entrar no hospital sem a roupa de palhaço”.
O aposentado faz parte do Projeto Alegria há 13 anos. Toda quinta-feira, ele e mais 11 voluntários visitam alas de pediatria e adulta de uma unidade hospitalar em Bauru. A timidez, nessa hora, fica para trás.
“Quando me deparo com crianças com câncer, debilitadas, ganho forças, supero minhas limitações e tento passar a elas um pouco da minha alegria de viver, de esperança. E a criançada espera pela gente, corresponde, esquece a dor e o sofrimento. É um compromisso sério que tenho com elas toda semana”, orgulha-se.
A afinidade com crianças, contudo, vem de casa, conforme contou Paulo, que tem dois filhos. “Já estão grandinhos. Acham que o pai deles é meio ‘molecão’, mas respeitam o que faço. O ato de fazer o bem começa com a família, sendo um bom marido, bom pai”, observa o aposentado, que mora no Lago Sul.
E é no conforto do lar que Paulo dá formato ao personagem, que, por incrível que pareça, após mais de uma década, ainda não foi “batizado”. “Nunca pensei como devo ser chamado. As crianças sempre perguntam e fico sem saber o que responder. Digo a primeira coisa que vem na cabeça”, brinca.
Sem maquiagem
Enquanto falta identidade oficial, sobra diversão. O palhaço sem nome carrega inúmeras atrações e surpresas. “Sempre imagino levar algo diferente para o hospital a cada semana”, conta Paulo, e prova mostrando seu figurino, que vai desde peruca e óculos coloridos a nariz vermelho e sapato fino. O curioso: sem maquiagem alguma. “Tem crianças que até se assustam com isso”.
Além da roupa inusitada, badulaques não faltam para complementar a vestimenta. “Incremento a fantasia com um porquinho, uma galinha, um brinquedo de soltar bolinhas de sabão. Vale tudo”, alegra-se Paulo.
No entanto, seu maior companheiro durante as visitas ao hospital é um violão. “Comprei para os meus filhos e acabei aprendendo a tocar. A música fala muita coisa que, às vezes, a gente não consegue descrever no dia a dia. A música, com certeza, abriu caminho para eu ter sido bem acolhido pelas crianças”.
Quem tiver interesse em também tornar-se voluntário, basta enviar e-mail para projetoalegriabauru@gmail.com.
Palhaço, cabeleireiro, regente de coral: muitas facetas para ajudar
De palhaço sem nome à cabeleireiro e regente de um coral com crianças e adolescentes. Paulo Migues faz questão de ocupar o tempo sendo voluntário em outros programas assistenciais. Ele participa do Projeto Colmeia na Vila São Paulo, que atende cerca de 200 crianças carentes.
“É como se fosse uma escola paralela com reforço nas matérias escolares e prática de esportes, além de oferecer alimentação”, explicou Paulo. “No primeiro dia, mandaram eu cortar cabelo das crianças. E eu fui”, disse, em gargalhadas.
“A molecada me pergunta: ‘como anda seu salão?’ Digo que só atendo no projeto agora”, diverte-se.
Além de “fazer a cabeça” da garotada, o aposentado ensaia um coral com 30 alunos, entre 8 e 15 anos de idade. “Fiz um desafio a eles de aprender uma música em inglês. Tudo bem que estamos ensaiando desde março, mas ficou muito bom”, brinca.
Agora, o coral fará sua primeira apresentação no Teatro Municipal de Bauru, no próximo dia 15, às 20h. “Eles irão cantar a música Imagine, de John Lennon. A entrada é franca e deixamos o convite a toda a população da cidade”, finaliza Paulo Migues.
