Os pontos de venda de drogas estão na esquina, ao lado e até em frente às escolas. E como fazer para que este problema não pule os muros e entre nas unidades como tem ocorrido ultimamente? Esta foi uma das questões levantadas durante uma reunião entre a promotoria da Infância e Juventude e diretoras de todas as escolas estaduais de Bauru, na Diretoria Regional de Ensino (DRE), na manhã de ontem.
O encontro tinha como objetivo avaliar a ação de intensificação do reforço realizado pela Polícia Militar na porta de algumas unidades, no primeiro semestre deste ano, e traçar novas estratégias para o ano letivo de 2015, visando o enfrentamento ao tráfico no entorno e até dentro das unidades.
O evento, no entanto, foi novamente marcado por depoimentos e revelações de diretoras de algumas unidades, que têm sofrido constantemente com ameaças por parte de estudantes envolvidos com o tráfico (leia mais abaixo).
Após ouvir a série de relatos, o promotor da Infância e Juventude em Bauru, Lucas Pimentel, decidiu, juntamente com a DRE, enviar um pedido formal à Polícia Civil requerendo uma ação específica de empenho na investigação dos pontos de tráfico denunciados próximos às escolas.
Vale ressaltar que, no início deste ano, o problema já havia sido relatado em outra reunião da DRE, mas, na ocasião, conforme o JC divulgou, ficou acordado que as escolas receberiam o reforço da PM apenas.
Rede de proteção
A ideia, segundo explica a dirigente regional de ensino, Gina Sanchez, é aumentar a rede de proteção das unidades e dar continuidade ao enfrentamento do tráfico.
“Infelizmente, ainda recebemos queixas diárias de algumas escolas. As ameaças ocorrem de forma velada. É um problema social que tem nos afetado, até por conta do fato de a escola ser um local de concentração de jovens, público principal do tráfico”, pontua Gina.
“A comunidade escolar sabe onde estão os pontos de tráfico, mas não tem como entregar ninguém. A ideia é que a polícia receba denúncias da população local e investigue para chegar à base do crime”, completa a dirigente de Ensino.
As escolas elencadas como as mais problemáticas quando o assunto é violência e tráfico estão situadas no Núcleo Geisel, Redentor, Jardim Petrópolis, Parque Jaraguá e Vila Dutra.
Procurado pela reportagem na tarde de ontem, o delegado seccional de Bauru, Ricardo Martines, disse que ainda não havia recebido o pedido formal da promotoria e DRE, mas colocou-se à disposição para dialogar com as diversas escolas e a promotoria.
“Nós não fomos convidados para essa reunião, mas, se isso está ocorrendo, precisamos de uma ação pontual para saber em que locais específicos o tráfico está agindo e levantar quem está por trás. Trabalhamos em cima de levantamento de informações, portanto, precisamos de um levantamento concreto”, pontua.
Vale lembrar que o tráfico praticado a menos de 100 metros de uma unidade escolar recebe uma qualificadora, ou seja, uma majoração da pena para quem o pratica.
PM repetirá operação ‘surpresa’ nas unidades
Em ampla reportagem publicada em abril deste ano, o JC mostrava a preocupação de diretoras de escolas estaduais frente à problemática aproximação do tráfico de drogas por meio de estudantes aliciados.
Na ocasião, dez escolas, localizadas na região oeste e noroeste da cidade, foram apontadas como as mais problemáticas e receberam reforço policial nos horários de entrada e saída em seus portões.
Ontem, durante o novo encontro, a ação foi avaliada de forma positiva e, segundo o 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I) será repetida em 2015, no início do primeiro semestre.
“A ideia é manter o pessoal da ronda escolar, com apoio do canil, da Força Tática e da Rocam na porta das escolas mais problemáticas, para efetuarem abordagens surpresas nos horários de entrada e saída”, afirma o capitão João Costa Duarte, coordenador operacional do 4.º BPMI.
‘Cagueta sempre toma!’
Durante a reunião com a promotoria, algumas diretoras classificaram como “um alívio” o resultado da ação mais intensa da Polícia Militar, realizada no primeiro semestre deste ano. “As abordagens diminuíram bem a movimentação, mas isso não pode morrer, essa ação tem que continuar”, comentou a diretora de uma escola, que, por motivos de segurança, não será identificada.
“Recebemos o aluno que é filho do traficante ou filho do usuário, ou seja, é resultado de todo um abandono. E o problema está além das nossas possibilidades. O pessoal esconde droga na escola e nós vivemos uma intimidação velada constante”, completou outra diretora.
Um dos relatos que mais chamou a atenção foi de uma professora mediadora. “Quase todos os dias pegamos alunos usando maconha no banheiro. E o ponto de tráfico é em frente à escola. Sou mediadora, mas não sou psicóloga e nem psiquiatra. Faço meu trabalho com amor e persistência, mas é difícil a escola mudar essa realidade sozinha”, afirma a professora.
Segundo elas, a expressão “Cagueta sempre toma” é utilizada com frequência pelos estudantes usuários ou colabores do tráfico como forma de ameaça.