Articulistas

Nossa pequena cota de desonestidade

Dulce Marli Kernbeis
| Tempo de leitura: 2 min

Recebi esta carta de uma amiga jornalista que há anos se bandeou para os EUA. Ela que, foi primeiro à Alemanha, atrás do marido e, depois se fixaram lá nos "Estaites", tem uma visão de fora muito apurada sobre nossa realidade. Como tem a verve jornalística, não deixa de publicar seus escritos sob o pseudônimo de Sinhá da Camiranga e fala com embasamento do que nos corrói: a falta de cultura, civilidade, educação, a nossa crise moral. É para se pensar. É para refletir. Goste ou não. Este é o nosso país. E é preciso enfrentar esta realidade. Isso se queremos mesmo melhorar. Eu tenho certeza de que quero. Um jeito de começar já é lendo o que ela tem a dizer.

"Maior crise do Brasil é a de caráter, infelizmente. O fazer a coisa errada é uma doença em nossa sociedade, um câncer enraizado que a todo momento mostra sua cara feia. Seja nos ricos e poderosos, com suas maracutaias e desvios de dinheiro público, seja nos pobres e miseráveis. Pequenos gestos de sacanagem, de desrespeito aos semelhantes, que são repetidos quotidianamente e se tornam coisa banal, aceitos como fatos inevitáveis. É o flanelinha cobrando por um espaço que é público. E gente que se sente coagida a pagar pra evitar prejuízos maiores. É gente estacionando em vagas para idosos ou deficientes, gente jogando lixo na rua, nos parques, nas praias, depredando muros, praças, escolas, queimando ônibus, trens, postos de saúde. Safados que subornam o guarda ou o fiscal da prefeitura ou outro miserável qualquer pra escapar de uma multa, para burlar uma lei, para conseguir algum privilégio indevido. Ironicamente essas mesmas pessoas reclamam da nossa Justiça capenga, nossa polícia brutal, despreparada, nossas leis frouxas. Convenientemente esquecem que a tal impunidade que elas tanto criticam acoberta não só o assassino confesso quanto suas próprias pequenas e quotidianas desonestidades. Sem contar os que furam filas, os que dirigem pelo acostamento pra tentar fugir do engarrafamento, vixe!, eu poderia escrever um compêndio com a lista das rotineiras transgressões e safadezas que infelizmente viraram coisa comum na sociedade brasileira.

Cada vez que volto ao Brasil fico muito triste por ver que o País não funciona, não evolui. E não funciona porque nossa cultura, nossa maneira de viver e de pensar, nosso provincianismo nos condiciona a isso. Somos vítimas, sem dúvida, mas somos cúmplices também. Concordo que programas paternalistas podem retirar milhões de pessoas da miséria, como o atual governo tanto gosta de alardear. Mas penso que mais importante do que retirar milhões da miséria seria retirar a miséria de milhões . E isso só se consegue com Educação e a mudança dessa cultura nefasta que nos caracteriza como povo. E é por essas e por muitas outras Dulce Marli Kernbeis que eu fico mesmo é aqui na minha Camiranga num sabe? Fui!"

A autora é jornalista e foi ex-colega de redação da Sinhá da Camiranga, também jornalista

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