Saúde

Toques e retoques: hidrogel: entenda o perigo dessa substância

Daniela Hueb
| Tempo de leitura: 4 min

Prezado leitor,

Alcançar seu melhor corpo tem ficado cada vez mais possível graças aos avanços da medicina estética. Você malha, controla a alimentação e ainda tem ajuda de procedimentos estéticos superpoderosos, que sempre se renovam. Em um passado até que recente, as aplicações de hidrogel eram usadas para corrigir assimetrias de mamas, glúteos, coxas, panturrilhas e, principalmente, para reduzir a aparência da celulite.

O problema é que muita gente continua fazendo o uso dessa substância com fins errados: o de turbinar o corpo e ficar bem mais musculoso. Existe muita falta de consciência ao optar por esse procedimento e aí o pessoal vai a clínicas desconhecidas, com profissionais que nem são médicos e, sim, fisioterapeutas ou biomédicas, que não estão autorizados a fazer esse procedimento. Então, nada melhor do que entender o processo do hidrogel, concorda?

O que é o hidrogel?
Trata-se do gel hidrofílico que preenche os espaços desejados por meio da criação de um depósito de solução fisiológica nos tecidos. Ele é composto por 98% de água e possui uma molécula sintética capaz de armazenar esse líquido. Ao ser injetado, o organismo cria uma cápsula em volta dessa substância, garantindo que ela demore a ser absorvida. É justamente essa cápsula que impede que o hidrogel migre para outras regiões do corpo. Mas essa cápsula pode explodir e aí o conteúdo se espalha pelo organismo. A grande diferença entre o hidrogel e uma prótese de silicone é que este último pode ser removido, caso não seja bem recebido pelo corpo.

Trata-se de um produto absorvível que fica no organismo por um período que vai de um a dois anos, dependendo do local onde é injetado e das características do paciente. O previsto é que, depois desse tempo, o produto seja absorvido pelo próprio organismo e, caso o paciente queira que o volume aumentado continue, é necessário fazer uma nova aplicação.

É uma substância legal?
Aqui no Brasil, sim, pois é aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Como funciona a aplicação?

É como uma injeção, feita através de um tubo por onde o cirurgião plástico coloca a substância na área e modela o formato desejado. A substância, além de ser aplicada para corrigir assimetrias, já foi usada na correção de rugas, marcas de expressão e pálpebras. Importante: para todos esses problemas, já existem métodos alternativos também muito eficientes, basta conversar com seu dermatologista para conhecer outras opções.

O procedimento
A aplicação dura cerca de uma hora e a recuperação demora entre cinco e dez dias. E deve ser feita por um cirurgião plástico ou um dermatologista com experiência no uso do produto. O estabelecimento onde a aplicação será feita deve ser um centro cirúrgico ou um estabelecimento que tenha condições de atender possíveis intercorrências médicas. O profissional precisa seguir à risca a anti-sepsia com material de boa qualidade e sem exageros na quantidade. Desconfie de qualquer profissional que aceite colocar uma quantidade da substância muito exagerada, ok?

Por que pode dar errado?
Os perigos da aplicação de hidrogel são muitos, caso não seja feito por um médico especializado nisso. Antes de mais nada, vale lembrar que o uso dele serve para corrigir pequenas imperfeições, mas atualmente as pessoas usam para turbinar os músculos de forma excessiva e, assim, a quantidade de hidrogel no organismo acaba se tornando exagerada. E é aí que mora o drama. Existem vários relatos de complicações tardias relacionadas ao produto e as sequelas são permanentes, já que não há como retirar o hidrogel do organismo após sua aplicação. Também é comum ter complicações futuras como nodulações, mesmo anos após a aplicação. Isso porque a aparência de uma aplicação mal feita é o endurecimento da região, provocando deformidades.

Este produto só pode ser usado em pequenas quantidades e para corrigir pequenas assimetrias. Nunca para mudar o corpo. A aplicação precisa ser superficial e nunca profundamente.

Tem mais perigos...
Toda vez que você injeta no organismo qualquer material que não seja próprio para uso médico, um dos maiores riscos é a síndrome da resposta inflamatória, uma infecção local que culmina na necrose de tecidos. Se o problema não for tratado rapidamente, com a retirada cirúrgica das partes mortas, ele pode evoluir para infecção secundária, levando à falência múltipla de órgãos e sistemas. E isso tem chance de ocorrer em apenas algumas horas da aplicação.

Há ainda o risco da embolia, quando a substância cai na corrente sanguínea e para no pulmão, podendo levar à morte por insuficiência respiratória ou obstruir algum vaso e originar um enfarte.

Você quer um corpo supermusculoso?
Então, o primeiro passo é fazer isso da forma mais saudável possível: com alimentação regrada e orientada pelo seu nutricionista, além, é claro, de um treino elaborado por um educador físico. Obviamente que isso leva bem mais tempo, usar hidrogel para turbinar os músculos deve ser feito em último caso e por um médico respeitado. Vale lembra que existem, sim, procedimentos para preenchimento corporal seguros e que o resultado é satisfatório, desde que realizado em ambiente adequado e por médicos habilitados. Quando o assunto é saúde, é preciso seriedade. Respeite sua vida.

Um grande abraço e até o próximo domingo,

Daniela Hueb
Médica, CRM-SP 96.027

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