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Entrevista da semana: José Misael Ferreira do Vale

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Douglas Reis

'Sinto-me bastante tranquilo com tudo o que fiz’, diz José Misael

Bacharel e licenciado em filosofia pela  Universidade de São Paulo (USP), mestre em educação também pela USP e doutor em filosofia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o entrevistado de hoje é um nome muito conhecido e respeitado no meio acadêmico: José Misael Ferreira do Vale.

Professor por vocação e amor ao ensino, ele nunca se contentou com as salas de aula e fez da luta pela melhoria no ensino a sua bandeira. Lecionou para os mais diversos grupos, desde crianças em início de alfabetização até adultos da pós-graduação. Na Universidade Estadual Paulista (Unesp) criou ao menos quatro cursos: pedagogia e química, em Bauru, pós em educação, em Marília, e pós em ensino de ciências, também na unidade bauruense.

O professor também fala sobre uma paixão que nutre desde a infância: máquinas a vapor. Ele é casado desde 1967 com Cleusa Bianospino Ferreira do Vale, com quem tem três filhos e uma neta: “Muito do que eu consegui fazer eu devo à minha mulher, que junto comigo, enfrentou barras pesadas, inclusive em Bauru, mas ela não se abateu”, agradece. Leia mais, a seguir. 

Jornal da Cidade - Quando o professor José Misael fez de Bauru o seu lar?

José Misael Ferreira do Vale - Eu morava em São Paulo e minha esposa, que é de Duartina, não se dava bem na capital do Estado. Então, como em 1964 eu havia comprado um terreno em Bauru, na rua Eduardo Vergueiro de Lorena, decidimos viver nesta que é uma cidade de um bom porte e perto de Duartina. A partir de 1974, começamos a construir com muita dificuldade. Na época, a região era só pasto. Havia uma ou duas casas apenas. Vi esse lado da cidade crescer. E nos mudamos em 1976.

JC - Naquela época, o senhor era professor de escola estadual?

José Misael - Era diretor de escola. Consegui escolher a cidade de Avaí. Mas, um diretor da faculdade da Unesp de São José do Rio Preto me convidou para dar aulas lá, onde fiquei um bom tempo, até me mudar para Marília, porque os cursos de pedagogia foram fechados em São José do Rio Preto. Foi em Marília que eu me aposentei. Porém, os colegas de Bauru disseram que eu não ficaria sem dar aulas e me convidaram para fazer parte da Unesp de Bauru, que estava sendo implantada.

JC - Aqui o senhor ‘fez história’...

José Misael - Vim para a Unesp de Bauru para lecionar as pedagógicas da licenciatura, como filosofia da educação. Quando fui eleito diretor da faculdade, criei dois cursos: pedagogia e química. Tínhamos um departamento de educação e um de química, mas não tínhamos os cursos representantes. E lutei muito no conselho universitário, em São Paulo, até conseguir a aprovação dos dois cursos. Eu ajudei a criar dois cursos de pós-graduação: a pós em educação da Unesp de Marília e a pós em ensino de ciências da unidade bauruense. Eu dei aulas até 2005. Precisei me aposentar por causa de uma doença grave. Eu não queria parar, mas precisei, um ano antes de completar 50 anos de magistério. 

JC  - Quais foram os seus grandes desafios na educação?

José Misael - A educação é trabalhosa. Não é uma tarefa simples. Passei por dificuldades de acomodação, por sempre estar em cidades novas e longe da família. Mas não é só isso. Você também tem que se acomodar à clientela, às diferenças de alunos de um lugar para outro. É preciso estar a par dos conteúdos que você vai trabalhar e encontrar os melhores métodos para obter resultados. E, muitas vezes, você necessita encontrar um método próprio. É uma questão de pesquisar até encontrar um modo, uma maneira que agrade a você e se adeque aos alunos.  

JC  - E o senhor encontrou o seu próprio método?

José Misael - Sim, de alfabetização. Precisei alfabetizar muitos alunos e tenho o meu próprio método. Eu tive o privilégio de dar aulas para crianças em processo de alfabetização até os adultos da pós-graduação. Alunos das mais diferentes idades.

JC  - E acompanhou as mudanças no ensino...

José Misael - Sim. Hoje eu me sentiria um pouco deslocado, porque a mudança foi muito grande. O alunado atual é bem diferente. Parece-me que a preocupação com a cultura letrada está ficando de lado. Só uma camada específica está cuidando dos conteúdos. A educação está em uma encruzilhada e é difícil encontrar receita certa. É só fazendo para encontrar as rotas. Porém, a formação do professor é muito importante. É básico.

JC - Suas lutas pela educação também tiveram Bauru como palco, certo?

José Misael - Em 1985, fui convidado para fazer parte de um grupo que iria repensar a educação de jovens e adultos na cidade. Sempre combatemos a visão campanhista do  Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral). Acho, até hoje, que a prefeitura deve montar um projeto estável para a educação de adultos. Algo constante e não campanhista. Lutei muito por isso e conseguimos que, na estrutura da Secretaria Municipal de Bauru, tivesse um programa voltado para a educação de adultos, o que eu considero uma contribuição notável. 

JC - O senhor foi homenageado por ter abraçado a educação?

José Misael - Recebi uma homenagem linda, que eu não esperava. Em 1999, recebi o título de Cidadão Bauruense. Um momento muito importante na minha vida. Na ocasião, as crianças do  Núcleo de Ensino Renovado (NER) da Secretaria Municipal de Educação, que eu ajudava, no Núcleo Geisel, fizeram uma homenagem a mim. Fiquei muito emocionado. Em 2001, por ocasião do Jubileu de Prata da Unesp de Bauru, recebi um título de Honra ao Mérito concedido pela reitoria da instituição. O Centro Integrado de Alerta de Desastres Naturais (Ciaden) criado na Escola Técnica Estadual (Etec) de Cabrália Paulista recebeu o meu nome, em homenagem aos anos que dediquei à luta pelo desenvolvimento científico e tecnológico da escola.

JC - O senhor nunca se contentou em ficar nas salas de aula...

José Misael - Eu sempre gostei de lutar por melhorias na educação. Sinto-me bastante tranquilo com tudo o que fiz.  Desenvolvi alguns trabalhos sozinho ou com alunos dos quais eu me orgulho. Estive no meio da floresta amazônica, em Manicoré, durante um mês, por exemplo, desenvolvendo um trabalho com os professores municipais da região, como um curso de reciclagem. Fui com professores e alunos. Entre outros trabalhos, criei um projeto para o Estado de São Paulo sobre TV na Escola e os Desafios de Hoje, na década de 1990, que mobilizou muitos professores.

JC - Como o senhor define a educação?

José Misael - É uma prática social que ocorre em toda e qualquer sociedade organizada. A educação visa, na verdade, preparar as gerações imaturas para viver dentro dessa sociedade. Então, ela (educação) é um elo que se faz entre as gerações: a madura e adulta tentando orientar as novas gerações. A educação permeia esse encontro de gerações. E, nesse contexto, há choques e atividades das mais variadas. A educação transmite a cultura letrada e os valores das gerações passadas, o que é essencial.  

JC - Sobre hobby, as máquinas a vapor despertam os seus sonhos de menino?

José Misael - Quando criança, eu ia à  casa da minha avó, em Jumirim, que ficava junto da estação da Estrada de Ferro Sorocabana. E o meu prazer era ver as máquinas a vapor. Elas me entusiasmavam, poxa vida, eram enormes. Algumas com cinco metros de altura e, eu, um pequenino. Era uma coisa impressionante e acontecia com todas as máquinas. Eu guardava os nomes e os números delas. E isso ficou gravado na minha mente. A máquina a vapor é um espetáculo, diferente da elétrica que é fria, muito comportada. Lembro-me das viagens de trem, das fagulhas que saíam das máquinas. Lembro-me das janelas da Sorocabana. Mas não sou um saudosista, não. É uma paixão que me acompanha ainda hoje, com a internet. Gosto de ficar pesquisando. Encontro fãs da máquina a vapor no mundo todo.  

Perfil

Nome: José Misael Ferreira do Vale

Idade: 76 anos

Local de Nascimento: Tietê/SP

Signo: Aquário

Espoas: Cleusa Bianospino Ferreira do Vale

Filhos: Éverton, Eliara e Élid Bianospino Ferreira do Vale

Hobby: Conhecer, pela internet, locomotivas a vapor de diferentes países

Livro de cabeceira: Há vários sempre lidos e relidos, no todo ou em partes: “Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel Cervantes; “O Alienista” e outros contos de Machado de Assis; “O Capital” e a “Ideologia Alemã”, ambos de K. Marx; “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos; “Genealogia da Moral”, de Nietzsche, e contos de Máximo Gorki e Gogol

Filme preferido: “O caso dos irmãos Naves”, “O salário do medo”, “Como era verde o meu vale” e “Rififi”

Time: Noroeste e São Paulo

Estilo musical predileto: MPB e música erudita

Para quem dá nota 10: Para o povo brasileiro que sobrevive às provações de toda espécie

Para quem dá nota 0: Para os ladrões do dinheiro público no Brasil e no mundo

E-mail: jmisaelvale@yahoo.com.br 

 


 

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