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De que vale a verdade?

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Em todos os lugares, quando meus interlocutores descobrem minha condição de "jornalista" mudam o tema da conversa para "corrupção". Não falta quem defenda a volta da ditadura militar como único meio de acabar com essa onda de assaltos aos cofres públicos. Tento explicar que a indignação é justificada. É muito dinheiro. Somente o que foi desviado da Petrobras para os bolsos de agentes mediadores e de partidos políticos é maior que o PIB - a soma das riquezas produzidas em um ano em bens e serviços - de 55 países, dos cerca de 200 representados na Organização das Nações Unidas. É tanto dinheiro que ninguém conseguiria gastá-lo e, por isso mesmo, os acusados o devolvem em troca de uma pena mais leve.

Defendiam os romanos que o melhor regime seria aquele que pudesse ser liderado por um "ditador esclarecido". Alguém sábio, justo, honesto e com todas as suas horas dedicadas aos negócios de Estado e em benefício do coletivo. Os italianos pensaram ter encontrado esse estadista nos anos 1920, na figura de Benito Mussolini, em torno de quem foi construída uma ditadura apoiada no fascismo, como doutrina. O Duce levou a Itália à guerra e à ruína. Morreu fuzilado e teve o corpo pendurado na cobertura de um posto de gasolina, junto ao da amante Clara Petacci. O problema da ditadura não são os generais, mas o inspetor do quarteirão que se reveste de autoridade e começa a perseguir os seus credores; depois, denuncia como "subversiva" a vizinha que resistiu às suas cantadas e aquele outro que torce pelo time adversário. O Estado de Direito democrático pode ser uma porta aberta à corrupção, pela dificuldade em elencar provas provadas contra os corruptos e corruptores. A demora na aplicação da justiça leva à prescrição e à impunidade. Mas não é uma solução acabar com a democracia.

Sequer imagino qual seria a receita para passar o país a limpo. O exemplo dado pelo Supremo Tribunal Federal, mandando trancafiar importantes figuras envolvidas com a corrupção, não foi suficiente para conter a ganância e muito menos a ousadia na disputa pelo butim. As leis do país garantem o cumprimento da maior parte da pena no conforto do lar. Com o indulto de Natal, todos terão direito ao peru e ao bimbalhar dos sinos. A democracia autoriza ao mandatário do múnus público que demonstre certas bondades para afastar o mito do Estado vingador. O país precisa acreditar na recuperação dos seus cidadãos com desvios de conduta.

Nesta semana, mais uma vez o Estado-bondade se revela na entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade. O documento faz um inventário de desmandos cometidos de forma sistemática por agentes do estado, durante os 21 anos da ditadura militar. Disse a presidente Dilma Rousseff que "a verdade não significa a busca da revanche", numa clara alusão a algumas interpretações, segundo as quais o levantamento poderia estar contaminado de ressentimentos. Emocionou-se a presidente, ela mesma torturada e encarcerada durante a ditadura por defender a luta armada contra um regime imposto. Mas a própria chefe de Estado parece conformada com a única missão que restou à Comissão da Verdade: esclarecer questões ainda nebulosas de um período de exceção, para que o país nunca mais corra o risco de repeti-lo. Às novas gerações o trabalho subsidiaria com dados que as levem a exata compreensão dos danos provocados pela subtração da democracia. Incluem-se nesse caso os comprovados episódios de tortura, assassinato e ocultação de cadáver. A persecução criminal já não faz o menor sentido diante da lei de anistia confirmada pelo STF e que serve para proteger ambos os lados, o da guerrilha urbana e o da repressão.

Em Bauru também tivemos a nossa Comissão da Verdade. A cidade viveu momentos de tensão, principalmente no início do movimento chamado equivocadamente de "revolução". Ocorreram muitas prisões entre os "suspeitos de sempre", pessoas conhecidamente engajadas em partidos de esquerda. Alguns perderam o emprego ou foram aposentados compulsoriamente. Jovens acadêmicos também foram presos e passaram por constrangimentos, apenas por liderarem movimentos contra a miséria e as injustiças sociais. Eu mesmo fiz um depoimento diante dessa Comissão bauruense, constituída de pessoas sérias e capazes. Mas, não tenho notícias se o relatório será divulgado aqui, ou serviu para engrossar o inventário nacional, de quase 4 mil páginas.

"Tortura nunca mais", diz a frase no muro. Para a lei, torturadores não são monstros. Têm esposas, filhos e amigos. Vivem como pessoas normais. Talvez aí resida o verdadeiramente trágico da história recente do país.

O autor é jornalista e articulista do JC

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