Ele começou a pontear no violão de um vizinho, aguçou os ouvidos em notas do cavaquinho do pai, mas foi do ponteio chorado da primeira viola, quando ainda garoto, que encontrou sua vocação. Em nome da tradição cultural da música raiz, caipira, e da defesa do virtuosismo do pagode de viola, Wilson Leôncio de Melo não tem nenhum receio de posicionar que o “sertanejo universitário não existe”.
Conhecido no batismo profissional como João Mulato, o mineiro de Passos (MG), morador em Bauru, fala de sua trajetória, da importância do primeiro parceiro em sua carreira, Domingos Miguel dos Santos, o Bambico, e da escrita de ser o primeiro violeiro canhoto que se tem notícia no País a inverter a sequência das cordas para pontear.
Depois de se firmar como dupla caipira, na patente de “João Mulato e Douradinho”, o cantador de timbre grave e amplitude vocal se mantém firme no eco da música raiz, colecionando uns nove parceiros que vêm se revezando na função de Douradinho.
Apesar das dificuldades no início de toda carreira, das peregrinações no Largo Paissandu, em São Paulo, nos anos 70, endereço que reunia a “nata” das duplas caipiras na época, das cantorias no gogó, na goela pura, em Bauru no Circo Anaí do xará Wilson Nogueira, Mulato não reclama. Ao contrário, agradece o dom do ponteio e da formação de versos quase sempre rimados para falar do homem e do amor na pele do caipira. Ele lamenta, porém, a autoria não registrada dos versos que menciona ter feito para o sucesso “O reino encantado”.
Na década de 80, com o mestre do pagode, Tião Carreiro, doente, João Mulato foi convidado por ele para fazer shows com Pardinho. A dupla acabou ficando “João Mulato e Pardinho” até 1997, quando Pardinho decidiu parar de cantar. Mulato chegou a cantar em dupla com Paraíso, mas foi reformatando a dupla na marca “João Mulato e Douradinho”.
Em entrevista sobre sua carreira e para falar do 27º álbum, o CD “Nos pés da mulher que amo”, João Mulato distribuiu simplicidade e autenticidade que não cabem na enorme aba de seu chapelão preto.
Jornal da Cidade - Qual sua memória do momento mais significativo dos primeiros contatos com a música caipira?
João Mulato - Em minha memória só tenho coisas boas, principalmente por ser um violeiro que desde o início defende essa cultura da música raiz, que trago no sangue. A memória é do som do ponteio da viola, do pagode de viola e das letras que falam do homem que veio do campo, da relação com a terra e dos amores vividos. O que me encanta mais é que a música caipira traz com simplicidade muita verdade em suas letras. Eu vivi isso, no campo, e isso pra mim é genuíno. Não sou um violeiro que nasceu na cidade, nasci no campo e ajudei muito meus avós, meus pais, a desbravar matos para fazer nossa plantação. Isso tudo dá identidade e aparece nas letras das músicas. “Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho”, como diz a canção (risos). Até os 20 anos eu trabalhei na roça.
JC - Quem tocava em sua casa, ao seu redor?
Mulato - Meu pai sempre tocou cavaquinho, seu forte, e violão. Papai tocava sambas antigos e também no violão tocava as músicas sertanejas de autores como Raul Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco. Papai foi a fonte de inspiração em casa, tanto pela música quanto pelo caráter. Meu pai me ensinou tudo. E depois veio meu irmão mais velho. Ele comprou um violão e um vizinho foi passando para ele alguma coisa. Mas ele tinha ciúme do violão e não deixava eu pegar. Mas eu ficava do lado, sempre vendo o que eles faziam e guardando dentro de mim. Persisti bastante e fui aprendendo sozinho. Primeiro no violão, depois no cavaquinho do meu pai. Mas no dia em que eu escutei o som de uma viola, aquela essência do ponteio perto de mim, eu me encantei. Tinha um senhor que tocava em folia de reis e aquilo me entrou na cabeça e não saiu mais. Fiquei imaginando o som daquela viola. Até que um amigo do meu pai, que também mexia com folia de reis, mas em outra fazenda, me emprestou uma viola e eu fui tocando.
JC - Mas como você se virou como canhoto?
Mulato - Então, ele tinha várias violas da folia de reis e disse que eu podia ficar o tempo que precisasse pra aprender. Eu então percebi que estava com dificuldade de um lado, por ser canhoto. Então resolvi inverter as cordas de lado. Não me adaptei pelo lado direito. Virei as cordas do meu lado e sou, por isso, o primeiro violeiro canhoto do Brasil a virar as cordas de posição para tocar. Me sinto honrado por isso. Hoje eu fico pensando que isso tudo só foi por Deus, para me dar esse dom.
JC - Você fez o caminho dos músicos que sonhavam em tocar no rádio, na peregrinação no Largo Paissandu?
Mulato - Todos os cantadores, as duplas, que tinham o sonho de tocar no rádio tinham que ir pra São Paulo. Eu fui em 1968 a primeira vez para conhecer. Depois fui em 1970, mas só em 1974 é que consegui ser ouvido mesmo. Os violeiros iam todos para o Largo Paissandu, iam na Rádio Nacional, hoje Rádio Globo, para tentar um espaço. E eu fiz isso. Quem me deu a oportunidade mais importante foi o Bambico (Domingos Miguel dos Santos), a quem eu devo as orientações e aprendizado. Em Bauru eu cantei muito no Circo Anaí, do Wilson Nogueira. Eu tinha só 18 anos e não sabia nada. Tive de trabalhar como servente de pedreiro para comer alguma coisa e pagar a pensão, depois trabalhei também como faxineiro em firma. E eu ia lá para ver os artistas, dar uma sapeada no Largo Paissandu, todo início de semana. Com 20 anos de idade eu fui em definitivo para São Paulo. Foi difícil, mas eu persisti. Ralei muito para sobreviver, mas sempre achei que este era meu destino. Foi nessa época que saiu o verso: “Moro num rancho sozinho, só com uma companhia. Companhia só de meu Deus, me protege e é meu guia. Levanto de madrugada, assim que meu galo canta. Preparo meu almoço e já deixo pronto a janta”. Falei desse cara que mora sozinho. Mas eu estava na Capital e falei de minha vida lá, pensando em uma situação do campo, de onde tinha saudade. Eu sou assim, com a cabeça no campo. E vou morrer assim.
JC - Suas letras falam do homem simples e de forma simples. Você já perdeu alguma melodia por não ter gravado, tem letra sem gravar?
Mulato - Letra eu nunca perdi. Sempre guardei com cuidado. Mas melodia já perdi algumas. A melodia vem no meio da noite, às vezes vem do nada. Mas se não gravar na hora, esquece, some, voa. E a gente sempre acha que é a melhor melodia que foi embora. Nunca perdi letra, apenas lamento a música “Meu reino encantado”, que eu peguei um poema que era lido pelo Waldemar Reis. Eu peguei aquilo e escrevi os versos em cima da melodia. Mas um cabra lá tirou meu nome da autoria. Eu não fui atrás, então agora não adianta. A primeira gravação foi minha.
JC - Você é crítico dos subgêneros ou dos modismos que se penduram na música raiz no circuito comercial?
Mulato - A música sertaneja é uma só, ela tem raiz, formato, melodia e versos próprios, história própria. Esse sertanejo universitário que inventam por aí é questão só comercial. Não existe isso. A música sertaneja é uma só, a de raiz. Você pode envelopar o trem do jeito que você quiser, mas não tem gênero novo. É só moda comercial. Eu defendo isso e me criticam.
JC - Você formou dupla com vários Douradinhos?
Mulato - Sim, vários. A dupla que mais me ensinou foi com o Bambico, um violeiro muito bom. Eu cantei com o Pardinho sete anos, quando o Tião Carreiro ficou doente. E eu tenho a patente da dupla “João Mulato e Douradinho” e continuo cantando com o nome que já está formado e difundindo a música caipira. Ao todo eu já gravei, entre LPs e CDs, 27. Este agora é o lançamento, “Nos pés da mulher que ama”, com repertório escolhido a dedo e eu boto muita fé nesse repertório. Quem se envereda para esse campo, se tem uma marca cantando, não tem que inventar. Tem de preservar a marca e criar bons arranjos. Se ficar inventando moda, dança (risos).