Tradicionalmente, nesta altura do ano e na impossibilidade de fazê-lo ao vivo, afixamos na parte externa do portão da garagem de nossa residência uma faixa de 3m de comprimento, escrita por profissional com símbolos alusivos, almejando votos de Feliz Natal e de Boas Festas a todos que a leem. Podemos afirmar que tal procedimento tornou-se uma rotina anual, esperada e cobrada quando atrasamos em sua colocação. O texto redigido e escrito com carinho e amor na faixa deste ano foi o seguinte: "Nossa família deseja aos queridos vizinhos, amigos e a todos que passam por esta rua um Feliz Natal e um ótimo 2015". Faixa idêntica presa no ano anterior foi queimada, mas tiveram a dignidade por deixarem algumas tiras enquanto que a deste ano foi arrancada totalmente, altas horas da madrugada, com gritos femininos e masculinos de vitória com exclamações de "feliz natal e boas festas". Da até então admirada faixa só restaram os arames que a prendiam ao portão.
Tenho certeza de duas realidades: a primeira de que os autores desta proeza, façanha, muito mais importante do que a realização de uma obra social e fraterna não lerão esta matéria porque não têm o hábito da leitura e se leem, não sabem o que estão lendo. Segundo, de que a faixa levada com a mensagem natalina deve estar em algum depósito de qualquer casa, junto com produtos de vandalismo como placas de trânsito, carrinhos de supermercado e outros mais que, certamente são exibidos orgulhosamente como coleção do alheio. Ressalte-se, tudo fruto de muita criatividade, por que não dizer, de genialidade. Enfim, algum leitor poderá entender este fato como uma inofensiva brincadeira, arroubos de mocidade, da geração "Y". Realmente esta ocorrência de custo material zero isoladamente nada significa. No entanto, se somada ou juntada a outras como as pichações que emporcalham a cidade e violentam a propriedade particular, às de trânsito, o desrespeito ao sossego público de dia e à noite, às bebedeiras turbinadas com drogas como vêm acontecendo na Praça dos Professores, às sextas feiras na Praça Rui Barbosa e nos rolezinhos nas imediações dos shoppings, constantes, incontroláveis e incontáveis constituem uma realidade muito preocupante. Preocupante e temerosa em relação ao futuro de nossos filhos e descendentes, pois é esta geração que vai assumir os destinos deste nosso país e que integrará os cidadãos do mundo, tão cheio de violência. Algumas colocações poderão ser feitas: estará preparada quanto à capacidade e à responsabilidade neste tempo de banalizações? Em que tudo é normal? É possível mudar ou assumamos o conformismo de que é próprio da modernidade? Se assumirmos o conformismo estaremos dando um tiro no pé porque os nossos filhos, netos e bisnetos serão as futuras vítimas. Ao contrário, se entendermos de que não pode continuar e que é necessário alteração do quadro social, a quem cabe? Aos pais, aos professores, à escola, aos chefes, aos empresários, aos políticos, aos religiosos, à mídia, à polícia? Em minha modesta visão de educador: a todos nós. O que não pode acontecer é o de sermos insensíveis espectadores, pois o presente e o futuro são agora.
O autor é professor membro efetivo da ABLetras