Geral

Saúde pública atende só 41,5% da meta para Papanicolau em Bauru

Tisa Moraes e Marcus Libório
| Tempo de leitura: 5 min

Um exame rápido capaz de detectar câncer de colo de útero de maneira eficiente e precoce ainda encontra resistência entre as mulheres de Bauru. Neste ano, o número de testes de Papanicolau realizados não atingiu nem a metade da meta preconizada pelo Ministério da Saúde na rede pública.

 

Entre janeiro e novembro, 10.661 mulheres da cidade foram submetidas a este tipo de exame pelo Sistema Único de Saúde (SUS), segundo dados do Sistema de Informação do Câncer (Siscan). Se a média se mantiver neste ritmo, a marca de 11.630 testes poderá ser alcançada até o final do ano.

 

O número, no entanto, representa apenas 41,5% do total de 28 mil mulheres que deveriam ser examinadas a cada doze meses. A estimativa foi elaborada com base na quantidade de mulheres que não possuem convênios de saúde e têm entre 15 e 69 anos - faixa etária classificada como sexualmente ativa.

 

“Deste universo (quase 85 mil pessoas), consideramos que, em um ano, um terço deveria passar pelas unidades básicas para fazer o Papanicolau. Isso porque o exame deve ser feito em cada mulher pelo menos uma vez a cada três anos. E, em três anos, atingiríamos 100% do nosso público-alvo”, explica o médico sanitarista Pedro Luiz Pereira, diretor do Departamento de Planejamento da Secretaria Municipal de Saúde.

 

Mas não é isso que acontece. Pereira garante que a rede municipal possui infraestrutura e funcionários suficientes para atender toda a demanda e que a meta só não é alcançada por desinteresse da população feminina. 

 

“As pessoas não têm consciência clara sobre prevenção. Elas precisam ter a ideia de que a saúde também é responsabilidade delas e que os exames preventivos e a iniciativa de se manter saudável precisam partir delas”, sustenta o médico. 

 

Esforço

 

De acordo com a enfermeira Josiane Cristina Balani Villa, todas as mulheres sexualmente ativas deveriam realizar o Papanicolau periodicamente. Mas, além do hábito de só procurar ajuda médica quando sintomas já se manifestaram, para algumas pacientes o teste endovaginal é sinônimo de constrangimento.

 

“Além disso, muitas nem mesmo sabem qual é a importância de fazer o exame, que consegue detectar alterações celulares e, portanto, um eventual câncer em fase inicial”, acrescenta. Segundo Josiane, as unidades básicas não têm conseguido atingir a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde nem mesmo com mutirões realizados aos finais de semana e no período noturno. 

 

Frequentemente, a Unidade de Saúde da Família da Vila Dutra, onde a enfermeira trabalha, também promove campanhas, com sorteio ou distribuição de brindes. Porém, nem assim a adesão chega perto do patamar ideal.

 

“Os agentes comunitários fazem busca ativa, de porta em porta, para divulgar a campanha, que é realizada ao longo de todo o dia”, comenta. Contudo, a mais recente iniciativa, realizada na última semana, mobilizou apenas 22 pacientes, mesmo com o a promessa de sorteio de dez cestas básicas.

 

Uma delas foi uma jovem de 18 anos que preferiu identificar-se apenas como Jéssica. Ela faria o exame pela segunda vez, já que o primeiro, realizado no ano passado, apresentou resultado com alterações.

 

“Achei melhor fazer de novo para verificar se, agora, está tudo certo. Não quero mais correr o risco de ficar doente e não saber”, completa. Além das campanhas e mutirões, a unidade faz a coleta de material para o exame em quatro dias da semana, sendo dois com agendamento e dois sem hora marcada. 

 

Bolsa Família 

 

O médico sanitarista Pedro Luiz Pereira lembra que a realização periódica do teste de Papanicolau é uma das condicionalidades para o recebimento do benefício do Programa Bolsa Família. De acordo com ele, a exigência é de que as mulheres em idade reprodutiva e/ou sexualmente ativas realizem o exame ao menos uma vez a cada três anos.

 

Segundo a enfermeira Josiane Cristina Balani Villa, grande parte das pacientes que mantêm os exames preventivos em ordem estão vinculadas ao programa.

 

Câncer de colo de útero tirou a vida de 9 mulheres este ano em Bauru

 

Segundo estatísticas da Secretaria Municipal de Saúde, nove mulheres já morreram vítimas de câncer de colo de útero neste ano, em Bauru. De evolução lenta, a doença tem como principal agente o papilomavírus humano (HPV) e acomete, principalmente, mulheres acima de 25 anos.

 

Nas fases iniciais, o câncer de colo de útero é “silencioso”, mas quando os sintomas aparecem, os mais importantes são sangramento e corrimento vaginal de cor escura e com mau cheiro. A avaliação ginecológica, a colposcopia (que detecta o HPV) e o exame de Papanicolau realizados periodicamente são recursos essenciais para o diagnóstico precoce.

 

A indicação é que, nas primeiras vezes, sejam realizados três exames anuais consecutivos. Se a paciente não tiver fatores de risco, a frequência pode ser reduzida para cada três anos.

 

Para prevenir a doença, é indispensável o uso de preservativo em todas as relações sexuais para evitar infecções por HPV e vacinação contra o vírus ainda na infância, a partir dos 9 anos de idade.

 

O que é

 

O Papanicolau consiste no exame em microscópio de uma amostra de células que o ginecologista ou enfermeiro, com uso de uma espátula, coleta da região da entrada do útero. O teste consegue diagnosticar o câncer de colo de útero precocemente, ao detectar a presença de células fora do padrão em seus primeiros estágios de desenvolvimento. 

 

O teste de Papanicolau, ou Papanicolaou, recebeu este nome em homenagem a seu descobridor, o cientista de origem grega George Papanicolaou (1883-1962). Em 1023, na Universidade Cornell, nos Estados Unidos, ele estudava as mudanças provocadas pelos hormônios no útero a partir da coleta de secreções do órgão, quando conseguiu descrever células malignas em seus primeiros estágios.

 

A partir de então, descobriu que aquele tipo de análise era capaz de diagnosticar tumores. O estudo foi apresentado durante um encontro médico em 1928, mas só despertou o interesse da classe em 1943. 

Comentários

Comentários