Até recentemente na história da humanidade, o simples motivo para que a população tenha se mantido baixa é que as pessoas morriam tão rapidamente quanto as que nasciam. Por milhares de anos, a maioria delas nem sequer chegava ao primeiro aniversário. Em 1796, o cirurgião britânico Edward Jenner descobriu uma vacina para a varíola e isso deve ter inspirado Louis Pasteur, químico francês do século XIX, a desenvolver outras vacinas e a fazer mais uma contribuição chave para a sobrevivência humana: a pasteurização. Pasteur também convenceu a humanidade de que uma doença não ocorria por meio de geração espontânea, mas era disseminada por germes. Neste mesmo século, o sabão em barra tornou-se comum, pela primeira vez, tanto em lares quanto em hospitais. Antes disso, os pacientes morriam de infecções contraídas pelas mãos não esterilizadas dos cirurgiões, com a mesma frequência que morriam pela doença que eles estavam tentando curar.
Ainda neste período, o químico alemão Justus von Liebig desenvolveu o processo de fabricação do leite em pó e permitiu que bebês sobrevivessem ao desmame precoce. Von Liebig ainda descobriu que o nitrogênio, em conjunto com o fósforo e o potássio, é um dos nutrientes essenciais para as plantas e chegou a garantir os direitos de uma última contribuição à nutrição humana: o cubinho de caldo de carne. Em 1913, a tecnologia agrícola furou o teto da natureza, os alemães Fritz Haber e Carl Bosch, descobriram como tirar o nitrogênio do ar para alimentar as plantas em quantidades muito maiores do que von Liebig jamais imaginou. Além de dependente de combustível fóssil ? o gás natural é a maior fonte de hidrogênio para a amônia ? fabricar fertilizante artificial, para abastecer o mundo de comida, requer muita energia. Antes que o fertilizante nitrogenado se tornasse amplamente disponível, a população do mundo era de cerca de 2 bilhões.
Por tudo isso o número de pessoas no mundo continua aumentando e à medida que aumenta, também é preciso aumentar a economia global para alimenta-las, vesti-las e abriga-las; além disso é preciso servi-las e entretê-las, de tantas formas quantas precisarem ou desejarem e de tantas formas quantas os publicitários conseguirem convencê-las de que há algo novo e empolgante que elas precisam. Portanto, em lugar de um círculo, há uma espiral. Os números crescem em espiral, as cidades aumentam em espiral e assim também é com o consumo de água e comida, com as casas, com os carros, tudo se acumula e se esparrama pelo planeta.
Como muitos leitores não têm ideia de como os números crescem em espiral, para facilitar esse entendimento existe uma fábula contada por Bill Gates, mais ou menos assim: um imperador chinês estava encantado com um novo jogo, inventado por um de seus súditos, o xadrez. Ele chamou o inventor e ordenou: "escolha a sua recompensa, qualquer coisa que desejar". Ao que o inventor respondeu: "tudo o que quero é alimentar minha família". E o imperador, mais do que depressa: "de quanto você precisa?". E o inventor: "só um pouquinho; na verdade Sua Alteza pode medir no tabuleiro do xadrez, colocando um grão de arroz no primeiro quadrado, dois no seguinte e ir dobrando a quantidade em cada um dos quadrados e isso será suficiente".
O imperador negligenciou o fato de que alguém capaz de inventar o xadrez só poderia ser um exímio matemático: ao fim da primeira fileira do tabuleiro, o inventor tinha 128 grãos de arroz ? não chegava a encher a boca. Depois de três fileiras, o total era de 8.388.608 grãos de arroz, o suficiente para esvaziar os armazéns do palácio. Até a metade do tabuleiro de xadrez, ele seria dono de todo o arroz produzido na China e no último quadrado, mais do que o planeta inteiro jamais produziu. Claro que as coisas não chegaram tão longe: muito antes o imperador mandou decapitá-lo.
Em toda história da biologia, todas as espécies que aumentam mais do que sua base de recursos permite, sofrem um colapso. A questão pode não ser apenas precisarmos parar de crescer, mas, para nossa própria sobrevivência, temos que diminuir nossos números. Independentemente de aceitarmos isso ou não, este será o século que determinará qual a população humana ideal para nosso planeta: ou faremos isso ou a natureza fará por nós.
O autor é Professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp -
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