Política

Diálogo EUA-Cuba é festejado em Bauru

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 3 min

Aceituno Jr./Reprodução Arquivo Pessoal

No álbum de família o exílio em Cuba: Dora Augusta, Darcy Rodrigues, Darcysito e Rosalina

Aos 73 anos, o militar da reserva e eterno militante de esquerda não segurou as lágrimas na tarde de quarta-feira (17). Darcy Rodrigues festejou quando Barack Obama e Raúl Castro anunciaram que, pela primeira vez, desde 1962, seriam retomadas as relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba.

 

Foi na pequena ilha do mar do Caribe onde o ex-guerrilheiro se refugiou durante dez anos, após ter sido banido do Brasil pela ditadura militar. Em 15 de junho de 1970, Darcy rumou para a Argélia, mas chegou a Cuba, onde sua família já o esperava, no dia 25 do mesmo mês.

 

“Estou muito emocionado. Esse País sempre mereceu um destino melhor. O povo de lá tem tudo a ver com o brasileiro e com o africano. Agora, voltará a ter iguais oportunidades, com a possibilidade de se desenvolver de verdade. Eu queria estar em Havana. Lá é a extensão da minha pátria”, conta Rodrigues.

 

Ainda não veio a solução para as principais dificuldades, segundo Darcy, enfrentadas pela população na ilha: o bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos.

 

Ontem, Obama destacou que a barreira ideológica entre os dois países não faz mais sentido, em referência ao regime socialista da ilha. O presidente norte-americano ponderou, no entanto, que sua posição dependerá de autorização do Congresso. (Leia mais na página 28)

 

Dentre essas dificuldades, Darcy relata a racionalização do acesso ao consumo pela comunidade, conforme a oferta da produção local de alimentos. “Se não bastassem as complicações naturais por dependermos apenas de nós mesmos, havia pessoas que compravam até arroz e se desfaziam de tudo para criar ainda mais problemas”.

 

O ex-guerrilheiro revela que era ainda mais difícil o acesso a bens como automóveis e eletrodomésticos. “Os governos republicanos dos Estados Unidos chegaram a impedir que uma empresa inglesa vendesse ônibus para Cuba, para que o transporte urbano não prosperasse por lá”.

 

LAÇOS

 

Dois dos filhos de Darcy Rodrigues nasceram em território cubano; um deles quando a revolução no País comemorava 21 anos. Ainda na terra de Fidel Castro, o militante político graduou-se em economia e passou a lecionar na escola secundária básica. Por lá, chegou a receber uma importante honraria pelos serviços prestados no ensino.

 

“Se não fosse esse bloqueio, Cuba teria tudo para dar mais certo. Temos a melhor educação e a melhor saúde do mundo”, diz Darcy.

 

MITOS

 

Simpático aos ideais de esquerda, o ex-guerrilheiro rebate os argumentos de que Raúl Castro perpetua uma ditadura na ilha caribenha. “Essa é uma grande mentira que contam. Por lá, tudo se discute em qualquer canto, desde as esquinas até o âmbito sindical”.

 

Pelo contrário, Darcy Rodrigues garante que Cuba é para si um exemplo de democracia. “A Constituição do País foi aprovada por 96% da população”, diz o militante.

 

Ele defende ainda a implantação do programa Mais Médicos no Brasil, que trouxe profissionais cubanos para atender nas regiões mais distantes e mais periféricas do País, inclusive em Bauru. “Essa política, aliás, não é novidade. O próprio [ex-ministro de Saúde] José Serra (PSDB) fez convênios desse tipo com os cubanos”.

 

Lá na Guerra Fria

 

Reuters                                 

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) já tinha condenado o embargo por 23 vezes

O embargo econômico norte-americano a Cuba existe, de fato, desde 1962. No entanto, as primeiras medidas de sanções foram tomadas em 1960, um ano após a revolução no País liderada por Fidel Castro. 

 

O rompimento entre os dois países tem origem na Guerra Fria. Cuba aderiu ao comunismo da União Soviética, enquanto os Estados Unidos encabeçavam a expansão dos ideais e da política capitalista.

 

O embargo impede a maioria das trocas comerciais. Em leis de 1992 e 1996, ficou proibido o envio de alimentos ao país caribenho (exceto em casos de ajuda humanitária) e prevê punição judicial a empresas nacionais e estrangeiras que tenham relações financeiras com a ilha.

 

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) já condenou o embargo por 23 vezes. Cerca de 188 países já se manifestaram pelo fim do embargo. Contudo, Estados Unidos e Israel sempre votam contra as resoluções, impedindo-as de se efetivarem. 

 

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