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Boa escolha para posto delicado

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Na década de 70, antes da Lei do Divórcio, as pessoas casadas e as pessoas que continuavam casadas mesmo separadas não poderiam contrair novo casamento. O desquite, atualmente separação, não dissolvia o vínculo conjugal, só passível de dissolução em caso de morte. A lei era implacável e milhares de casais que viviam familiarmente não desfrutavam de qualquer proteção legal. Ainda que felizes, ajustados e úteis às suas comunidades viviam, amavam e procriavam à margem da lei, sem proteção legal num tempo de preconceitos. Era terrível, mas era assim e não havia estratagema que corrigisse essa situação injusta atingindo pessoas decentes e honradas, impedidas de reconstruir a vida conjugal.

Naquela época, em escândalo que não veio a público, num distrito desta nossa surpreendente Bauru, um Cartório de Registro Civil ali existente, com escrivão e curador de casamentos regularmente nomeados, celebrava muito mais casamentos do que os outros dois cartórios da sede desta comarca. Ali, de quando em vez, sempre aos sábados, um ou dois ônibus fretados, vindo de desconhecidos pontos do território brasileiro, traziam casais que naquele cartório celebravam casamento, qualquer que fosse a situação civil e dali saiam de papel passado e vida consertada, felizes e documentados para superar preconceitos comunitários, apesar da lei. Até que um dia deu azar, celebrou-se casamento de parente casado de certa autoridade e aquela casa que trazia felicidade para tantos casais marginalizados caiu. Em silêncio e sem escândalos.

Numa bagunça de papelórios esparramavam-se centenas de casamentos ideológica e materialmente falsos, celebrados contra a lei entre pessoas com nomes e dados pessoais certos e endereços não esclarecidos, frustrados, então, esforços para punir transgressores da lei e invalidar, uma a uma, as falsas certidões de casamento, exibidas e utilizadas por expressivo número de pessoas que, com elas aparentavam situação formal e documentada de aparente regularidade, apesar da proibição da lei. Nada havia por fazer a não ser debelar as estripulias cartorárias.

Ainda muito jovem, quase imberbe, o então escrivão do Cartório de Avaí, Antonio Faria Neto foi colocado no olho daquele furacão, acumulou o Cartório transgressor, andou bom tempo com escolta e foi valioso e essencial na solução do problema. Mais a frente, segundo lenda, convenceu os Terenas a votar vestidos com roupas que tivessem bolso onde pudessem levar as cédulas então usadas nas eleições e que foram importantes para elegê-lo prefeito municipal de Avaí. Foi bom prefeito. Sem se afastar da origem cursou direito na ITE, destacando-se, inclusive, pela perfeição imitativa com que ensinava a teoria da lide do clássico Francesco Carnelutti. Aqui enturmou-se, casou apadrinhado por Orestes Quércia e Roberto Purini e, como vereador, em condições adversas aventurou-se como candidato a prefeito de Bauru, amargando derrota que não o abateu. Antes reforçou-lhe experiência de vida, marcada pela capacidade de diálogo, palavra empenhada, responsabilidade assumida e impecável lealdade. Num mau momento de seu padrinho governador enveredou-se pelo Palácio dos Bandeirantes para prestar solidariedade e ali porque pediu café com adoçante foi indagado se era diabético e respondeu com cativante galhofa, "não, sou Prefeito de Avaí". Nesta Bauru consolidou seus valores de vida, inclusive parlamentar, e a Câmara de Bauru foi prudente e decisiva na escolha de seu nome para presidí-la. Experiente, firme, leal e respeitador de compromissos, a vida o qualificou para enfrentar esse novo desafio, para ventura de nossa gente.


O autor é advogado e articulista do JC

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