Tribuna do Leitor

Comissão da quase verdade e Bauru


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Acomissão da verdade, principalmente em sua última fase coordenada pelo ex-petista Pedro Dallari, se notabilizou por procurar uma verdade unilateral, ou seja, investigaram apenas as denúncias de tortura e crimes, provocados pelas forças armadas e organizações paramilitares ligadas à ditadura.
Embora monstruoso, o número de 432 vítimas encontrado não se compara com as milhares de vítimas em países menores como Argentina, Uruguai e principalmente Chile. Outra coisa a ser considerada era que a violência atingiu não apenas guerrilheiros armados que morreram atirando, mas pessoas pacíficas, como Wlademir Herzog, porque simplesmente tinham outra visão política.
Mas a grande falha, em nosso entender, deste trabalho, foi que em um dado momento e principalmente na coordenação final de Dallari a comissão quis mudar seu rumo da verdade para a vingança tentando, entre outras coisas, anular a lei da anistia e mais: de forma unilateral, apenas com os crimes cometidos pelos militares e não pelos crimes comuns cometidos pelos esquerdistas.
E ainda não se preocuparam com outras 119 vítimas inocentes de responsabilidade das organizações de esquerda; guardas civis, vigias, soldados, motoristas de táxi como o vitimado pelo tiro do bauruense Darcy Rodrigues, bancários e até moços idealistas como o bauruense Márcio Leite de Toledo "justiçado" por ter supostamente opiniões divergentes de seus líderes.
O número 119 comparado com os 434 do outro lado é pequeno, mas tem de se considerar qualitativamente, pois estas vítimas eram tão ou mais inocentes que Herzog, apenas faziam seu trabalho sem defender nenhuma facção política e sempre na defesa de pessoas ou patrimônio, sendo surpreendidas por ataques. Além disto estas vítimas foram totalmente esquecidas, suas famílias não foram indenizadas e nem sobre elas se escrevem livros ou filmes como acontece com seus algozes.
A tortura é hedionda e principalmente a que é proveniente do estado. No entanto o terrorismo, seja por que motivo for, também é. A lição que deve ficar pra história é de que nunca "os fins justificam os meios" e que a violência do terrorismo levou ao endurecimento do regime e que o endurecimento do regime levou a mais terrorismo e que as duas partes lutavam pela ditadura, seja de esquerda, seja de direita. Nenhuma delas tinham heróis como hoje querem nos fazer crer e sim pessoas cruéis a ponto de nada sentir ao torturar ou matar quem atrapalhava seus objetivos.
A sociedade brasileira ficaria melhor se ao invés de Médices e Costa e Silva ou Marighelas e Lamarcas tivéssemos mais Tancredos e Ulisses, que lutaram de maneira democrática e foram em última análise os responsáveis pela derrota da ditadura e a redemocratização no Brasil.

Márcio M. Carvalho

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