Polícia

Casal assassina taxista por R$ 43,00; velório é marcado por revolta

Marcele Tonelli com Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: João Rosan

Jhonatan Felip dos Santos, 18 anos, confessou o assassinato

Na semana de Natal, Bauru registra um crime cruel e revoltante: “o assassinato de um pai de família”, conforme a própria população gritava. Um taxista de 76 anos foi vítima de latrocínio – roubo seguido de morte –, na tarde de ontem.

Celso Alves atuava em um ponto na praça Rui Barbosa quando foi abordado por um casal, um rapaz de 18 anos e uma adolescente de 16, grávida de dois meses, que solicitou uma corrida até o Mary Dota.

Lá, eles anunciaram o assalto e obrigaram o taxista a dirigir até um local ermo na rua Amadeu Cavalieri – via que dá acesso à lagoa do Quinta da Bela Olinda -, onde a vítima foi esfaqueada e teve R$ 43,00 roubados.

Após o crime, Jhonatan Felip dos Santos e a menor fugiram em direção a mata entre o Mary Dota e o Conjunto Habitacional Isaura Pitta Garms, mas foram vistos por uma testemunha e acabaram presos pela Polícia Militar (PM), cerca de uma hora depois.

Jhonatan confessou ter esfaqueado a vítima, alegando ter arquitetado o roubo para pagar aluguel da casa em que morava com a companheira, que também foi apreendida, no Ouro Verde.  O crime chocou a cidade e a categoria (leia mais abaixo).

O táxi que a vítima dirigia ficou com as marcas do latrocínio

O crime

O assalto ocorreu por volta das 14h40. A testemunha, um pedreiro de 33 anos, contou que chegou a ouvir uma discussão no carro, um Toyota Etios, enquanto passava pela rua Amadeu Cavalieri.

“Nos encontramos na rotatória. Eu segui atrás deles e percebi uma discussão. O carro acabou parando no acostamento e eu ultrapassei, mas estacionei logo à frente. Depois, vi um casal correndo para o mato e o senhor saiu de dentro do carro gritando, pedindo ajuda e sangrando”, narra o pedreiro.

A PM chegou ao local e acompanhou o socorro do taxista, que foi levado pelo Corpo de Bombeiros ao PS Central. A vítima, contudo, não resistiu e morreu logo após dar entrada no hospital.

Resposta rápida

Reprodução/Facebook

O taxista Celso Alves tinha 76 anos

Cerca de uma hora após o crime, o casal foi abordado pela PM na rua Alberto Paulovich, entre os bairros Mary Dota e Isaura Pitta Garms.

“Eles fugiram pelo mato e se esconderam em um rio. Depois que o helicóptero Águia foi embora, eles saíram, trocaram as roupas um com o outro e seguiram caminhando pela rua”, afirma o capitão Paulo César Valentin, coordenador Operacional interino do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I).

Aos policiais, Jhonatan alegou ter golpeado a vítima após ela reagir. “O autor disse que teria uma dívida de R$ 1,4 mil de aluguel e que isso teria motivado”, detalha o capitão.

Após a abordagem, ambos foram levados de volta ao local do crime. Lá, Jhonatan indicou aos policiais onde havia jogado a faca utilizada, a cerca de 300 metros do carro da vítima.

Neste momento, um aglomerado de pessoas se formou no local. O acusado foi colocado na viatura sob os gritos de “assassino de pai de família”.

O casal foi encaminhado para a CPJ, onde o caso foi registrado como latrocínio pelo delegado Roberto Cabral Medeiros. O rapaz de 18 anos foi encaminhado ao CDP de Bauru. Ele possui passagem por ter participado do furto de carro.

Já a menor gestante foi levada para a Cadeia Pública de Pirajuí. Segundo o delegado, a pena é de 20 a 30 anos de reclusão para quem comete latrocínio, crime hediondo.

Douglas Reis

Esposa de Celso Alves, Lucineida de Oliveira, durante velório do marido

Despedida

Celso Alves era casado e teve quatro filhos do primeiro relacionamento. Ao saber da morte do marido, a esposa passou mal.

O corpo dele foi velado sob comoção e revolta de amigos e familiares na sala 2 do Centro Velatório Terra Branca, na rua Gerson França, quadra 5. O enterro foi realizado hoje, às 16h, no Cemitério do Jardim Redentor.

"Só porque são jovens acham que podem tirar a vida de um cidadão trabalhador. Tinha que ter uma lei mais rígida contra isso", desabafou Lucineida de Oliveira, 50, esposa.

Não dá para saber 

A morte violenta do colega de trabalho chocou taxistas ds cidade. Presidente do Sindicato dos Taxistas de Bauru, Vitor Talão lamentou a morte de Celso, que, segundo a entidade, era cadastrado na profissão desde 2003 e associado ao sindicato desde 2008.

“Era um profissional exemplar, amigo e companheiro. Sob sol ou chuva ele estava lá ganhando seu dinheiro honestamente. Era um dos taxistas mais antigos da cidade”, comenta Talão. “Infelizmente, o criminoso não tem um perfil, hoje, eles estão bem vestidos e até engravatados algumas vezes. E também não têm idade. Temos que correr esse risco. Diante disso tudo fica apenas uma sensação de impotência”, enfatiza o presidente do sindicato da categoria.

Ele frisa que a entidade disponibiliza uma cartilha aos taxistas contendo dicas de precaução, mas a prevenção é difícil. “A bandidagem está em todo lugar. O pessoal, inclusive, tem medo de denunciar quando é vítima de furto, porque os furtadores sabem os pontos”, revela Talão.

Celso era um dos onze taxistas que atuam há anos nos pontos da praça Rui Barbosa.

 

Valor de uma vida: casal fugiu com os R$ 43,00 roubados

Até quando?

A apenas dois dias do Natal, os familiares do taxista Celso Alves só têm motivos para chorar. E não só a família dele. Toda a sociedade também. Um senhor que, no auge dos seus 76 anos, ainda acordava cedo todo santo dia e saía para trabalhar foi assassinado por um casal marginal que tentava roubar R$ 43,00.

Os criminosos: um jovem de 18 anos, que, mesmo com a pouca idade, já carrega uma ficha criminal; e uma adolescente grávida de 16, que, mesmo carregando uma nova vida, contribuiu para interromper, de forma brutal, a de um trabalhador honesto. A família de Celso Alves chora. A sociedade chora. O JC mostra a nossa triste realidade, onde a vida nada vale para um criminoso.

É extremamente preocupante saber que muitos Celsos estão espalhados por aí esperando a sua vez de virar vítima. É assustador saber que as autoridades, principalmente o Congresso, não respondem de uma forma firme. É revoltante saber que a polícia trabalha muito para apenas “enxugar gelo” já que as leis e suas aplicações não têm se mostrado suficientes para, no mínimo, amenizar a dor da família, dar um pouco mais de segurança para todos nós e fazer uma mínima contrapartida em respeito à memória das milhares de vítimas da violência.

Presenciando mais um crime hediondo como tal, só nos resta questionar: até quando?

Faca usada no assassinato


 

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