Geral

206 km de superação

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Divulgação

Márcio teve a companhia do cunhado Fabrício em parte do trajeto

Suor, pés machucados e fadiga muscular que em nada se parecem com o treino intenso de um atleta profissional. O homem que caminhou, vezes acompanhado de familiares, à beira das rodovias que ligam Bauru a Ribeirão Preto, nos últimos quatro dias, buscava, mais do que a prática de esportes, a superação de uma fase ruim e que quase ceifou sua vida após o ingresso no mundo das drogas.

Aos 35 anos, Márcio Silveira Ruiz se tornou uma espécie de símbolo de resistência para sua família e um exemplo a ser considerado por pessoas que enfrentam problemas parecidos com o vício.

Após duas décadas experimentando e usando diversos tipos de entorpecentes, ele foi internado por duas vezes em uma clínica de reabilitação, sendo liberado da última internação há uma semana.

Decidido a nunca mais recair, ele resolveu cumprir seu primeiro desafio: voltar correndo de Bonfim Paulista (a 206 quilômetros de Bauru), distrito de Ribeirão Preto, para Bauru.

O objetivo? Ele mesmo explica: “Preciso dar novos sentidos à minha vida. Esse foi o primeiro de muitos desafios que ainda terei. Caminhar até aqui trouxe mais fé e confiança a mim mesmo e me deu forças para seguir melhor”.

Trajeto... da vida

Márcio conta que chegou a dormir na rua e trocou quase tudo o que tinha pela cocaína e, depois, pelo crack, chegando ao limite de sua saúde ao final do primeiro semestre do ano passado.

Bauruense, mas vivendo sozinho em Ribeirão Preto, o afastamento da família, que, na época, apenas desconfiava do vício, foi consequência.

Ajudado por um amigo, ele conseguiu internação em uma clínica de reabilitação ao final de 2013, mas o tratamento veio “por água abaixo” no início deste ano, com a recaída frente às tentações do retorno ao mesmo tipo de vida social.

Em família

Mobilizada com a história do irmão, que chegou a trabalhar como corretor e foi até empresário, a fisioterapeuta Nara Silveira Ruiz Paini, de 37 anos, resolveu se unir ao marido, o educador físico Fabrício Ruiz Paini, de 31 anos, para tentar ajudar Márcio a dar um novo final a sua história de superação.

Internado em uma nova clínica de reabilitação em Bonfim Paulista, em junho deste ano, Márcio começou a receber aulas e preparação física para participar de caminhadas longas e corridas.

A liberação do ex-usuário ocorreu na última quinta-feira, mesmo dia em que ele anunciou aos familiares que voltaria para Bauru a pé.

“Ter meu irmão de volta, animado e com um propósito de vida foi o melhor presente de Natal que eu e minha família poderíamos ganhar. Valeu a pena”, comenta a irmã Nara Paini.

“Espero que ele continue com toda essa animação e que sirva como um exemplo para outras pessoas que também sofreram com esse problema”, reforça a familiar.

Antes de ouvir as palavras da irmã elencadas acima, Márcio abriu um sorriso e fixou distante o olhar ao falar de suas pretensões, quase como quem observa o futuro. “Sou uma nova pessoa, hoje. Vou voltar a trabalhar e reconquistar tudo o que perdi.”


A morte de perto

A jornada, que teve início na manhã de sexta em Bonfim Paulista e terminou na tarde de ontem, na rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-225), a Bauru-Jaú, na altura do hospital da Unimed em Bauru, serviu quase que como uma terapia para que Márcio testasse seus limites e refletisse sobre a vida.

“A cada veículo que passava próximo, eu via a morte de perto. Quase presenciei um acidente em Itapuí. Enfrentei o calor intenso que vinha do asfalto nos dias quentes e a intensidade das chuvas”, conta.

A cada parada, em postos de combustíveis ou em hotéis, para comer ou renovar os curativos nos pés, surgia vontade de desistir, mas o apoio da família fez com que ele terminasse o trajeto.

Márcio chegou a Bauru caminhando ao lado de seu cunhado Fabrício e acompanhado por uma comitiva de carros formada pela família e amigos. “Achei que não conseguiria, mas, agora, estou até pensando em me inscrever para correr as maratonas”, finaliza.

Comentários

Comentários