Quioshi Goto |
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Sob a chuva fina que caiu na tarde de ontem, Celso Alves, 76 anos, foi enterrado no Jardim Redentor |
“Estou sentindo uma dor insuportável e não sei se um dia vai passar. Só espero que a Justiça seja feita”. Sob forte comoção e revolta, Solange Alves Rodrigues, 42 anos, deu o adeus ao pai Celso Alves, 76 anos, taxista vítima de latrocínio – roubo seguido de morte. Os assassinos, um casal de 18 e 16 anos, o mataram, anteontem, por causa de R$ 43,00. Em depoimento à Polícia Civil, o jovem mudou a primeira versão e confessou que o taxista não reagiu ao assalto.
Celso era casado e teve quatro filhos do primeiro relacionamento. Há quatro anos, porém, perdeu o filho mais velho, de 40 anos, vítima de uma parada cardiorrespiratória. Ao saber da morte do marido, a atual esposa Lucineida de Oliveira, 50 anos, passou mal.
“Só porque são jovens acham que podem tirar a vida de um cidadão de respeito e trabalhador. Tinha que ter uma lei mais rígida contra isso”, criticou a esposa. Junto de familiares e amigos durante o velório ontem, ela questionava a segurança dos taxistas e a situação de abandono da Praça Rui Barbosa, ponto onde Celso atuava.
“A praça parece entregue aos bandidos e usuários de drogas”, frisou.
Ela conta que o marido tinha certo receio durante as corridas diárias. “Às vezes, falava em sentimento de medo e insegurança, mas garantia estar atento aos passageiros que levava”, lembrou, ainda abalada.
O casal vivia no bairro Octávio Rasi. “Vai ser duro quando eu estiver em casa, sabendo que ele não vai chegar e brincar comigo como sempre fazia. Adorava me ‘irritar’ até fazer eu perder a paciência. Era o jeito dele: brincalhão o tempo todo. Um parceiro nota mil”, definiu a esposa.
O corpo de Celso foi sepultado ontem, às 16h, no Cemitério do Jardim Redentor. Taxistas acompanharam o cortejo. Enquanto o caixão descia, o som do choro e da chuva dava lugar às palmas da família e amigos.
Indignação
Visivelmente indignada e andando de um lado para o outro no velório, a sobrinha de Celso, Lazinha Gonçalves, 63 anos, segurava a edição de ontem do JC. O tempo todo, ela apontava para o valor levado pelos criminosos.
“Matou por causa de R$ 43,00. Esse é o valor da vida de um homem honesto? Inaceitável. Olha o tamanho da faca usada pelo rapaz contra uma pessoa do bem”, lamentou a mulher, em tom de revolta. “A gente não deve pagar com a mesma moeda, mas é certo que esse rapaz, em breve, vai estar nas ruas”, completou.
‘Podia ser eu’
“Há uns quatro meses, fui vítima de assalto no mesmo lugar (Praça Rui Barbosa). Três bandidos me levaram em um local afastado do Centro, me ameaçaram e roubaram meu carro. Consegui escapar porque Deus me deu a chance”. o desabafo é do taxista Antônio Freitas Almeida, 56 anos, que também atua na praça Rui Barbosa.
Há 36 anos na profissão, ele revela o medo da classe e a insegurança no local. “É o lixo de Bauru e as autoridades nada fazem. Todo mundo sabe que a praça é frequentada por usuários de drogas e bandidos. Algo tem que mudar”, observa.
No momento em que o casal solicitou a corrida a Celso, Almeida fazia compras de Natal e só ficou sabendo da morte do amigo quando retornou ao ponto horas depois. “Podia ter sido eu”, disse.
E a luta continua...
O que ficou: sentimento de insegurança. “É o meu ganha pão e não me resta outra alternativa: tenho que continuar na luta, independente do medo”, disse Almeida. “Agora, vamos sustentar esses criminosos na cadeia, com o pagamento dos nossos impostos. E daqui uns dias vão estar soltos para cometer mais crimes”, completa.
Outro taxista, que não quis se identificar, lembra que estava à frente de Celso no ponto, pouco antes do ocorrido. “Eu sai e ele ficou para a próxima corrida, que acabou na morte dele”, lamentou. “Era uma cara da paz e estava contente com a chegada do Natal”, acrescentou.
‘São-paulino roxo’
Em meio à tristeza e dor, um sorriso escapa do rosto de Lucineida de Oliveira ao lembrar do convívio com o marido. “Era são-paulino roxo. Tentava disfarçar, mas não conseguia. Acompanhava todos os jogos e ‘discutia’ com os jogadores em frente à TV”, disse, recordando-se com ternura.
Um sobrinho de Celso, Esmael Rodrigues, 61 anos, define que o tio estava na “melhor época da vida dele”. “Conseguiu reformar a casa, trocar de carro. Estava estabilizado e muito feliz”, contou.
‘Homem bom’
O seu Celso, como era chamado por amigos mais próximos, antes de ser taxista, se aposentou como motorista profissional após prestar serviços para uma empresa de ônibus de Bauru e também no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP.
Chefe técnica de serviços administrativos do hospital, Rosali Fátima Malaspina Azevedo Silva lembra com carinho do amigo, com quem trabalhou por muitos anos. “Um homem bom. Além de excelente funcionário, uma pessoa dedicada, ética, discreta e dono de uma educação ímpar”.
Assassino confessa que o taxista não reagiu ao assalto
Com Marcele Tonelli
Diferentemente do que declarou no início, Jhonatan Felip dos Santos alegou, durante depoimento à Polícia Civil na CPJ, que a vítima Celso Alves não reagiu ao assalto.
De acordo com o narrado pelo jovem em boletim de ocorrência (BO), o taxista teria apenas solicitado ao casal para ser liberado. E por que a violência? Jhonatan afirmou que desferiu o golpe de faca “no susto”, porque avistou luzes, uma viatura patrulhando a região, “e temeu ser pego em sua conduta ou ser, posteriormente, delatado pela vítima”, diz o BO.
Conforme o JC noticiou, Celso foi abordado por Jhonatan e a adolescente, de 16 anos e grávida de dois meses, na praça Rui Barbosa, por volta das 14h40 de anteontem. O casal solicitou uma corrida até o Mary Dota.
Lá, eles anunciaram o assalto e obrigaram o taxista a dirigir seu Toyota Etios até um local ermo na rua Amadeu Cavalieri – via que dá acesso à lagoa do Quinta da Bela Olinda -, onde a vítima foi esfaqueada e teve R$ 43,00 roubados.
Jhonatan e a menor fugiram em direção à mata entre o Mary Dota e o Conjunto Habitacional Isaura Pitta Garms, mas foram vistos por uma testemunha e acabaram presos pela Polícia Militar (PM), cerca de uma hora depois.
Os policiais chegaram ao local e acompanharam o socorro do taxista, que foi levado pelo Corpo de Bombeiros ao PS Central. A vítima, contudo, não resistiu e morreu logo após dar entrada no hospital.
