Geral

Por um Natal mais pé no chão

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

O tempo de esperança, de amor, de maior despertar da espiritualidade, da compaixão, do coração assertivo e da caridade estão intrinsicamente associados ao dia de Natal. E reflexão também! E não só pelo simbolismo. A questão é que os corações humanos são suscetíveis às tempestades de ocasião e, inclusive, aos reflexos de panoramas com substancial dose de ‘negativismo’ embutida, como a preocupação com o próximo ano, em razão do período de inflação em alta e de pressão sobre os níveis de emprego.

Corrupção e recessão ‘alimentam’ neste final de ano os corações com incertezas, embora, em outra direção, possam aguçar a solidariedade e a caridade. Não por acaso, estudiosos sobre o comportamento humano frequentemente apontam relação entre a caridade exposta mais à “flor da pele” exatamente em ambientes de crise. E não há contradição alguma nisso, dizem psicólogos, por exemplo.

Padre envolvido com fieis mais à periferia de Bauru, o professor Milton César Carraschi, da paróquia São José Trabalhador, na Vila Industrial, aborda que há correlação, pelo sentido humano mais intrínseco das relações, entre caridade e crise. “Em períodos de crise, o senso cristão parece despertar mais aos que acreditam no papel humano de servir, estender a mão ao próximo. Aquele que tem fé pode não investir na troca de sua geladeira, com medo de faltar esse dinheiro depois, mas não deixa de doar a cesta básica que costuma reservar para o próximo”, comenta.

Na visão de padre Milton, a crise arrefece o consumismo, mas não o sentimento pelo outro. “Ao contrário, essa dimensão da caridade além de não cessar, mexe com mais força ao coração daquele que já a pratica”, opina.

Não por outra razão, acrescenta, as pessoas em crise ficam mais inseguras. “Elas passam a rever suas posturas, ficam mais inseguras em relação ao que pode acontecer e como passar pela fase mais difícil. Esse sentimento está permeando a cabeça das pessoas neste momento”, avalia.

Mas por quê? “A crise ecoa dentro das casas, no trabalho, nas relações humanas e isso mostra, aqui na paróquia, pessoas mais desacreditadas. E isso afeta a todos, gera desânimo, freia o consumismo, mas, o que é pior, gera desesperança. Em escala isso afeta até a ceia de Natal, que será realizada de forma mais comedida por muitas famílias e com menos presentes e mais apreensão”, pondera.

Os elementos presentes no momento atual, emenda o pároco, são corrupção, retratação econômica, inflação em alta, violência...“Em relação ao consumismo mesmo que o momento fosse de fartura, para a igreja Papai Noel é uma representação comercial e o símbolo maior, de vida, de renascimento, é o menino Jesus”, reforça.

Do ponto de vista da participação religiosa em sociedade, Milton César acredita que a estratégia é manter atividades com abrangência social o ano inteiro. “Aqui na paróquia houve recorde de arrecadação de ação social neste Natal, com o apoio da comunidade. As pessoas ficam mais generosas, apesar da crise, e não deixam que a fase afete a caridade.”


País de bolha de sabão

A chuva da tarde de terça-feira, antevéspera de Natal, não fez o chileno de Vina Del Mar, Maurício Zavala, desistir de vender o brinquedo que faz bolinhas de sabão no Calçadão. Ele lamentou a chuva, mas também o momento de apreensão neste período natalino. “A economia de toda América Latina está ruim e isso deixa o Natal mais triste. O povo sabe o mínimo da política e os preços estão consumindo com todo nosso dinheiro”, disse, em espanhol.

Há dois anos vendendo nas ruas de Bauru, Zavala não titubeou na comparação: “O Brasil é grande, mas achou que já era como os grandes. Se não resolver seus problemas, como a corrupção, a violência e a saúde, não vai ser grande. É uma pena esse clima no Natal”, disparou, enquanto soltava bolinhas de sabão para as lentes do fotógrafo do JC .

O chileno disse que, apesar da crise, em sua ‘terra natal’ alguns serviços públicos estão bem melhores. “O Natal no Chile também será apertado, mas em estudo e saúde as coisas estão bem melhores por lá”, emendou.

Já o vendedor de lanches Marlon César está preocupado com a economia. “Está como a chuva, é um balde de esfriar o ânimo para as compras do Natal. Me preocupo muito com a economia, essas notícias de que 2015 será bem ruim. Ai as pessoas já escolhem mais para quem vão dar presentes desde o Natal”, comentou.

Para o industriário Washington Luiz Ferreira, nada tira seu ânimo. “Para mim não muda nada. Não vou ficar com preocupação, senão não vivo”. Mas Érica Aparecida, que o acompanhava nas compras no Calçadão foi mais cética: “Nada nessa vida é garantido. Esse País não toma jeito. Esse governo com corrupção só atrapalha”, reclamou.

A estudante Fernanda Queiroz Pinheiro da Silva dividia um sentimento misto. Aos 18 anos, ela comemora o presente de Natal, o primeiro emprego, mas está apreensiva com o futuro. “Entro no Natal feliz por estar trabalhando há dois meses, mas também estou incomodada com corrupção, porque é dinheiro nosso que não volta para a população em forma de serviços ou obras públicas”, ponderou.


O efeito psicológico

A psicologia explica, ou tenta entender, como os “fenômenos sociais” interferem em nossas relações de vida. Para a psicóloga Edinéia Morilha, os primórdios já nos ensinam sobre os efeitos das relações de poder e as consequências decorrentes de crise e corrupção, por exemplo.

“Apesar de acontecerem de maneiras diferentes, esses problemas persistem até hoje. E há milênios também temos nossos mitos e tradições de acordo com cada cultura e crença. A partir deste princípio, uma das maiores simbologias desses tempos é representada pelo Natal, que nos traz sentimentos e pensamentos positivos que nos remetem às reflexões, sentimentos de solidariedade, de amizade e amor ao próximo”, pontua.

Contudo, Morilha pondera que a assimilação do momento sobre as emoções guarda relação com a forma como cada um prepara “seu espírito”. “Pessoas positivas tendem a relacionar a data com sua forma comemorativa, festiva, alegre. Outras, relacionam com suas crenças, na representação do nascimento de Cristo, o que remete à valorização da união da família, se preocupando com as dificuldades depois, como as contas e a crise”, inicia.

Para outra parcela, a visão negativa sobre a realidade pode gerar a catastrofização dos pensamentos. “E são sentimentos que podem ser ruins, marcados por tristeza, ansiedade. Apesar disso, esse pessimismo pode gerar resultados positivos em relação aos seus gastos, com economia até em razão de serem pessoas alheias às festividades”.

Um terceiro grupo é formado por pessoas que não comemoram nada, independentemente do momento. “São pessoas que não se importam com essas datas e, por isso, tendem a manter o controle econômico e os pés no chão. O importante é sabermos canalizar pensamentos e sentimentos bons, participando ou não da representação de cada situação, uma vez que o pensamento se sobrepõe a situação e ele, o pensamento, é o que determina como nos sentiremos e não a situação”, finaliza.

Já para o hipnoterapeuta Benomy Silberfarb, tudo o que venha nos afligir emocionalmente pode influenciar no Natal. “Por ser judeu, tenho uma visão e experiência diferente sobre Natal, mas pude exercitá-la numa parte da família e conhecer os reais objetivos do evento. Os acontecimentos político, econômicos e sociais fazem parte do nosso dia a dia de verdade e o Natal permeia um pouco de fantasia”, comenta.


Inquietude cristã

Pastor da igreja Batista do Estoril, Gilson Souto Maior Júnior comentou que tem percebido que há o sentimento de que as coisas não andam bem no País e a situação econômica contribui, com inflação em alta, corrupção e violência. “Tudo isso dá a sensação de menor esperança. As pessoas estão insatisfeitas, é o que estamos sentindo”. Para Souto, em maior escala neste ano, a mensagem de esperança em si, natural do Natal, não está aflorada. “Já bastante bombardeadas pelo incentivo a consumir e consumir, as pessoas entraram em um momento de reflexão preocupadas. Tudo isso mina a confiança do que virá no próximo ano”, opina.

 

Comentários

Comentários