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Começar de novo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Nos anos de 1960, uma garotinha de classe média de Buenos Aires, indignada com tantas notícias sobre violência e comportamentos antiéticos, gritou: "Parem o mundo que eu quero descer". Essas e muitas outras frases de Mafalda ? criação do cartunista argentino Quino ? deram a volta ao mundo, foram traduzidas em vinte línguas e continuam atuais. Há mais de cinquenta anos Mafalda vive questionando políticos, economistas e adultos em geral. Quino deixou de desenhar aquela baixinha de cabelos curtos e um enorme laço na cabeça, em 1973. Mas, por incrível, os temas continuam atuais. Deve ser porque o mundo continua cometendo os mesmos erros.

Neste final de ano, quando tradicionalmente os meios de divulgação fazem o balanço dos principais acontecimentos do período, sinto-me como a garotinha que virou estátua em San Telmo e Umberto Eco chamou de "heroína enraivecida". Parem as máquinas desse filme "noir", cheio de maldades. Vamos começar tudo outra vez... Há cenas em que o trágico funde-se com o cômico como aquela do juiz federal que mandou prender a agente de trânsito depois de ser multado por dirigir sem documentos. A funcionária diligente, processada, foi condenada a pagar indenização ao juiz por lembrá-lo que ele "não é Deus". Outro personagem surge na tela, é Paulo Maluf procurado pela Interpol e considerado ficha limpa pelo Tribunal Superior Eleitoral porque cometeu crimes de improbidade administrativa, "sem intenção".

Os escândalos envolvendo desvios de somas miliardárias da Petrobras, começam a desencadear processos indenizatórios de acionistas norte-americanos que se sentem lesados pelas falcatruas na empresa a que confiaram suas economias. A estatal já perdeu 40% do seu valor de mercado. Começa a sair a lista dos futuros ministros do governo. Mais uma vez o estado é aparelhado em troca de apoio de políticos sem qualquer afinidade com as áreas de comando. Para compor o ministério fisiológico, Dilma quis fazer uma consulta prévia para saber se, dos 13 até agora indicados, havia algum contemplado na lista dos 28 a serem denunciados, por implicações na Operação Lava-Jato. Quem sabe a nova equipe econômica consiga fazer o Brasil crescer além dos 0,6% do PIB esperado para este ano. O prometido por Dilma era de 3,8%, com inflação de 4,5% e que chegou a 6,5%. Começam a serem anunciados os aumentos nas tarifas de luz, combustíveis, ônibus, trem, taxis. Tudo o que a então candidata Dilma disse que o adversário Aécio faria, que ela chamou de "tarifaço", está acontecendo no seu governo. Chega o momento de descontração diante de tanto suspense que mantém o espectador pregado à poltrona. Vem a declaração do deputado Bolsonaro à sua colega Maria do Rosário: "Não estupro você, porque você não merece". Pior do que chamar de "macaco" o goleiro Aranha, do Santos.

Brecht dizia que da comédia à tragédia, basta um passo. Entre 65 países analisados pelo Programa Internacional de Avaliação de estudantes, da Unesco, o Brasil ficou em 58º. Lemos quatro livros por ano, em média, incluindo obras didáticas e religiosas. Sete milhões ainda passam fome no Brasil. Sem o Bolsa Família seriam mais 8,5 milhões. Aumentou os casos de Aids entre os jovens de 15 a 24 anos. Continuam achando que fazer sexo com camisinha é como chupar bala com o papel. Sobreviventes do tsunami que causou 230 mil mortes na Ásia, soltaram lanternas de papel para homenagear as vítimas. A televisão mostra imagens da tragédia e os locais devastados na Tailândia, hoje reconstruídos como se nada houvesse acontecido. Na Região Serrana, do Rio, há quatro anos, chuvas e desmoronamentos mataram 930 pessoas e deixaram 35 mil ao desabrigo. As áreas devastadas continuam como depois das tormentas. Ninguém sabe onde foi parar o dinheiro recebido para a reconstrução.

Nem tudo são notícias ruins em 2014. O papa Francisco ajudou a acabar como braço-de-ferro entre Estados Unidos e Cuba, depois de 50 anos de um inútil isolamento da ilha. O pontífice ainda deu uma dura no colégio cardinalício ao deixar os velhinhos purpurados atônitos com sua lista das 15 tentações que avassalam a Igreja. "Uma cúria que não faz abertura, que não se atualiza, que não trata de melhorar sempre, é um corpo doente". Sofre de Alzheimer espiritual. Mafalda teria vibrado com o seu conterrâneo quando puxou as orelhas dos "fofoqueiros que falam pelas costas semeando a cizânia, feito Satanás". A garota criada por Quino alfinetava, numa virada de ano: "O mundo é mau porque nós não nos esforçamos para fazê-lo diferente".

O autor é jornalista e articulista do JC

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