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A omissão dos pais no estudo dos filhos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Quando, por quanto tempo e de que forma os pais valorizam a educação de seu filho em todas as suas vertentes? Qual o vínculo mantido na relação com o filho, a forma e estratégia de comunicação em casa ou em relação à escola e ao retorno sobre o que se aprende ou não em sala de aula? Um estudo que partiu de pesquisa qualitativa de observação da relação entre pais e filhos em casa e na escola tentou desvendar e discutir essas questões. O ponto que mais chama a atenção é universo majoritário de pais omissos em relação aos estudos do filho, nem valorizam e nem mantêm vínculos com os pequenos em casa.

O grave da questão é que o estudo, realizado pelo Instituto Paulo Montenegro e Ibope Inteligência, confirma o imenso abismo no processo de alfabetização e formação de cidadãos, além de escancarar o distanciamento das relações afetivas dentro de casa. Ambas as deficiências – de não valorização dos processos educacionais e de ausência de vínculos familiares – “fortalecem” as feridas comportamentais e de constituição de valores, princípios, que vão cedo ou tarde diluir ainda mais as fragilidades intrafamiliares e de convivência exercidas na rua, no convívio social.

Embora tenha partido do objetivo de identificar como estão esses dois pontos de equilíbrio e de sustentação da formação educacional e humana dos futuros cidadãos, o estudo acaba fornecendo elementos para explicar, ou identificar, a amplificação de consequências como indisciplina, ausência de perspectiva e motivação, conflitos e até agressividade, sobretudo a partir da adolescência.

A pesquisa do Instituto Paulo Montenegro gerou observação em domicílios, com o monitoramento de duas características: o quanto os pais ‘valorizam’ a educação como conceito e vida e qual o ‘vínculo’ mantido com as crianças, como se dá a comunicação para o acompanhamento do que está sendo apreendido na escola e mesmo no cumprimento para as tarefas encaminhadas pelos professores.

O extremo

A diretora do Instituto Paulo Montenegro, Ana Lúcia Lima, salientou que, não obstante a relevância da identificação do quão primordial é o vínculo de relacionamento mantido pelo pai para o desenvolvimento emocional e educacional do filho, o que preocupa são os extremos identificados no estudo.

“Nos preocupa o outro extremo, não o da falta da valorização do conceito de educação pelo pai ou, do outro lado, da fragilidade de vínculos de convivência em casa. Preocupa o fator zero, a ausência de vínculo e de valorização. É significativa a identificação de pais que não mantêm nenhum vínculo e também não tem a educação como princípio de vida”, adverte.

Em uma amostra sobre 2002 casos, em 19% das famílias, os pais não só não mantêm o vínculo de relacionamento com os filhos como não consideram o mínimo de valorização para a educação. Na outra ponta, apenas 12% têm comprometimento elevado com os dois conceitos ou características. Em 17% dos casos valorização e vínculo aparecem em patamar mediano, intermediário.

A pesquisa também identifica os níveis de maior importância levados em conta pelos pais para um conceito em detrimento ao outro. Assim, 25% estão envolvidos mais com o reconhecimento da importância da ‘educação’ para seus filhos do que com o ‘vínculo’ mantido com o filho em casa, enquanto 27% dos pais conseguem estar atentos mais ao ‘vínculo’ do que com a ‘educação’.

“O vínculo forte com o filho gera a mágica do respeito e da confiança. A  pesquisa identifica que muitos pais mantêm vínculo com o filho, se comunicam e brincam com ele, mas não transmitem o valor relacionado à educação. Outro grupo se preocupa com a educação e valoriza o conceito, mas não tem vínculo, não participa da vida do filho”, aborda Ana.

A combinação dos dois fatores é o ideal, segundo a avaliação da pesquisa. “Tem pais que consideram que estão fazendo seu papel brincando de joguinho com o filho, mas são bonzinhos, aceitam tudo, ou não impõem nenhum limite até por culpa. E outros são durões em demasia, autoritários, e acham que estão também cumprindo sua missão porque defendem um valor. Não é nem uma coisa e nem outra. Precisa equilibrar. Falta conscientização do papel de pai”.


Acompanhamento

Para a secretária Municipal de Educação, Vera Casério, o acompanhamento escolar dos filhos pelos pais é fundamental. “Possibilita uma cultura escolar na vida familiar, propiciando o gosto da escola pelos filhos e o desejo do conhecimento pelos mesmos. Consequentemente, impacta nos resultados positivos e de sucesso escolar, fazendo com que o aluno falte menos, estude mais e viabiliza baixa evasão”, aborda.

Vera enfatiza a consolidação, em pesquisas, da ideia de que quando os pais conhecem o processo de desenvolvimento da criança, estes envolvem-se mais com a educação de seus filhos e tendem a acompanhar mais a tarefa escolar. “Mas a realidade brasileira torna essa premissa bastante difícil de ser executada. Baixa ou nenhuma escolaridade de grande parte dos pais e ausência de cultura escolar (leitura, gosto pela escola, importância do aprender) dificultam a participação dos pais na educação dos seus filhos”, situa.

A secretária reconhece a dificuldade em reduzir a distância entre escola e família. “A articulação da escola com a comunidade em geral e com pais especificamente é tarefa cotidiana e necessária para que possamos desenvolver uma educação social. Por isso hoje, a escola além de transmitir os conhecimentos universalmente acumulados aos alunos, deve também desenvolver uma educação valorativa não só aos seus alunos como também aos seus pais”, frisa.

No âmbito local, Casério cita como exemplo o Projeto de Implantação de Conselhos Escolares em todas as unidades da rede. “Estamos em processo de organização eleitoral de mais 22 escolas de educação infantil e, para o ano de 2015, todas as escolas do sistema municipal terão conselhos escolares”, conta.


Pais falam das experiências de participação

Os pais atentos ao desenvolvimento escolar, e que não abrem mão de brincar com suas crias com periodicidade e alegria, comentaram sobre a experiência e os resultados obtidos dessa conexão. 

Regina Levoto lembrou que quando Victória estudava a acompanhava nos percursos diários à escola, mas também sabia quando ela iam mal nas provas. “Eu acompanhava até os passeios da escola. Ela nunca entrou em brigas, aprendeu que não se pode ficar sem a família  e que pode contar sempre com os pais, não importando o problema. Uma questão de confiança e de responsabilidade”, diz.

Fernando Mello conta que acompanha as duas filhas e comparece às reuniões da escola. “É para saber sobre desenvolvimento e temas abordados durante ano letivo, quando acabo e aprendendo com novas experiências para saber driblar os impactos diante deles”, menciona.

Paula Jabur informa que o filho está no 7º ano. “Meu marido, que é norte-americano e padrasto dele, faz questão de estudar junto todas as matérias nas quais tem dificuldades, mesmo com a barreira linguística atrapalhando muitas vezes. Achamos que participar das tarefas é fundamental”, opina.

Oneir Caçador cita que não tem mais filho em idade escolar, mas  em sua casa sempre acompanhou, com a esposa Conceição, o aprendizado dos filhos. “Temos certeza de que o nosso esforço fez a diferença na formação dos dois filhos, o Júnior e o Juliano, hoje médicos veterinários”, conta orgulhoso.

Raquel Freitas garante que nunca deixou de acompanhar a cria. “Na escola, sempre, desde festinhas até às tarefas, tudo para saber do aprendizado e desenvolvimento intelectual e emocional. A experiência é muito gratificante”, avalia.

Aprendizado

Gisele Gonçalves diz que “aqui em casa dia de lição é um dia com o pai e o outro com a mãe. Estamos sempre incentivando e acompanhando o aprendizado. Por enquanto, meu filho acha o conteúdo apresentado muito fácil, o que me dá a impressão de desinteresse dele. Mas na escola as professoras reforçam que o conteúdo é adequado e ele é que tem um desempenho esplêndido”, fala com corujice orgulhosa do pequeno Henry.

Martinho Teixeira garante que nunca deixou de ir a reuniões escolar, revezando com a esposa. “Era a única forma de saber do andamento escolar das crianças, vez que estava extinto o boletim”, lembra.

Andreia Freitas elenca que não só acompanho a ida para a escola, como durante todas as tarefas, trabalhos, provas, reuniões. “Nem que para isso tenha que deixar os meus compromissos de lado”, fala.

Rosana Poli acompanha o Lucca desde sempre. “Sempre frequentei reuniões e festinhas. Agora com ele adolescente, mais ainda, porque as preocupações aumentam não só no conteúdo exaustivo das disciplinas, mas na checagem das amizades, das atividades extra classe”, situa.

Fernanda Siewert não desgruda de Thiago. “Acompanho sempre. A participação dos pais é imprescindível, importantíssima para avaliar o comportamento do filho no colégio”, avalia.

Divulgação

Fernanda Siewert volta a estudar quando ajuda Thiago nas tarefas

 

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