Platão dizia (República II) que o povo não deve aceitar homens responsáveis que se arrastem pelo riso. Claudio Aureliano afirmava que nunca viu o filósofo Anaxagoras ou o herói Aristomenes rirem. Conclusão: os pensadores gregos e latinos achavam que homens dignos deviam evitar o hábito de rir. Uma vez fomos postos para fora da classe por uma professora por estarmos rindo. Ela era uma senhora digna, que se vestia conforme o último primavera-verão de Paris, e eu, bobalhão, a rir dos ruídos gastrintestinais de um gorducho, meu vizinho de classe, que me provocava. Resultado: cinco dias de suspensão.
Foi a risada mais danosa que eu jamais dera. Em exames mentais, os risos, chamado pelos examinadores de imotivados, constituem um sinal de que as coisas não estão bem. O motivo desta falação é que desde que me entendo por gente, me vejo às voltas com risos. Rir é um traço social importante, pensa-se. Nenezinhos, ainda na maternidade, são levados a rirem na frente das câmaras ou dos celulares. Ao fotografar, o americano até aplica a palavra cheese para preparar o rosto do figurante para o riso. Acho que é uma questão de dosagem. O que não pode, a nosso ver, é noticiar a morte de centenas de tripulantes de avião e fazer um biquinho de riso, no fim do comunicado, talvez para resguardar alguma coisa, ou obedecer a terceiros.
O autor é médico e colaborador de Opinião