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Aumento para 25 aulas na CNH não garante melhores motoristas

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 12 min

Reprodução

Aumento do número de aulas não gera mais experiência ou efetivo treinamento de habilidades ao volante em situação real

A “primeira carteira de motorista” costuma seduzir tanto os jovens brasileiros, sobretudo os meninos, que há quem arrisque dizer que a ansiedade pela Carteira Nacional de Habilitação (CNH) concorre com eventos de vida como a espera pela primeira relação sexual. Mas as sensações pelo “poder ao volante” preocupam as autoridades. No Brasil, o acesso à primeira habilitação, ao invés de privilegiar segurança e preservação da vida, roda na contramão (leia mais abaixo). 

 

Entre as medidas que vieram em sentido contrário à segurança de motoristas e pedestres nas ruas e estradas, especialistas criticam mais a investida de mercado nascida sob o farol do Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Com aplicação criticada pelo governo paulista, o recente aumento de 20 para 25 horas/aulas práticas para a obtenção da CNH válida para todo o País está recebendo desaprovação de peritos em segurança e engenharia de trânsito. Apesar da resistência paulista, a regra passa a valer no Estado de São Paulo a partir de 19 de janeiro.

 

Na prática, o aumento do número de aulas não gera mais experiência ou efetivo treinamento de habilidades ao volante em situação real. As mudanças (veja quadro na página ao lado) trazem ajustes normativos que, no frigir dos ovos, ampliam em apenas uma hora o treinamento para quem vai acessar a primeira CNH.

 

Além disso, as alterações não vieram acompanhadas de reivindicações antigas no segmento, como obrigatoriedade de prática na direção de veículo em rodovia e durante o período noturno.

 

O que aparece exposto na norma que amplia o número de aulas práticas de 20 para 25 é, segundo quem circula nesse segmento, uma “pegadinha” normativa para acalmar os empresários com gastos em equipamentos simuladores. Caros, eles foram incorporados ao regime de habilitação para motoristas no Brasil como “avanço tecnológico na formação”. 

 

Para “modernizar” o mercado de formação de novos motoristas, as autoescolas passaram a investir de R$ 25 mil a R$ 40 mil em simuladores, dependendo do nível de sofisticação do equipamento. No então regime de 20 horas aulas práticas para obtenção da CNH, três aulas eram permitidas para serem realizadas via simulador.

 

Mas na alteração da norma, contam os técnicos, a substituição pode chegar a sete horas/aula, sendo quatro para situação noturna e três para treinamento diurno.

 

Ao final, o aluno terá condições de realizar apenas uma hora/aula a mais em relação ao regime anterior imposto pelo Departamento Nacional de Trânsito (DNT). E, frise-se, o uso do simulador na formação continua sendo o antídoto de mercado adotado como substituto da aula real em situações de risco e stress.

 

Afinal, argumenta quem estuda o trânsito, quantos jovens recebem o direito a pilotar máquinas poderosas, em duas ou quatro rodas, com os hormônios à flor da pele e seguros sobre a segurança e perícia deles e de terceiros? Eles estão e são capazes de enfrentar situações incomuns nas ruas e estradas logo ao receber a CNH aos 18 anos?

 

Por qual razão a legislação brasileira insiste em acomodar pressões de mercado para tratar de segurança e mobilidade, sem garantir que o jovem motorista tenha condições de lidar com imprevistos, ultrapassagens, aceleração e desaceleração em alta velocidade, adversidades como aquaplanagem e necessidade de decisão ágil para situações defensivas em ambientes como a noite, sob chuva ou iluminação deficitária, ou em uma  péssima pista de rolamento?

 

'Treinado'

 

O jovem no Brasil é “treinado para tirar carta e não dirigir”. A opinião é do engenheiro mecânico pela Politécnica USP, consultor e empresário do segmento automobilístico Marcos Camerini, do AutoMercado & Cia.

 

“É extremamente necessário que o candidato a motorista tenha aula prática de dia e durante a noite, na cidade e estrada, tudo obrigatório. Hoje, a regulamentação concede habilitação para quem nunca treinou e o jovem pega a CNH tendo de aprender tudo com a autorização para dirigir nas mãos”, observa.

 

Mesmo que o simulador consiga suprir as situações de rua, Camerini considera imprescindível “ir para a rua”. “Muitos estão na rua sem nenhuma noção de espaço, de visualização, de trânsito. Isso está claro”, comenta.

 

Delegado responsável pela então Ciretran Bauru por vários anos, o atual assistente da Seccional de Polícia, Dernival Inforzato também considera fundamental “a aula noturna e o aprendizado em rodovia”.

 

Sem a prática na situação concreta, Inforzato pondera que o “habilitado” recebe uma máquina perigosa nas mãos. “Condições adversas enfrentadas à noite só podem ser dirimidas com o condicionamento específico, real, com o stress do fato concreto. O trânsito mata mais à noite e mata mais os jovens”, diz.

 

O delegado lembra que a legislação não impede o treino em rodovia, situação reclamada por especialistas. “Para lidar com situações como sair para ultrapassagem segura, lidar com freio motor, conter corretamente o veículo durante uma derrapagem ou algo do gênero, se comportar com segurança em fila atrás de um veículo mais lento, como caminhão, são exemplos de casos que devem ser treinados antes da habilitação e não depois”, exemplifica Inforzato.

 

Mais aulas, menos prática na rua

 

Resolução do Departamento Nacional de Trânsito determina que candidatos a tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) devem fazer, pelo menos, 25 horas de aulas práticas ao volante. Ainda não recepcionada para o Estado de São Paulo, a mudança vale apenas para quem for tirar a CNH na categoria B, específica para veículos de passeio com capacidade de carga inferior a 3.500 kg. Até então, eram necessárias 20 aulas práticas.

 

A norma aumenta de quatro para cinco as horas/aulas noturnas.  No curso teórico não houve alteração. De qualquer forma, o Denatran institui que até 30% das aulas podem ser feitas em simuladores. Isso permite que o candidato troque sete aulas nas ruas por simulador, no total. Para motos (categoria A), os interessados em tirar a CNH passaram a ter 20 horas/aula, contra 15 de antes, sendo que quatro delas deverão ser noturnas.

 

Para o proprietário de autoescola e instrutor para CNH, Paulo Pereira Castro, as alterações não aperfeiçoam a formação dos novos motoristas. “A maior parte dos jovens que vai a uma autoescola em busca da CNH não sabe nada, não tem domínio geral sobre o veículo e as principais manobras ao volante. E as 25 aulas práticas não resolvem essa questão. Ao contrário. Como a norma permite substituir mais hora/aula por simulador, no final o novo motorista tem ainda menos contato com a situação real de rua, o que é muito ruim. Agora é permitido trocar sete de 25 aulas”, opina.

 

Paulo Pereira salienta que a troca por aula em simulador é facultativa. “Mas, apesar dessa opção, a aula noturna continua não sendo obrigatória, assim como não se exige dirigir à noite. E a falta dessas exigências é um absurdo”, comenta.

 

Para o especialista, a decisão de aumento “nominal” (e não de prática) de horas/aula atende a uma questão comercial. “Essa mudança para mim veio para desovar a compra de simulador por empresas, um investimento caro que não sai por menos que R$ 25 mil. E a autoescola ainda tem de ter um funcionário para operar isso, cuidar da aula”, comenta.

 

Mas tem mais. Pereira lembra que, com o simulador, a empresa que atua no setor tem de pagar pelo cofre virtual, o armazenamento do arquivo de imagens das aulas pelo período de cinco anos. 

 

“Ninguém vai comprar um simulador e investir um volume ainda maior de recurso para instalar um grande servidor e armazenar dados em arquivo virtual por esse tempo. Então, junto com o simulador vieram outros custos associados. A pressão para resolver isso no mercado deve ter sido grande, porque é custo alto para retorno complicado”, posiciona.      

 

Paulo Pereira contesta os resultados com o uso do simulador. “O jovem não sabe nem dominar o veículo em uma rampa, e aí ele treina com três telas, sem situações reais de trânsito em visão periférica, sem as surpresas de visualização que só a rua traz, e mexe com a máquina para produzir o que acontece lá no stress do tráfego. Na vida, algumas experiências precisam ser vividas e não mecanizadas, como o aprendizado ao volante”, argumenta. 

 

Moto? Só após aprender sobre 4 rodas

 

Os acidentes envolvendo moto são os que mais matam no trânsito das cidades. Em Bauru o índice chega a 60% do número de óbitos. O agravante é que em todos os óbitos a vítima é jovem. Além disso, o maior volume de acidentes graves e fatais é com jovens ao volante em duas rodas e à noite, sobretudo nas madrugadas de sexta para sábado em Bauru.

 

Diante desse quadro, engenheiros, técnicos e a presidência da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) saem em defesa da alteração na regra para acesso à 1ª Carteira Nacional de Habilitação (CNH) no País, com a emissão de autorização para dirigir somente para veículos de quadro rodas, na origem. O acesso à “carta para moto” só deve vir depois do aprendizado ao volante de veículo em quatro rodas.

 

A medida é ponto pacífico entre integrantes do Grupo de Apoio a Acidentes de Trânsito (Garat) criado pela empresa municipal para avaliar as causas e implicações para a engenharia de tráfego e segurança do usuário relativo a acidentes urbanos. 

 

O presidente da Emdurb, Nico Mondelli Jr., endossa a medida defendida pelo engenheiro de tráfego e gerente de engenharia da Emdurb, Aníbal Ramalho. “O jovem tem primeiro de aprender a dirigir sobre quatro rodas, sentir os efeitos do volante em um carro, para depois receber a CNH para moto. É um crime dar CNH só para moto. A regra está ajudando a matar jovens. Isso precisa acabar no Brasil”, condena Nico.

 

O engenheiro de tráfego Aníbal Ramalho dá seu ponto de vista: “CNH para moto só a partir dos 23 anos. Aos 18 anos, nem pensar. Com 18 anos só CNH para carro. Porque o jovem vai para a rua ‘autorizado a morrer’ e entra no trânsito sem a menor noção de responsabilidade e, pior, sem perceber as consequências desse perigo para ele e para terceiros. Isso envolve vidas”, posiciona.            

 

Para Aníbal Ramalho, a questão tem de ser encarada com urgência no País. “Basta olhar os números de mortes no trânsito. A maioria são jovens, dirigindo motos e sobretudo à noite e em finais de semana. Você só consegue minimizar isso na origem eliminando a 1ª CNH para moto. O cara aprende os exercícios obrigatórios com a moto no circuito e não vai para a rua. E isso aprofunda os já conhecidos vícios comuns ao dirigir uma moto, como andar no corredor. Se treinar obrigatoriamente primeiro com carro, o jovem vai ter noção espacial no trânsito que hoje ele não tem, porque pode ir direto para a moto”, complementa.

 

O engenheiro considera que a “moto é o convite para fazer errado na rua. O vício na direção sobre duas rodas vem de graça. Ele não tem a menor noção do posicionamento e da visão de um carro, do comportamento ao volante sobre quatro rodas. Explodiu o número de mortes com moto e vão morrer muito mais jovens, infelizmente, com a situação atual”, finaliza.

 

‘É fácil e barato morrer nas ruas’

 

O consultor e engenheiro Marcos Camerini adverte para as facilidades econômica e de habilitação que “incentivam” o aumento de mortes no trânsito. “Hoje é fácil e barato morrer nas ruas. A moto nova tem preço acessível e o financiamento é de longo prazo. O jovem vai correndo comprar. Ele treina o circuito para obter a primeira habilitação e sai para a rua pronto para morrer, sem qualquer noção da condução em quatro rodas e o sistema de tráfego”, cita.

 

Camerini  reforça que a maior parte dos mais jovens é indisciplinado no trânsito. “O problema é que a molecada que anda de moto não liga para sinalização. É fato, anda no corredor, entra onde der, ‘dá pau’ com um veículo em duas rodas, chuta espelho retrovisor, apavora. O problema é de educação para o trânsito. Do jeito que está é muito grave, é o poder público assistindo às mortes com uma legislação frouxa e acesso fácil para se matar no guidão”, observa.

 

O engenheiro recorda que no Japão o cidadão é obrigado a rodar alguns anos somente com carro para, depois, acessar a habilitação para moto. “E mesmo com experiência primeiro com carro, a habilitação no Japão é concedida com graduação por cilindrada. Tem de mudar a legislação aqui urgente, já está atrasado”, finaliza.

 

Mudanças nas regras

 

O presidente da Associação das Autoescolas em Bauru, Valdir Paulo Oliveira, endossa as incongruências da norma que amplia a grade de horas/aula para a habilitação e reforça as críticas para a não realização de aulas em rodovia. “São Paulo vem resistindo a essas mudanças de norma como o número mínimo de aulas/hora, alegando que não há condições técnicas de adotar a mudança nos sistemas já instalados. A questão é que, na origem, quem tem noção de direção sai razoavelmente preparado apenas com 20 aulas práticas, mas quem não tem não aprende nem com as 25 aulas, e são muitos”, comenta.

 

Valdir aponta, ainda, para o contraponto na justificativa para não realizar aulas na rodovia. “O Estado brasileiro que não obriga aula em rodovias é o mesmo que, em seguida, dá habilitação para um menino de 18 anos ir daqui até o litoral dirigindo em rodovia sem qualquer prática, expondo ele e demais pessoas. Isso é questão de bom senso e de interesse público. Tem de mudar as regras e exigir aula em rodovia”, defende.

 

Sobre o uso do simulador, o presidente da associação pondera que o custo da hora aula é muito alto para quem investe no negócio, tornando inviável o uso do equipamento para as condições atuais de mercado. 

 

O instrutor Paulo Pereira ressalta, no caso do elevado número de acidentes de trânsito envolvendo motos, que o custo final para a própria sociedade é ainda maior. “Morrem jovens com facilidade e os custos em consequência disso são ainda maiores, com mais despesas decorrentes de atendimento hospitalar no sistema público, encarecimento dos seguros e outras questões. Tem projeto de lei em andamento no Congresso para exigir aula prática para moto na rua, mas isso é pouco. Tem de proibir acesso à primeira CNH para moto, exigir primeiro passar pelo carro”, completa.

 

 

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