Um passeio pelo Google mostra coisas que surpreendem. Quem poderia imaginar que no Estado mais pobre do Brasil existe mordomia semelhante à dos altos dirigentes da China? Uma publicação da revista política Mingjing, de Hong Kong, mostra o ex-líder chinês aposentado Jiang Zemin no Mar Morto, em Israel, cercado por seguranças pessoais. Jiang, entre outros oficiais aposentados, tem uma excelente aposentadoria, incluindo uma vila luxuosa e numerosos servidores pessoais. Pena que este espaço não comporte imagem, para vê-lo se refestelando. "Cada membro aposentado do Comitê Permanente do PCC goza de tratamento privilegiado, incluindo seis seguranças, dois motoristas, dois atendentes pessoais, dois secretários, um cozinheiro, um médico e uma enfermeira. Se precisam voar, os líderes aposentados têm à disposição um avião especial da Air China ou um avião militar, além de três trens reservados para seu uso, diz um documento da Secretaria de Oficiais Veteranos Aposentados", citado pela revista.
E por que este fato, que é lá do outro lado do planeta, despertou curiosidade? Porque os jornais e blogs do último mês do ano mostraram fartamente, que aqui no Brasil, que é um país de governo democrático e não totalitário como o governo comunista chinês, existem dirigentes que se aposentam com mordomias semelhantes. E justamente no Estado mais pobre. Foi assim que comentaram que Roseana Sarney renunciou ao governo do Maranhão para usufruir uma aposentadoria de R$ 24 mil, que somados aos R$ 23,8 mil, que já recebia como aposentada do Senado, equivale a R$ 47.800,00. Mas não é só. Por quatro anos ainda terá direito a quatro servidores de apoio pessoal: dois policiais civis, um motorista pertencente aos quadros da Polícia Militar ou Corpo de Bombeiros e um ajudante de ordens, cujos subsídios somam R$ 25.900,00. Anteriormente, apenas um ficava à disposição de forma permanente. Um projeto de lei de sua autoria tornou quatro permanentes.
Ao sair do governo, que ela já havia ocupado em outras ocasiões, envolvida em escândalos, juntamente com o marido, ela diz ter transformado o Maranhão em um Estado novo. "Agradeço a Deus e ao povo do Maranhão, pelo carinho e afeto com que sempre me trataram e por me darem o seu amor. Sempre olhei com carinho para os maranhenses, que são minha família". Talvez fosse mais adequado dizer "da minha família", porque os Sarney sempre comandaram o Maranhão como se fosse sua propriedade. O patrimônio dos Sarney não tem raiz em tradição de fazendeiros ou empresários - não herdaram nenhuma propriedade, tudo foi construído através de participação no governo, o que não é uma novidade aqui no Brasil. Quantos políticos, que se vangloriam de ter origem humilde, se tornaram ricos apenas participando de prefeituras, Estados ou da esfera federal?
Tanto lá na China, que o governo comunista se diz protetor do povo, como aqui no Brasil, que o governo democrático diz que tudo é feito para o bem do povo, há uma enorme desigualdade no tratamento dispensado aos trabalhadores, principalmente na aposentadoria. Lá, a situação dos aposentados do setor privado é péssima. Aqui no Brasil, enquanto aqueles que trabalham na iniciativa privada têm uma aposentadoria limitada a um valor próximo de cinco salários mínimos, os que trabalham para o governo têm aposentadorias que chegam a ultrapassar 50 salários mínimos, "furando o teto" estabelecido para o pessoal da ativa. Um milhão de aposentados e pensionistas públicos custam várias vezes os gastos com 30 milhões de aposentados do INSS. E mais ainda, enquanto a aposentadoria pública é reajustada com o pessoal da ativa, a do setor privado não segue o reajuste do salário mínimo e vai perdendo valor com o tempo. Por isso que muitos precisam continuar trabalhando, mesmo que seja como "bico".
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru