Charge significa "carga". Essa arte primitiva sobrevive do exagero, das coisas que não têm sentido. Mas não inventam a partir do nada, daí a eficiência do gênero. A deformação dos fatos é mais corrosiva que o realismo da imagem da foto, do cinema e da televisão. Na era da tecnologia, o cartunista precisa apenas de um lápis bem apontado. Ele revela a cara, o caráter das pessoas, o detalhe que, de tanto ver, não se percebia. Em um país onde os corruptos costumam ficar impunes, a caricatura não os deixa imunes. Há 175 anos no Brasil, a caricatura vem prestando grandes serviços. Ajudou na abolição da escravatura ao mostrar o vilipêndio ao negro. Trabalhou pela República na denúncia à decadência da monarquia. Essa coragem fez suas vítimas, também aqui. O Barão de Itararé, depois de muito apanhar, colocou um cartaz na porta da sua sala: "Entre sem bater". No episódio francês, os vingadores de Alá entraram na redação à bala, deixando mortos, feridos e muito sangue.
Sou Charlie, mas tenho minhas dúvidas. Não é humorista quem quer. Eu nunca consegui. Isso tem essencialmente a ver com uma estratégia mental em nível quase instintivo. Convivi profissionalmente com cartunistas geniais, e muitas vezes fiquei chocado com o material suicida que produzem. O humorista perde um amigo, mas não perde a piada, mesmo que venha a somar mais desafetos a sua lista. Alguém disse que o diretor do Charlie Hebdo era uma criança grande. Acredito. Mas é este tipo de "alienação" levada a um espírito de "missão" contra os poderes, instituições, usos e costumes que fazem de alguns humoristas tipos raros. O problema é a alta capacidade que eles têm de desconstruir a realidade instituída, que temos como certa, e nos devolver os fatos simplificados e satirizados.
O filósofo francês Jacques Derrida, morto há dez anos, nascido na Argélia como os pais dos assassinos dos jornalistas, ficou conhecido como o pensador da "desconstrução". O termo foi banalizado, ganhando em setores da mídia o sentido de "demolição". Isso nada tem a ver com as propostas de Derrida, pois não se trata de destruir uma ordem para impor outra, mas apontar o que, na ordem estabelecida, não funciona mais, abrindo o horizonte da reflexão. Ao contrário do que supõe um equívoco corrente, "desconstruir" não significa destruir uma cultura, excluí-la como exótica, diferente e à margem. Em vez de devorar o outro, como ato de violência real ou simbólica, caberia acolhê-lo incondicionalmente no banquete cultura. "Comer junto", como diria Oswald de Andrade. Derrida falava em "alteridade" ? a qualidade ou estado do que é "outro" ou é "diferente". Uma cultura não deve ter como objetivo a extinção de outra, mas tornar possível uma relação baseada no diálogo e valorização das diferenças existentes. Vive la différance! Derrida rasura a ortografia ao substituir o "e" por "a" no "différance", para aumentar o seu potencial.
O islamismo tem 1,7 bilhão de "fiéis" no mundo, 5 milhões deles na França. Nada justifica o terrorismo mas, existe algo além do "atentado à liberdade de imprensa" no massacre de Paris: o islamofobismo, a exclusão dos imigrantes na Europa, o desemprego, o racismo, a questão palestina, a guerra no Oriente. E a ignorância do fundamentalismo, que também existe na política, na academia e até no futebol. Volta o debate sobre a autocensura. A mídia deve insistir em cartoons que sabe que muitos consideram ofensivos? E se decidir não o fazer, vão demonstrar sensibilidade ou medo? O New York Times, referência mundial, optou por manter a opção de sempre: "não publicar imagens ou outro material que tenha a intenção deliberada de ofender sensibilidades religiosas". O Washington Post segue a mesma orientação. As agências noticiosas Reuters e Associated Press tomaram decisão idêntica de não distribuir as imagens com representações polêmicas de Maomé. Das grandes redes de televisão, somente a CNN admitiu imagens das caricaturas exibidas em manifestações, desde que em planos abertos e muito afastados.
Aqueles loucos de Paris desenhavam nossos medos burgueses há 45 anos. O Charlie Hebdo havia sucedido o Hara-Kiri (ato suicida de cortar a barriga, em japonês), revista fechada pela censura porque fez gozações com a morte de Charles De Gaulle (1970). A sociedade francesa chorava a morte de um herói nacional, indiferente aos 146 mortos no incêndio de um salão de baile, na mesma ocasião. Os chargistas atacam as regras, o poder e as opressões das instituições. Ajudam que nós nos percebamos, mediante o choque do ridículo. Devem ter seus limites?
O autor é jornalista e articulista do JC